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quarta-feira, 5 de julho de 2017

A boceta de Antoninha

                        

          A inveja possui ramificações e manifesta-se conforme a ocasião ou atratividade do objeto em questão. A linha que separa esse sentimento da admiração sincera, desprovida de    malícia, é tênue como um fio de cabelo ou o caráter de um político. Tão frágil e imperceptível é, que todos nós, indubitavelmente, acabamos cobiçando em menor ou maior grau, aquilo que não nos pertence. O pior é que, em grande parte das vezes, nem nos damos conta disso, o que nos deixa inteiramente vulneráveis à esse, que configura-se num dos sete condenáveis pecados capitais. Ora, jamais teremos a iniciativa de remediar uma enfermidade que ainda nem percebemos. Necessitamos, antes de mais nada, enxergá-la, detectá-la em nós mesmos para que daí nasça a vontade de corrigirmos o que está errado e essa percepção é difícil para alguns.

           O olho grande é implacável, existe, acreditemos ou não em energias psíquicas ou fenômenos espirituais. Fiquem tranquilos leitores ateus, pois o pano de fundo dessa narrativa não consiste em enumerar técnicas de benzeduras ou sugerir talismãs contra mau-olhado, muito embora fosse louvável essa preocupação. A história, apenas ela, será a minha grande aliada e veículo de expressão nos próximos parágrafos, abduzindo-nos a uma remota época onde as pessoas andavam de bonde e charrete, escreviam com caneta tinteiro e comunicavam-se tão somente através de cartas quando queriam trocar confidências entre si. A memória do fato, preservada em diário e correspondência pessoal de uma senhorita que desembarcara de Portugal pra cá no século XVIII, provocará, entre algumas polêmicas, um questionamento sobre até onde o consumismo pode nos enterrar à lama escura e pegajosa da inveja.

          O Brasil vivia um profundo período de transição e a monarquia apresentava já visíveis sintomas de cansaço. As ideias republicanas, que sugeriam ao país um novo regime de governo, começavam a ganharem força. Inspirados pelos vizinhos argentinos e uruguaios, nosso aliados na Guerra do Paraguai, os militares contavam nos dedos as horas para expulsarem daqui, de mala e cuia, o imperador D.Pedro II e seus convivas mais próximos. Sonhavam implantar nesta ex colônia portuguesa uma República Federativa, onde o presidente governasse, o legislativo elaborasse leis e o judiciário zelasse pelo cumprimento destas. A recente abolição da escravatura, assinada há pouco mais de seis anos, em meio a parcial entusiasmo da sociedade, não passava de apenas teoria e ainda não trouxera efetiva liberdade ao negro, que sem concretas oportunidades de subsistência continuou a desempenhar as mesmas tarefas braçais de outrora, em troca de um prato de comida.  

         O ano era 1894 e a fonte de memórias extraída de um livro de anotações encontrado no baú de Dona Lourdes Epifânia de Coimbra Salazar Fernão, mulher de um fidalgo português radicado no país desde a segunda metade do século dezoito. Naquela época, tudo que relacionava-se ao luxo, ao glamour, a beleza, vinha,  invariavelmente, da Europa e o burburinho que agitou aquele vilarejo carioca estava, de fato,  relacionado a algo contrabandeado do primeiro mundo.



   Todos nós aqui dos lados de cá do além mar, inclusive eu, estamos a querer a boceta de Antoninha.



    Era isso, acreditem, o que lia-se na página 34, lá pelas últimas linhas, sem emendas, rasuras ou metáforas. O diário, á partir desse ponto, encontra-se quase que exclusivamente dedicado a esse tema aparentemente fútil, mas que utilizarei de parâmetro histórico para a inveja. Se acreditarmos que é possível aprender com os erros cometidos no passado, sejam eles nossos ou não, sigamos pois, juntos, por mais alguns parágrafos, distância suficiente  para que eu pormenorize, com base nos já referidos escritos, o quê, de fato, aguçava tanto desejo por um objeto  tão efêmero como aquele.

        Antoninha tinha, mas não dava nem emprestava, uma *boceta que literalmente valia ouro. Ela conseguia a incrível façanha, para aquela época, de despertar a cobiça de homens e mulheres, que sonhavam dia e noite com algo praticamente inviável. Eusébio já tentara e dera com os burros n'água. Floriano aproximara-se mas a moça percebera as suas intenções ocultas e despachou-lhe porta à fora no segundo dia de namoro. Setembrino chegou a tocá-la, mas foi repelido como a um gatuno vulgar, levando golpes de sombrinha que incharam-lhe o rosto esquerdo. Entre as mulheres, a que mais chegou perto foi Antonieta, que fingiu-se de amiga para descobrir o melhor momento e local para agir. Acabou, coitada, sendo traída pela própria ansiedade e no dia de dar o bote certeiro atrapalhou-se toda, sendo desmascarada na hora H.

