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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Literatura que incomoda



'Selva Trágica' foi lançado originalmente em 1960. É um romance épico, que, incompreensivelmente, estava esquecido.

Se o Brasil já soube reverenciar os seus grandes escritores, como ao tempo de José de Alen­car (1829-1877), Machado de Assis (1839-1908), Olavo Bilac (1865-1918), Graciliano Ramos (1892-1953) e Jorge Amado (1912-2001), hoje não o faz tanto. E não é porque não existam grandes escritores. É por desconhecimento mesmo das novas e velhas gerações que são bombardeadas por literatura norte-americana de baixo nível, que aqui chega em formato de livros de autoajuda.

Quem é professor de Língua Portuguesa na graduação conhece bem o drama: se pedir para que seus alunos escrevam resenha crítica de algum livro que já tenham lido nos últimos anos, será contemplado com apreciações sobre os chamados best sellers de autores norte-americanos. E mais: na maioria, são resenhas que tiram da internet e que assumem como suas, praticando apropriação indébita. Mas o que esperar de um país que há muito tempo não prepara seus professores do ensino fundamental e médio, mas pretende 'inundar' as escolas públicas de lousas digitais, provavelmente porque algum figurão há de ganhar gordas comissões nas vendas para prefeituras e órgãos públicos?

Mas nem tudo está perdido. Ainda bem que, de vez em quando, aparece um editor de visão e bons propósitos, como Nicodemos Sena, que, aliás, é também um fino escritor. Di­retor da Associação Cultural Letra Selvagem, de Taubaté-SP, Sena vem relançando vários livros que já deveriam ter sido canonizados na história da literatura brasileira. Mas que, sabe-se lá por que, não o foram.

É o caso de 'Selva Trágica', de Hernâni Donato, que, lançado em 1960, causou grande impacto no leitor a ponto de esgotar quatro edições. E não só. Em 1963, em função do sucesso de crítica e de público, foi transformado em filme em preto e branco pelo diretor Roberto Farias, marcando a estreia de Reginaldo Farias, que viria a se tornar um dos principais atores do cinema brasileiro. O filme ganhou o Prêmio Saci, promovido pelo jornal 'O Estado de S. Paulo', e representou o Brasil no Festival de Veneza. Hoje, é considerado um 'clássico' do Cinema Novo brasileiro e não pode faltar no acervo de uma cinemateca.

Hernâni Donato, 90 anos, nasceu em Botucatu, interior de São Paulo, em uma família de imigrantes italianos. Filho de um operário, mesmo com dificuldades tornou-se um intelectual de sólidos conhecimentos e, profissionalmente, desempenhou a atividade de publicitário. Membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros nos mais variados gêneros, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Traduziu 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri. Como romancista, publicou ainda 'Chão Bruto', 'Rio do Tem­po', 'O Caçador de Es­me­raldas' e 'Filhos do Des­tino', que obtiveram êxito editorial nas décadas de 1950 e 1960.
Ernâni Donato

De que trata 'Selva Trágica'? É um romance-documento como poucos na história da literatura brasileira. À maneira de Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902), o jovem Donato empreendeu uma minuciosa pesquisa, não só em fontes impressas como in loco, visitando a região em que situou o seu romance e entrevistando pessoas que serviriam para compor seus personagens. Ouviu casos terríveis contados por antigos trabalhadores das 'minas' de erva-mate no Mato Grosso, que só não surpreendem porque no Brasil de hoje os jornais, de vez em quando, ainda trazem notícias de que as autoridades federais flagraram trabalho escravo em fazendas.

É do que trata, em poucas palavras, o livro de Donato. Até 1938, período do primeiro governo de Getúlio Vargas, o nosso clone de Hitler e Mus­solini, manteve-se o monopólio da Companhia Mate Laranjeira, empresa argentina que explorava a extração do mate nos ervais do Mato Grosso. O trabalho era desumanamente desenvolvido em condições que fariam o inferno, de Dante Alighieri (1265-1321), parecer um oásis.

