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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Postagem II- Apartheid





O termo apartheid significa "separação" ou "identidade separada". Serviu para designar o regime político da África do Sul que, durante décadas, impôs a dominação da minoria branca (ou aristocracia branca) sobre grupos pertencentes a outras etnias, compostos em sua maioria por negros.
O apartheid não deve ser interpretado como simples "racismo", pois ele foi um sistema constitucional de segregação racial que abrangeu as esferas social, econômica e política da nação sul-africana estabelecendo critérios para diferenciar os grupos.

A origem histórica do apartheid é bem antiga e remonta ao período da colonização da África do Sul. Os primeiros colonizadores bôeres (também denominados de afrikaner) compunham-se de grupos sociais europeus que vieram da Holanda, França e Alemanha e se estabeleceram no país nos séculos 17 e 18.

Ideologia nacionalista

Esses colonizadores dizimaram as populações autóctones (grupos tribais indígenas) e tomaram suas terras. Os líderes afrikaners manipularam e converteram um preceito religioso cristão, que a princípio estabelecia a segregação como uma forma de defender e preservar as populações tribais da influência dos brancos, em uma ideologia nacionalista que pregava a desigualdade e separação racial.

Os afrikaners se consideravam a verdadeira e autêntica nação (ou volk, que em alemão significa povo). A cor e as características raciais determinaram o domínio da população branca sobre os demais grupos sociais e a imposição de uma estrutura de classe baseada no trabalho escravo.

Política racial

Nas regiões dominadas por eles estabeleceu-se uma política racial que diferenciou os europeus (população branca) dos africanos (que incluía todos os nativos não-brancos, também conhecidos por bantus). Até mesmo aqueles grupos sociais compostos por imigrantes asiáticos, em particular indianos, sofreram com a política de discriminação racial.

Seria engano supor que a expansão do domínio dos afrikaners sobre a população não-branca da África do Sul foi um processo livre de conflitos. Pelo contrário, houve muitas guerras com as populações tribais que ofereceram resistência aos brancos, entre elas as tribos xhosa, zulu e shoto.


Para uso de pessoas brancas, diz a placa da época do apartheid.


No início do século 20, a África do Sul atravessou um intenso processo de modernização que intensificou os conflitos entre brancos e não-brancos. Não obstante, a minoria branca soube explorar os conflitos intertribais que afloravam entre os diferentes grupos étnicos e isso de certo modo facilitou a avanço e domínio dos afrikaners.

Auge e declínio do regime do Apartheid sul-africano

O apartheid foi estabelecido oficialmente na África do Sul em 1948 pelo Nationalist Party (Partido dos Nacionalistas) que ascendeu ao poder e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada pelo governo central.

O Nationalist Party representava os interesses das elites brancas, especificamente da minoria boere. Após 1948, o sistema de segregação racial atingiu o auge. Foram abolidos definitivamente alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam em algumas províncias sul-africanas.

As diferenças raciais foram juridicamente codificadas de modo a classificar a população de acordo com o grupo social a que pertenciam. A segregação assumiu enorme extensão permeando todos os espaços e relações sociais. Os casamentos entre brancos e negros foram proibidos.

Os negros não podiam ocupar o mesmo transporte coletivo usado pelos brancos, não podiam residir no mesmo bairro e nem realizar o mesmo trabalho, entre outras restrições. Os brancos passaram a controlar cerca de 87% do território do país, o que sobrava se compunha de territórios independentes, mas paupérrimos, deixados aos grupos sociais não-brancos.

Declínio do apartheid

O apartheid é o único caso histórico de um sistema onde a segregação racial assumiu uma dimensão institucional. Essa situação permite definir o governo sul-africano como uma ditadura da raça branca.

Na década de 1970, o governo da África do Sul tentou em vão encontrar fórmulas que pudessem assegurar certa legitimidade internacional. Porém, tanto a ONU (Organização das Nações Unidas) como a Organização da Unidade Africana, votaram inúmeras resoluções condenando o regime.

No transcurso dos anos 70, a África do Sul presenciou inúmeras e violentas revoltas sociais promovidas pela maioria negra, mas duramente reprimidas pela elite branca. Sob o governo de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988), tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo e as revoltas raciais foram duramente reprimidas.
Porém, as revoltas sociais se intensificaram bem como as pressões internacionais. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assumiu a presidência. Em 1990, o novo presidente conduz o regime sul-africano a uma mudança que põe fim ao apartheid. Neste mesmo ano, o líder negro Nelson Mandela, que desde 1964 cumpria pena de prisão perpétua, é posto em liberdade. Nas primeiras eleições livres, ocorridas em 1993, Mandela é eleito presidente da África do Sul e governa de 1994 a 1999.






Fonte: civilizacoesafrcanas.blogspot


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mês da Consciência Negra- Postagem I




          O mês de novembro, aqui no Experienciatitude, será dedicado inteiramente à etnia negra, exaltando o talento e magnetismo pessoal dessa gente que influenciou decisivamente a cultura do povo brasileiro. Sou profundamente grato ao continente africano por tudo que assimilei de lá e convido os meus ilustres visitantes do blog à embarcarem comigo nessa homenagem mais do que justa aos meus ancestrais de pele escura.

