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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Yemanjá, rainha do mar.



          Alguns ficarão perplexos, alegando que o dia dela já passou. De fato, já não estamos mais no início de fevereiro, no entanto, à esses, que não perdem a oportunidade de tecerem críticas mordazes, convém lembrar-lhes que o reinado de Yemanjá não cabe em apenas um dia de comemoração. Basta olharmos a infinitude do mar e teremos uma vaga noção de quão grande é o mistério e  majestade que a cerca.
           Assim sendo, feita a devida consideração introdutória, presto aqui as minhas sinceras reverências à esse poder ao mesmo tempo avassalador e belo da natureza. Glória à Senhora das Águas, que merece por mim ser lembrada e respeitada todos os dias da minha vida!

Paz e prosperidade para todos os seus filhos, espalhados pelos quatro cantos do mundo.


                                                                                            Cesar S. Farias

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Como é que voce faz pra conseguir?



         


        Como é que você faz pra conseguir,
         Onde é que você vai pra pegar um pouco?
         Qual é o ônibus que se pega, afinal?
         Pra que lado fica o morro?
         Perguntas que te martelam, sempre que a paz acaba.
         Aonde  eu acho o que é bom?
         Quem pode me indicar um amigo?

          A vontade é forte, chega a ser grande.
         Não me separo da brisa.
         Vou a luta e corro perigos, mas meu sonho se realiza.
         Tudo é festa pra mim, até o estoque acabar.
         E lá vou eu outra vez,
         Passa dois, três, quatro mês...
         mas o desfecho é certo.
         Quem tem, quem passa por perto?
         Quem sabe lá no Bar do Beto...

          Tenho me arriscado bastante,
          em nome dessa minha paixão.
          Tenho ido até o chão,
          pra conseguir aquilo que eu quero,
          financiando violência,
         compartilhando hipocrisia,
         engrossando estatísticas,
         enganando-me a mim mesmo

          Bala perdida, troca de tiros, acerto de contas na favela
          Viatura, revista, mão na parede, entrega logo a parada.
          Não  haverá acaso, alguma outra solução?
          Onde acho um novo patrão?
          Qual é o jeito que você arruma,
           pro teu desejo saciar?
          É preciso comprar, é fato, você não nega.
          A brisa que te carrega,
          não pode deixar de soprar.

          Mate a minha curiosidade,
          se isso não for indiscreto.
         Gostaria de saber, se é que você não se importa.
         Você bate em qual porta,
          quando fica sem direção?
          Consumido pela vontade, de tê-la só pra relaxar.
          Acabou, tem que pegar.
         Onde é o cara que tem?
         Onde é que você vai buscar,
         a erva que te deixa louco? 



                                                                   Cesar S. Farias

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sentimentos confiscados





           Todo escritor vai percebendo, ao longo da sua carreira literária, a cada novo livro, detalhes que antes não considerara atentamente na estruturação física da obra. Começo a minha primeira resenha do ano, admirando-me perante a singeleza e expressividade que uma capa é capaz de imprimir à um desabafo escrito. Tal qual o príncipe que abandonou tudo para contemplar a própria alma refletida na pequena piscina de um oásis, retratado no filme "Bab'Aziz", do diretor tunisiano Nacer Khemir, a moça da capa parece efetivamente enxergar na clareza e transparência do mar um video-tape da própria vida.
          E é isso o que Jacqueline Aisenman faz magistralmente em seu décimo livro (espero ter acertado na conta), "Sentimentos confiscados", que tem por um lado, a autenticidade histórica de um diário adolescente e por outro a despreocupação cronológica do experimentalismo poético. A obra vem a ser um apanhado de textos curtos e mini-contos sem quase nenhuma ligação entre si, aleatoriamente ordenados, casualmente aproximados, deliciosamente misturados. Esse formato tão peculiar, convida os navegantes à uma degustação pausada, despreocupada e sem maiores compromissos com prazos de entrega. Tal liberdade de estilo, própria de uma autora vacinada contra toda espécie de convencionalismos intelectuais, sopra-nos uma suave brisa, que transporta as nossas atenções para o que realmente importa: Entender as raízes dos nossos sentimentos. (mesmo que isso seja praticamente impossível)
          A intuição feminina à flor da pele dessa catarinense de Laguna, lapidada pelo divino dom da maternidade, confere-lhe uma autoridade ímpar nas coisas da vida, presenteando o leitor com impressões pessoais algumas vezes provocantes. Somos amorosamente estimulados, á cada texto, à revermos as nossas próprias verdades intocáveis, que permanecem preguiçosamente repousadas naquele compartimento interno chamado entendimento. Jacqueline, sem a pretensão de impor dogmas existenciais, convida-nos à uma pausa na insana correria do dia-dia, através de pequenas histórias e reflexões intimistas mas de fácil assimilação. É esse, segundo penso, o principal compromisso que devem assumir os apologistas da democratização da escrita, simplificando toda excessiva frescura que afaste novos leitores.
          No livro, em doses condensadas, encontramos crônica, romance, comédia e drama, numa insofismável demonstração das múltiplas ramificações criativas da escritora, que parece de fato não se importar em fazer parte exclusiva desse ou daquele gênero literário. São os seus sentimentos, e nada mais, quem ditam-lhes a próxima trilha à seguir e a maneira de se expressar perante as próximas páginas ainda em branco. De Jacqueline, com efeito, podemos esperar com grata expectativa, o inesperado.
          Tomo a liberdade de colocar "Sentimentos confiscados" na categoria das obras fadadas á serem lidas e relidas. Chegamos à última página com a sensação de termos mergulhado fundo nas recordações pessoais de uma amiga, passando a admirá-la e conhecê-la melhor. Intimidade, transmitida com tamanha fluidez, poucos conseguem fazê-lo. É coração na ponta da caneta.
  

                                                                           Cesar S. Farias




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