Ao final da década de 1950, quando Donato embrenhou-se nos ervais em busca de material para o seu romance, ainda havia cerca de cinco mil homens e mulheres que trabalhavam em condições subumanas, sem descanso, durante 14 horas por dia, na colheita e transporte da erva. Ainda assim, há historiadores que afirmam que o período Vargas (1930-1945) foi aquele em que pela primeira vez os trabalhadores tiveram seus direitos reconhecidos e respeitados. Talvez isso se tenha dado em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, porque no interior o Brasil sempre foi um imenso campo de concentração, que nada ficaria a dever a Auschwitz-Birkenau ou ao Gulag soviético, ainda que em tempos de paz.

Entre as muitas histórias que Donato recolheu e transportou para a literatura, estão a do homem que teve de lutar de garrucha em punho e viu seu filho morrer, porque ousou escrever sobre o que se passava na cultura do mate; e a do peão que trazia no corpo sinais de 18 facadas, com cortes que haviam sido costurados com agulha e barbante de costurar saco. Mas isso ainda era pouco: diariamente, os homens tinham de transportar o mate entre a 'mina' e o acampamento, pelo meio da selva bruta, em fardos de 150 ou 200 quilos, amarrados às costas. Qualquer passo em falso causava a quebra da espinha dorsal do carregador. A vítima gemia a noite inteira, até que os demais trabalhadores pediam ao administrador que tivesse caridade. Então, os próprios companheiros recorriam ao jogo de cartas para que ao perdedor coubesse a tarefa 'de dar paz ao moço desgraçado', ou seja, dar um tiro na cabeça daquele ser agonizante (pág.36).

Os bebedores de mate — hábito ainda largamente difundido não só no Centro-Oeste e Sul do Brasil, como nos países de fala hispânica — que viviam na cidade, provavelmente, nem imaginavam como a erva-mate seria cultivada. Talvez tenham ficado indignados com os fatos narrados em 'Selva Trágica', o que justificaria a procura que o livro despertou no acanhado ambiente cultural paulista e carioca daquela época.

São narrações pungentes que horrorizam pela brutalidade com que era tratado o 'uru', o homem responsável pelo 'barbaquá', espécie de forno de madeira em que a erva era preparada para o consumo. Esse coitado era obrigado a trabalhar dia e noite sem parar, remexendo as folhas da erva sob um calor infernal. Depois de algum tempo trabalhando sob essas condições atrozes, todos os pelos de seu corpo secavam, caindo.

O trabalhador ficava esturricado e se transformava num feixe de ossos, talvez parecendo um salame defumado, enquanto os diretores da Companhia Mate Laranjeira confraternizavam-se com os donos do poder no palácio do governo em Cuiabá, no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, na Casa Rosada em Buenos Aires, e no Palácio de los López em Assunção, garantindo o privilégio do monopólio da extração da erva.
'Selva Trágica foi relançado em novembro de 2011

Por aqui se vê que 'Selva Trá­gica' é um romance épico, que, incompreensivelmente, estava esquecido. E olhem que não foi por falta de reconhecimento da crítica. Temístocles Linhares em 'História Econômica do Mate' (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1960) já o considerara um 'romance másculo, forte, bárbaro, como bárbara era a selva, como bárbaro era o trabalho nos ervais'. Artur Neves, na 'Revista Anhembi' (São Paulo, 1961), já o definira como 'uma história como nunca foi escrita em nossa terra'.




Como observa o professor e crítico literário Fábio Lucas em 'O Caráter Social da Literatura Bra­sileira' (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1970), em texto que serve de prefácio para esta edição, 'Selva Trágica' constitui 'um dos mais altos momentos da novelística de conteúdo social no Brasil'. Lembra Fábio Lucas que os ervateiros eram mobilizados na fronteira Brasil-Paraguai e levados por máfias para casas de prostituição, até que, bêbados, assinavam um contrato leonino com a companhia. Ficavam devedores para sempre, ganhando apenas para comer. Aos que tentavam escapar do inferno, restava a perseguição dos capangas da companhia que, quando os capturavam, espancavam-nos até a morte. 'Não pense que gosto de mandar bater. Mas quem segura esse povo no duro do trabalho se não usar dureza?', dizia Curê, o administrador (pág.142).