                                                                                   Grande Axé. 










 Os grandes nomes do samba, falam dela com saudade! Zeca Pagodinho quando alguém diz; ” E a Jovelina, Zeca”, ele responde sorrindo: “Era uma figura!”. Uma figura ao que parece, alegre, alto astral e talentosa.
Jovelina Farias Belfort este era o seu nome. Nasceu em Botafogo, foi morar em Belforoxo, era empregada doméstica e integrante da Ala das Baianas do Imperio Serrano.
Frequentadora das Rodas de partido alto do Botequim da Escola da Serrinha, no início dos anos 80, participou do Pagode da Tamarineira, no Cacique de Ramos, ao lado de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Beto Sem Braço, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz entre outros grandes sambistas, que faziam parte do então chamado “pagode carioca”, juntamente com a madrinha Beth Carvalho.
Sua voz era rouca, forte, amarfanhada, de tom popular e força batente, uma típica herdeira do estilo Clementina de Jesus e tiete declarada de Bezerra da Silva. Participando de rodas de samba, Jovelina começou a cantar no Vegas Sport Clube, em Coelho Neto, levada por Dejalmi que deu a ela o nome de Jovelina Pérola Negra.
Em 1985 foi convidada a participar da coletânea “Raça Brasileira”, ao lado de grandes sambistas como Zeca Pagodinho e Mauro Diniz e seguiu lançando a cada dois ou três anos um disco novo ou em participação, chegando a ganhar um disco de platina e lançando seu último trabalho no ano de 1996.
O estilo muito pessoal conquistou muitos fãs no meio artístico, levando até mesmo Maria Bethânia a uma apresentação no Terreirão do Samba, na Praça Onze de Junho,
de onde a diva da música popular brasileira só saiu depois de ouvir “dona Jove versar”. Alcione já homenageou a “Pérola Negra” em um de seus melhores discos, “Profissão Cantora”.
Em 1998, no dia 02 de novembro,  um infarte fulminante, calou a voz da Pérola Negra do Samba aos 54 anos de idade, para tristeza de artistas e amantes do samba.
Em sua homenagem, pela coleção “Bambas do Samba”, a gravadora Som Livre relançou seis dos seus discos de carreira e ainda a coletânea “Pérolas – Jovelina Pérola Negra.” Atualmente é difícil encontrar os discos originais de Jovelina. Algumas coletâneas com grandes sucesso como “Feirinha da Pavuna”, “Bagaço da Laranja” (gravada com Zeca Pagodinho), “Luz do Repente”, “No Mesmo Manto” e “Garota Zona Sul”, entre outros ainda podem ser comprados em sebos do Rio de Janeiro.
Jovelina é considerada como uma das grandes damas do samba e foi uma das peças mais importantes na condução do samba do subúrbio para a linha de frente da música popular brasileira,  ao lado de outros ilustres sambistas como Almir Guineto e do Grupo Fundo de Quintal.
Ela cantou, encantou, mas quis o destino que Jovelina fosse exibir sua voz rouca para além deste mundo, sem que ela realizasse o sonho de  “ganhar muito dinheiro e dar aos filhos tudo o que não teve”. Porém, apesar de sua curta passagem pela vida, Jovelina Pérola Negra conseguiu deixar seu nome escrito no livro das maiores vozes do samba brasileiro.



Fonte:www.sambando.com
   


















sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Meu querido tambo




                    CASEIROS PARA TAMBO DE LEITE
                                        EM VIAMÃO

 * Ordenha automática/ resfriador canalizado, 200 litros/dia – 15 vacas.
      ELA: Ordenhar manhã (05:30/07:30h) e tarde(16:30/18:30h), limpeza sala leite/ordenha, comida aos cachorros e limpeza casa principal. Sal: R$ 400,00
      ELE: Trato, pastagens, trator e limpeza estábulo. Sal: R$ 600,00
Obs: Boa casa com horta/galinhas, semi-mobiliada, água, luz e cesta básica.

Interessados contatar com Sr. Enilson 436-2432 ou  
                                                                  8248-5104
 

