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quinta-feira, 1 de março de 2012

Historia do passarinho

         



                                                


           Dentro da cultura tradicionalista gaúcha os animais, em linhas gerais, são vistos como fonte de exploração e consumo (churrasco), sendo-lhes reservado um papel meramente coadjuvante e subalterno nas manifestações artísticas próprias desse estilo regional. No cancioneiro dos trovadores populares, não faltam descrições de esporas na virilha, relhaços, laçassos e abate de quadrúpedes para a satisfação do paladar. Nós, gaúchos, mantemos a nossa fama de machos apoiando-nos em atos "heróicos" como esses, praticados contra seres vulneráveis e escravizados.
          Felizmente, aqui também existem alguns lampejos de sensibilidade, como esse, escrito pelo saudoso cantor e compositor Gildo de Freitas (1919-1982), um expoente da música tradicionalista rio-grandense. Vale á pena escutar esses versos, que testemunham a visão e sabedoria de um homem simples do campo.






Eu destinei um passeio
Domingo muito cedinho
Peguei o meu violão
E fui para o mato sozinho
Descobri uma figueira
Com os galhos cheio de ninho
E passei a manhã inteira
Debaixo dessa figueira
Apreciando os passarinhos
Como eu tava achando lindo
O viver dos passarinhos
Se via perfeitamente
Vir com a fruta no biquinho
Se via quando eles davam
No bico do filhotinho
E eu ali estava entertido
Com o viver tão divertido
Da vida desses bichinhos
Depois veio o negro velho
E também trazia um negrinho
E este tinha uma gaiola
E dentro dela um bichinho
Perguntei que bicho é este
Diz ele este é um canarinho
Com este bicho que está aqui
Nas florestas por aí eu caço
Qualquer passarinho
Cantava que redobrava
Aquele pobre bichinho
Parece até que dizia:-
É triste eu viver sozinho...
só porque eu fui procurar,
Comida pra os filhotinhos...
E fui tirar desse alçapão...
Hoje eu estou nesta prisão
e nunca mais fui no meu ninho
Aí eu fui recordando
o que já me aconteceu
Há muitos anos atrás
Que a policia me prendeu
O juiz me condenou
e depois de mim se esqueceu
E eu pelo radio escutava
Quando os colegas cantava
E aquilo me comoveu
Então eu fui perguntando
Quanto quer pelo bichinho
Respondeu ele eu não vendo
Eu cacei pra o meu filhinho
Porém saiu uma voz
Da boca do gurizinho
E a gaiola custou 10
Quem me der 20 mirreis
Pode levar o passarinho
Comprei com gaiola
E tudo para evitar discussão
E fui abrindo a portinha
E abrindo meu coração
E o bichinho foi saindo
E eu peguei meu violão
E num versinho eu fui dizendo
O que tu estava sofrendo
Eu já sofri na prisão
Quem vai caçar de gaiola
Pra ver os bichos na grade
Deveria ser punido
Pelas mesma autoridade
Porque o coração dos bichos
Também consagro amizade

O lei tu faça o que puder
Mas os bichos também quer
Ter a mesma liberdade
.


                        

                                  Som na caixa...


         
         

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rainha das Águas

       Saudações á Iemanjá, protetora dos oceanos e serva da grande Mãe Terra. Seu dia é comemorado em 02 de fevereiro, em quase todas as praias do litoral brasileiro.

Regularize o bom senso


           Ao longo das décadas os meios de comunicação, o Estado e a própria sociedade vêm mantendo, sem surtir o efeito esperado, uma postura de repressão total ao consumo da maconha, erva originaria da Ásia e também utilizada no passado para a confecção de roupas, cordas e preparação de alimentos. Sem adentrar aqui na plataforma da apologia, quero tão somente fazer uma breve alusão ao emprego místico-religioso da planta em tribos de diversas etnias, para contrabalançar um pouco o estigma da criminalidade que a acompanha.
          Talvez a figura mais ilustrativa a esse aspecto que tento discutir refere-se ao pajé, elemento de vital importância na organização tribal. É de conhecimento notório que ele ocupa, ao lado do cacique, chefe militar, papel incontestável na tomada das principais decisões que determinam o destino dos grupos indígenas. Através de visões, são eles quem indicam direções á tomar e remédios naturais contra todo tipo de mazelas, desempenhando, portanto, papel de médicos e guias espirituais perante os seus irmãos de raça. Os pajés atingem o estado mental ou transe que possibilitam as suas curas, utilizando diversas ervas ingeridas como bebida ou inaladas como fumo. As variações dependem das tradições de cada tribo. A maconha, cientificamente conhecida como cannabis sativa, pertence a esse grupo de ervas, para eles sagradas, que conduzem os curandeiros a um universo de intuições e revelações. Por outro lado, a utilização é controlada, partindo do próprio pajé a decisão de compartilhar ou não o seu cachimbo sagrado com alguém.
        
  

            Falar em religião é um tema bastante complexo, que pode ser discutido em outras circunstâncias e local. Limito-me aqui, sem defender ou condenar crenças tribais, a questionar a postura totalmente repressora e imparcial que generaliza a erva em questão como “coisa de bandido” A solução para esse mega-problema que é o tráfico de drogas, a meu ver, nascerá quando mais canais de discussões forem abertos para chegarmos a um consenso sobre o que é de fato crime. Existem pessoas “do bem”  que consomen-na e isso não pode ser ignorado.