Os capatazes da companhia eram tão sórdidos que se sentiam no direito de abusar das mulheres dos ervateiros, enquanto estes se embrenhavam no mato. As mulheres serviam também para pagar dívidas, funcionando como moeda de troca entre os homens. Mas, apesar da sordidez da vida que levavam, havia ainda aqueles que encontravam forças para lutar contra a exploração e defendiam a extinção do monopólio da companhia. Entre esses, estavam os changa-y, 'os mais miseráveis dos miseráveis dos trabalhadores da erva', aqueles que tentavam trabalhar sem o patrão-algoz.

Luisão era um desses que escapara do inferno verde e andara por Cuiabá e Rio de Janeiro em conversas e peditórios com os políticos favoráveis à extinção do privilégio da companhia ervateira. Dizia aos companheiros: 'A Companhia faz também essa e faz a grande política em Cuiabá, em São Paulo, no Rio, em Buenos Aires, sei lá onde mais. Assim, cobre os gemidos e os gritos da pobre gente dos ervais. No andar em que vamos, nem no fim do século teremos forças para emparelhar o nosso passo com o passo da Companhia. Lá fora é que é preciso gritar. O Governo é que nos pode ajudar se chega a nos ouvir. Mas o Governo só ouve ribombo, so­luços não' (págs. 136/137).

Não por coincidência publicado em 1956, mesmo ano em que saiu à luz 'Grande Sertão: Veredas', de João Guimarães Rosa (1908-1967), 'Selva Trá­gica' é um passo adiante do romance regionalista da década de 1930, época em que o pobre entrou triunfalmente na literatura brasileira. Ambientado no mundo da fronteira, traz ainda uma complexa linguagem narrativa, um verdadeiro amálgama da língua portuguesa com o linguajar guarani, como observa a professora Nelly Novaes Coelho, da Universidade de São Paulo, na apresentação que escreveu para esta edição.

Nesse sentido, é de acrescentar que 'Selva Trágica' tem muitos pontos de aproximação com o trabalho do romancista, contista e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), autor de 'Los Ríos Profundos' (1956), 'Todas las Sangres' (1964) e 'El Zorro de Arriba y el Zorro de Abajo' (1971, póstumo), entre outros, que igualmente fazia um trabalho de campo antes de escrever sobre a realidade do mundo 'quéchua' no Peru. Não por acaso, os livros de ambos são permeados por inevitáveis notas de rodapé que servem para explicar as palavras tiradas do idioma indígena.

Houve ainda quem comparasse Hernâni Donato com Erskine Caldwell (1903-1987) e John Steinbeck (1902-1968), a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de 'Chão Trágico' ('Tragic Ground', 1944), um mergulho na vida dos vencidos e desgraçados do Sul dos Estados Unidos, e o Steinbeck de 'As Vinhas da Ira' ('The Grapes of Wra­th', 1937), que conta a história de uma família pobre no Estado de Oklahoma durante a Grande Depressão de 1929, que, obviamente, nada têm a ver com a atual geração de norte-americanos pro­dutores de best sellers que envenenam a nossa pou­co letrada juventude.


Fonte: http://www.revistacapitu.com/- Por Adelto Gonçalves

domingo, 3 de junho de 2012

No elevador

         


            Apresento aqui, mais um conto presente em meu 2º livro, a coletãnea "O Grande Pajé." Pra quem se interessar, aqui vai o link da  última resenha dele, feita pela talentosa escritora de literatura fantástica, Pat Kovacs:


http://alternativosindependentes.blogspot.com.br/2012/05/resenha-o-grande-paje-de-cesar-soares.html






“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um
homem para um porco e de um porco para um homem  outra  vez;
mas já se tornara impossível  distinguir  quem  era  homem, quem
era porco"