 
            Ele relutou bastante antes de ligar. Foram necessárias varias conversas entre os dois para que, enfim, vencido pelo cansaço e sem mais argumentos para se agarrar, Arthur tomasse a iniciativa.
            Arthur tinha qualidades e talentos incontestáveis, granjeando através deles muitas amizades. A sua conversação era agradável, com bom senso de humor. Apesar dos quase quarenta anos, era um mulato com dentes bem polidos, olhar vivaz e pele saudável. Combinava simpatia com beleza, e isso naturalmente abria-lhe algumas portas. Havia algo nele, contudo, que andava esgotando a paciência da sua mulher. Kleiva custara a perceber uma triste mas estampada realidade: O rapaz não gostava de trabalhar.
            O gelo, todos sabem, não foi feito para o contato com o fogo, pois derrete-se e perde a sua forma característica. A água, por sua vez, não nasceu para o óleo, pois se colocarmos ambos num copo eles sequer se misturam. Se deixarmos de lado os estados físicos da matéria e o mundo dos elementos químicos para adentrarmos no reino animal, veremos que da mesma forma, algumas espécies repelem ou incompatibilizam-se com outros seres e/ou ambientes. É o caso do peixe, que não nasceu para a grama ou para o chão de saibro. Por outro lado, o bom ditado já diz: “Gato escaldado tem medo de água fria” e dificilmente veremos o felino jogando-se por vontade própria num banho de rio.
             Arthur, conforme constatado e comprovado de fato, não nascera para o trabalho. Fugia dele como o diabo da cruz. Duas semanas antes de Kleiva colocá-lo contra a parede, insistindo com aquela página dos classificados aberta diante dele, escutou ela um intrigante diálogo. Naquele dia, ao final da tarde, receberam em casa a visita de Diogo, o vizinho e cumpadre que batizara Úrsula, a nenê do casal. Tomaram chimarrão, falaram sobre a última rodada do Gauchão e já no portão, quando a sós ficaram os dois varões, houve uma proposta do visitante, pedreiro “de mão cheia” e sempre bem requisitado para obras.

-- Ólha, to precisando di servente pra erguê umas parede lá na Dona Eloá. Ela qué qui faça um quarto nos fundo pru guri dela. Fiquei di passá lá amanhã cedo pra dá um orçamento pra velha. Di tarde, si fizé tempo bom, já começo o serviço... Tá a fim di encará essa?
-- Bah cara... É qui eu ajudo a Kleiva a cuidá da guriazinha aqui em casa... agora fica ruim pra mim...

            Ela ouviu tudo em silêncio, imóvel, atrás da cortina na janela e guardou pra si a revelação. Na gíria, diria-se que naquele exato instante, após tão forte sacudida, a ficha finalmente caiu.
            A situação financeira deles era preocupante e muito pouco promissora. Viviam de ranchos ofertados pela sogra de Kleiva e ás vezes por sua própria mãe, que trazia compras ás escondidas do marido, homem duro, que não admitia “sustentar vagabundo”. Pra piorar, Arthur andava jurado de morte por traficantes e alertado pra si o olhar da polícia.
            As ofertas de trabalho, isso ela não ignorava, estavam escassas. Haviam vagas, mas só para pessoas qualificadas com cursos e, principalmente, com experiência na função. Trabalhar num tambo, porém, parecia ser a chance de ouro para os dois, que não tinham assim tanto estudo. Além disso sairiam daquela vila onde o clima começava a ficar nebuloso. A luz no fim do túnel havia brilhado de fato naquele anúncio.
              Acabaram caindo nas graças do tal Enilson, proprietário daquele rebanho leiteiro, residente na zona rural do município de Viamão, à 10 km de Porto Alegre. Deixaram a pequena Úrsula com a mãe de Arthur e partiram para aquela guinada em suas vidas.

 
            O tambo abastecia armazéns e casas das redondezas, dispondo de vasta freguesia e credibilidade. O rapaz em sua primeira semana no emprego até que demonstrou algum empenho. Contudo, como de costume, começou a achar desgastante aquela rotina de acordar cedo em pleno inverno gaúcho. Seu Enilson, que simpatizara bastante com ele, ofereceu-lhe um remanejamento de função. Foi transferido para um abatedouro do fazendeiro, distante 2 km dali, onde lavaria sangue do chão e recolheria tripas, chifres, pêlos e tudo que não era aproveitado pelo açougue. O novo horário da pegada, às 10:00 h          da manhã, de imediato lhe agradou. Dava para descansar um pouco mais na cama.
             Observando, certa vez, a linha de produção e abate da firma, deparou-se com um fato curioso que fez-lhe pensar com seriedade. O abatedouro executava o chamado “abate humanitário”, onde os animais são respeitados e vivem com dignidade todos os seus dias. Certa ocasião,  resolveu o rapaz assistir passo a passo, como os bois e vacas eram tratados nos momentos finais de vida. Sentou-se confortavelmente num banquinho, bem perto do corredor final ou mangueira, por onde dois bois acabavam de passar, espetados pela lança do carneador. O da frente, marrom de patas brancas, pêlo lustroso e ralo, foi golpeado na cabeça por uma barra de ferro. Emitiu um longo mugido de dor. Apanhou ainda outras vezes, sempre na região do crânio, e por fim dobrou os joelhos, tombando pesadamente ao chão. O de trás, branco da raça zebu, brecou à 10m da linha de abate com um olhar assombrado. Parecia nitidamente perceber o que lhe aguardava logo à frente, sendo necessários vários gritos e algumas leves espetadas humanitárias dos peões para fazê-lo prosseguir.
            Arthur é hoje um convicto trabalhador do tambo, parece resignado à sorte que teve ao lado da companheira e não come mais carne de gado. Kleiva, por sua vez, pôde enfim agradecer e pagar as promessas à sua Nossa Senhora das Causas Impossíveis. Seu homem finalmente enveredou pela trilha do esforço e do suor para ganhar o pão. Úrsula mora com eles no chalé de madeira cedido pelo Sr. Enilson, adaptando-se com bastante rapidez à vida no campo. 


                                                                                            Cesar