O catarismo também baseou seus fundamentos no
Sermão da Montanha,
um longo discurso proferido por Jesus, no qual o próprio Cristo ensinou
aos seus seguidores lições de conduta e de moral, ditando os princípios
que normatizam e orientam a vida cristã, aquela que conduzirá o homem à
sua verdadeira liberdade. O Sermão da Montanha é considerado pelos
estudiosos da religião cristã um resumo dos ensinamentos de Jesus a
respeito do Reino de Deus, de como o homem pode ter acesso a ele e qual
será a sua transformação quando chegar lá.
De acordo com a doutrina cátara, Cristo não foi um mensageiro de Deus
que veio para ensinar o caminho da salvação. Sua morte não significa a
redenção, como prega a Igreja Romana, mas representa a vitória do mal
que jamais poderia ser vencido pela crucificação de Cristo. O sofrimento
e a morte de Cristo serviram para alimentar ainda mais as forças das
trevas. Eles também não acreditavam na cruz nem na eucaristia. A
salvação, segundo eles, só era alcançada por quem seguisse ao pé da
letra os preceitos do Sermão da Montanha, pois a Igreja Católica Romana
era, sim, um reduto de anticristos.
Vida pura e casta
Eles abdicavam de suas posses materiais e procuravam levar uma vida
pura, afastando-se o quanto podiam do mundo material, o qual
consideravam corrupto. Seus padres se vestiam com hábitos negros e
rejeitavam os
sacramentos, como o
batismo, a
eucaristia e o
matrimônio.
E não se incomodavam com o sexo fora do casamento. “A castidade devia
ser priorizada, mas se não fosse possível mantê-la, melhor seria manter
encontros casuais do que oficializar o mal por meio do casamento, um
sacramento não aceito por eles”, escreve a historiadora Maria Nazareth
de Barros, autora de
Deus Reconhecerá os Seus: A História Secreta dos Cátaros.
Em consequência dos seus princípios de
pureza e castidade, os cátaros também repudiavam a
maternidade.
Qualquer mãe, frente à impossibilidade de gerar entes espirituais e
perfeitos, ao dar origem apenas a humanos imperfeitos, estaria
produzindo ainda mais matéria impura e fonte do mal.
Entretanto, apesar de o casamento e a procriação fossem tidos como obras
maléficas eram também considerados, ao mesmo tempo, uma benção, pois
evitava uma degeneração maior entre seus seguidores por dois motivos.
Primeiro porque, segundo a lei bíblica, é melhor casar do que abrasar.
Depois, como eles acreditavam na
reencarnação, o nascimento era visto pela doutrina cátara como uma possibilidade de resgate pelas imperfeições geradas em outras vidas.
A
salvação para o catarismo era a
libertação da alma de seu corpo material impuro. Por isso, os cátaros viam com bons olhos o
suicídio.
De acordo com Nachman Falbel, professor titular de História Medieval da
USP, além do suicídio por envenenamento ou salto em um precipício, ou
ainda a pneumonia voluntariamente contraída, era comum procurar a morte
pela fome.
Eram considerados bons homens depois de receberem o
consolamentum,
um ritual que simbolicamente representava sua morte para o mundo
material e corrupto. Os que eram apenas simpatizantes da doutrina, mas
que não tinham nenhum compromisso formal com o movimento, só recebiam o
consolamentum nos momentos que antecediam sua morte.
Os altos sacerdotes cátaros eram denominados perfeitos. Eles andavam
sempre em dupla, pregando entre o povo o Amor universal e ajudando a
população carente. Por todos esses ensinamentos e diferenças entre o
pensamento cátaro e o catolicismo oficial, a Igreja Romana via cada vez
mais a nova doutrina como uma perigosa heresia a ser debelada.
Cruzada Albigense
Mas não apenas por causa da doutrina herética que a Igreja Católica
queria fazer desaparecer os cátaros da face da Terra. Por trás, existia
também o interesse econômico da Igreja, na medida em que os dízimos de inúmeras paróquias, principalmente as do Languedoc, não chegavam mais a Roma.