          
          George Orwell, escritor nascido no longínquo ano de 1903, na Índia, encerrou assim o seu consagrado livro “A Revolução dos Bichos”. E foi assim também, equiparando o homem com um bicho repugnante, que Dirce entrou em seu apartamento naquela abafada tarde de verão. Foi direto ao chuveiro, sem se dar ao trabalho de apanhar roupas limpas no quarto. Despiu-se com pressa, recebendo aquele jato de água fria com uma satisfação indescritível. Tendo em mãos um perfumado sabonete líquido de ervas finas, esfregou com grande esforço cada centímetro do seu gracioso corpo. Em pouco tempo, o banheiro foi envolvido pela flagrância suave exalada daquela frenética operação de limpeza. Apenas quando abriu o boxe, satisfeita e refrescada em todo o seu ser, ela finalmente sentiu falta de uma toalha e novas vestimentas. Descalça e pingando pelo piso afora, chegou ao quarto para enxugar-se. Tão logo acabou, quando começava a vestir o sutiã, um pensamento agitou-lhe novamente a mente. Jogou bruscamente no chão a peça íntima e voltou,  a passos apressados, ao chuveiro para um novo banho.
A lembrança daquele homem acompanhava-a agora como um encosto ou caô que teima em ficar. Jamais, em seus 37 anos de vida, topara com um olhar tão lascivo. Literalmente da cabeça aos pés, ele esquadrinhara todos os contornos visíveis e invisíveis que havia nela.
Dirce arrependera-se amargamente de, naquela ocasião, não ter usado a escada para descer os míseros dois andares que separavam o apartamento de Paula, colega de faculdade, do seu. Morava no Apto. 104, bloco B, do Residencial Parque Imperatriz e tinha com a referida moça estreitos laços de amizade, desde os tempos do Ensino Fundamental no Colégio Padre Rambo da Avenida Bento Gonçalves. Haviam ambas, através de um projeto habitacional do DEMHAB (Departamento Municipal de Habitação), adquirido os seus respectivos imóveis naquele condomínio e, como boas vizinhas, visitavam-se quase que diariamente. Naquela tarde quente, por volta das 15h40min, elas tomavam café e assistiam a um DVD quando o celular de Dirce tocou. Era a sua filha de 13 anos, que dividia com ela o apartamento. A menina, bastante ansiosa, pediu com urgência a presença da mãe em casa, pois queria muito fazer um desabafo. Telefonara da casa do pai e prometeu em no máximo meia hora chegar ao condomínio para conversarem.
Dirce ficou intrigada e achou que boa coisa não poderia ser. Seu ex-marido tentara já por duas vezes suspender o pagamento da pensão alimentícia, alegando ter muitas despesas com a nova companheira e os dois enteados. Despediu-se de Paula prometendo voltar em seguida para terminarem de ver o filme, que era bem interessante. Optou por embarcar no elevador, coisa que raramente fazia. Sentiu preguiça e resolveu economizar um pouco o joelho, que andava dolorido pelo excesso de exercícios na academia. Apertou o botão e aguardou vinte segundos, mais ou menos. A campainha anunciando a chegada da cabine móvel finalmente soou e, como de praxe, as portas automaticamente abriram-se para o embarque. Estava vazio e ela, entrando, buscou o botão de n.º 1 para indicar onde desceria. Quase no momento de as portas definitivamente fecharem-se, uma voz masculina , pelo lado esquerdo, gritou:

- Espera! Desce!

Gentilmente, como requer a situação, ela apertou com rapidez o botão AP (Abrir Porta). Entrou então um senhor grisalho, com seus 62... 63... 65 anos no currículo. Tinha dentes alvos como o marfim e, num sorriso um tanto quanto dissimulado, agradeceu com voz desafinadamente aveludada:

- Pô... Se não é tu... Obrigado filha... Tô superatrasado para uma reunião...