     Outra que merece menção, mesmo não tendo aproximado-se o bastante para vangloriar-se, foi Joaquina, a primeira a descobrir o passado e o real valor de mercado daquela, digamos, caixinha oval. Graças à ela, uma especialista no assunto, a notícia espalhou-se rápido, primeiro entre as donzelas burguesas, estendendo-se às raparigas ordinárias do povoado e por último aos rapazes enamorados de jovens damas, desejosos de impressionarem as suas amadas. Entre estes, para não chatear a paciência do leitor com considerações estatísticas, aludo aqui, tão somente, ao afortunado Estevão, um aristocrata recém doutorado em Direito pela renomada Universidade de Oxford na Inglaterra. O tal sujeito, que retornara à casa paterna após duas décadas de formação na Europa, em meados de 1891, ano em que a primeira constituição republicana é promulgada e Machado de Assis  lança às prateleiras "Quincas Borba", queria a todo custo enamorar-se de certa fidalguinha. A moça, não restava dúvida, era um mimo de encher os olhos, no entanto, suas ambições tornavam-lhe uma cara aquisição. Rita queria casar, mas casar bem, com o melhor partido que pudesse financiar os seus sonhos de morar em Veneza, na Itália e frequentar os badalados cafés de Milão. Ficava lisonjeada apenas com presentes caros e peculiares, como a tal pequena circunferência em questão. É lógico, tão logo o mancebo pensou em pedir a mão dela em casamento, passou a imaginar meios de apropriar-se, indevidamente, do desejado utensílio feminino de Antoninha. Não foi bem sucedido, apesar da queda que a moçoila sentia por ele, um promissor advogado em início de carreira.

        Sensível a confusão que à essas alturas, provavelmente, estará embaralhando a mente do leitor, em meio a tantas frustradas conquistas, agravadas com a recente insinuação  de um triângulo amoroso, vamos aos fatos, nus e crus, pormenorizados conforme informações da linguaruda Joaquina:

         Reza a lenda, que D. Maria I, mãe de D. João VI, 1º imperador do Brasil, não batia muito bem das ideias. Era tão piradinha que colocou na própria boceta uma pomba forjada em ouro, encravada de diamantes, tratando a milionária esculturazinha como se tivesse parido o pequeno  pássaro. Agasalhava-o no colo, beijava-o e apalpava-o com o bico como se fosse, de fato, uma afetuosa mamãe pomba. A boceta, conforme a sua peculiar linha de raciocínio, era o ninho que servia de descanso às longas revoadas da pombinha, peça fundida e moldada numa casa de fundição mineira, no auge do ciclo do ouro, na segunda metade do século XVII.

         Um dia, em Portugal, contrariada com uma suposta malcriação da ave de estimação, jogou a caixinha amarela arredondada fora, pela janela, em plena rua, com a pequena fortuna dentro. Posteriormente, com a transferência da família real portuguesa para o nosso país, em janeiro de 1808, um dos membro da comitiva desembarcou no Rio de Janeiro com o objeto oculto entre seus pertences, ofertando-o anos mais tarde à sua filha, Antonia Margarida de Queiroz Andrade, a Antoninha, nossa protagonista central.

    Findo o relato, feitas as devidas reconstituições e cálculos, é possível, ao menos parcialmente, aceitarmos que um pequeno receptáculo feito para guardar joias, seja disputado à unhas e dentes por seres humanos. Com efeito, a íntima ligação com a família real, aliada ao grande valor de mercado, tornavam aquele acessório deslumbrante aos olhos de qualquer um . Ainda assim, mesmo tolerando que a carne seja fraca e o santo ás vezes de barro, não consigo silenciar uma impertinente indagação que me faz divagar e projetar-me à um futuro próximo:



 O que um homem será ainda capaz de fazer por causa de uma boceta?


                                                                                                   Cesar


 * boceta- caixinha redonda, oval ou oblonga, feita de materiais

                      diversos e usada para guardar pequenos objetos.

                       (Minidicionário Luft)         


                      
           

       * b

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