No século 12, o papado tentou segurar o movimento, promovendo a
reconversão de seus antigos fiéis, perdidos para o catarismo. Não
resolveu. A Igreja, então, endureceu quando o
papa Inocêncio III assumiu em 1198 e suspendeu os direitos eclesiásticos de diversos bispos do sul da França.
Em 1208, o representante da Igreja Pierre de Castelnau excomungou um
nobre e, em represália, foi assassinado. O conde de Toulouse, Raimundo
VI, foi o acusado de ser mandante do assassinato. O acontecimento
acirrou os ânimos dos católicos que passaram a usar a violência para
acabar com os seguidores da nova doutrina.
Inocêncio III tentou conter o abuso de seus fiéis escrevendo bulas e reduzindo o luxo do
Vaticano, severamente criticado pelos antigos católicos convertidos ao catarismo. Para angariar aliados, apoiou a fundação de
ordens mendicantes, como a dos
franciscanos (de São Francisco de Assis) e os
dominicanos (de São Domingos de Gusmão).
Ainda por cima, Inocêncio III autorizou uma
Cruzada, comanda pelo rei da França,
Felipe II que, com outros nobres de Toulouse, iniciaram a
carnificina que durou de 1209 a 1244. Na primeira fase da Cruzada, em julho de 1209, um exército de cerca de 30 mil homens, incluindo
cavaleiros e
infantes,
desceu do norte da Europa para o Languedoc. No primeiro cerco em
Béziers, que durou dois meses, os cruzados invadiram a cidade e
aniquilaram quase toda a população, deixando para trás 20 mil mortos,
entre eles muitas mulheres e crianças, sem se importarem se eram cátaros
ou católicos. Quando um oficial perguntou ao
representante do papa,
o Abade Arnaldo Amauri, como ele conseguiria distinguir os hereges dos
crentes verdadeiros, a resposta foi: “Matem-nos todos. Deus reconhecerá
os seus.”
Na guerra que se seguiu, todo o território foi pilhado, as colheitas
destruídas, as cidades e vilarejos arrasados. O extermínio ocorreu numa
extensão tão vasta que alguns historiadores consideram esse caso como o
primeiro genocídio da história da Europa moderna.
Diante da fúria dos cruzados, uma a uma, as cidades de Languedoc
foram caindo em poder dos franceses do norte e da Igreja sob a alegação
de serem focos de atuação de cátaros. Carcassonne, depois de duas
semanas sitiada, foi destinada a Simão de Montfort, o novo chefe militar
da guerra santa. Na verdade, nos anos seguintes, a cruzada se
transformou em um alto negócio para o nobre. Mais do que aniquilar os
cátaros, seu alvo eram as terras e as joias da nobreza do Languedoc, não
importa se apoiassem ou não os hereges.
As duas últimas fases
Em 1224, com o apoio do
papa Honório III (Inocêncio
III faleceu em 1216), começou a segunda fase da Cruzada Albigense quando
o então rei da França, Luís VIII, liderando os barões do norte francês,
empreendeu uma nova investida que durou cerca de três anos com muitas
conquistas até chegar a Avignon, onde terminou o cerco contra os
hereges.
Apesar de terem o apoio de pequenos condados, os cátaros não
conseguiram resistir ao genocídio das Cruzadas, mas elas não conseguiram
erradicar o catarismo de forma definitiva. Foi a
Inquisição,
a instituição que realmente conseguiu exterminar definitivamente o
catarismo. Quarta-feira, 16 de março de 1244, aos pés de um penhasco da
região de Ariège (Midi-Pyrenees), nos Pirineus franceses, 225 homens e
mulheres cátaros foram queimados em uma grande fogueira nos arredores da
fortaleza de Montségur. Entrincheirados a 1.200 metros de altitude, os
seguidores do catarismo foram capturados após dez meses de cerco,
tinham-se recusado a abjurar a sua fé.
Adaptado do texto “Os bons e os puros”
Revista Leituras da História Ed. 57