Em seguida, com interesse, percorreu o seu olhar de peixe-morto pelos 1 metro e 75 centímetros de Dirce, reparando na sua beleza fresca e primaveril. Tinha ela um jeito todo juvenil de ser, e isto estava impresso na forma como se vestia, andava e sorria. Quando percebeu as “sodômicas” intenções do ancião, ficou embaraçada como uma menina. Nervosa, colocou cinco ou seis vezes uma mecha de seus cabelos ondulados para trás da orelha direita, buscando disfarçar o mal-estar que sentiu. Não lhe dirigiu qualquer palavra nem olhou mais em seu rosto, contudo era-lhe evidente que ele continuava a apreciar as suas curvas bem esculpidas.
Por fim, o recato inicial dela deu espaço a uma indignação profunda, e o seu instinto de autodefesa a fez encará-lo com severidade e sem medos. O que viu, no encontro de olhares, repugnou-a ainda mais. O grisalho, perfumado e bem alinhado em seu traje escuro de sarja, percorria com os seus olhos famintos, um trajeto metódico, com intervalos sincronizados. Seu nariz lembrava um focinho de porco, e a gordura acumulada em seu ventre e pescoço deixava-o ainda mais à imagem e semelhança de um suíno. O tal homem cobiçava-a de cima a baixo, de baixo a cima e depois de cima a baixo novamente. Olhava desde os seus pezinhos mimosos até o agradável feitio do seu rosto moreno claro, de lábios carnudos e olhos grandes. Fazia isso lentamente, com prazer e desfrutando até onde o tempo e a ocasião lhe permitiam. Dirce percebeu ainda um discreto movimento horizontal em sua língua, à medida que passeava a vista impura pelos pés, tornozelos, coxas, quadris, barriga e seios dela. Isso, definitivamente, esgotou-lhe a paciência. E, quando preparava ela uma bofetada certeira, o elevador chegou enfim ao 1.º andar.
Quando a porta reabriu, quis ela, inicialmente, vingar-se, puni-lo ou tão somente xingá-lo. Assim que o perdeu de vista, no entanto, sentiu um surpreendente desânimo. Naquele momento, teve vontade de fugir para um lugar bem distante e não conversar mais com ninguém. Sim, ela sabia que era atraente e por isso recebera já muitas cantadas picantes, mas aquele homem... Cruzes! Tinha algo particularmente sujo e degradado em suas intenções. Sentiu-se profanada em sua condição de mulher inteligente e romântica. Saiu do elevador em direção ao chuveiro. E ele, a passos rápidos, olhando o relógio, deixou o prédio e acenou para um táxi  que vinha vazio pelo outro lado da rua. O motorista fez o retorno e levou-o até a sede da Pastoral da Igreja Católica para a sua reunião de trabalho. Era o Padre Adolfo, que estivera no Residencial Parque Imperatriz para visitar um diácono amigo seu.                                                                                                                                                                                                                                                      




                     Cesar S. Farias

domingo, 27 de maio de 2012

E a Dilma vetou...



          Vetou pouco, diga-se de passagem. O novo código florestal traz alguns retrocessos no quesito PROTEÇÃO AMBIENTAL. Falou mais alto a visão governista do DESENVOLVIMENTO, com duras penas à natureza. Os nossos senadores querem fazer-nos crer que o texto criado por eles é o mais sensato para o país neste instante. A seu favor, usam o impacto negativo causado pela absurda versão proposta por seus vizinhos, deputados. Nossos representantes da Assembleia Legislativa Federal acrescentaram ao texto do senado vergonhosas agressões às nossas matas e rios nativos.
          Ora, o código proposto pelo senado já era uma agressão ambiental, no entanto, a politicagem, mais uma vez, sobrepõe-se ao bom senso para que aceitemos resignados a venda do nosso inestimável patrimônio verde. Dos males, esse será efetivamente o menor? Ela vetou, diga-se a verdade. Vetou aquilo que julgou necessário, conforme a sua visão de SUSTENTABILIDADE. Especialistas em meio ambiente são, no entanto, quase unânimes em afirmarem que essas novas leis significam mais uma punhalada no corpo da nossa já sofrida e explorada Mãe Terra.


         Mesmo assim, parabéns à todos que, de uma forma ou outra, juntaram-se ao coro de VETA, DILMA! É importante que a opinião pública faça-se forte em momentos como esse, para que os nossos administradores sintam-se forçados a debaterem seus pontos de vista. Da mesma forma, leis existem para o bem estar comum, por isso é nosso direito adquirido exigirmos que os legisladores que pagamos priorizem menos os seus interesses financeiros em suas tomadas de decisões.

Como diria minha irmã Vanessa Gaia, MÃE TERRA ESTAMOS AQUI!

                                          Abraço e boa semana á todos.



                                      Cesar S. Farias


Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

    "O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."


Fonte: site culturabrasil.org