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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Griots e a transmissão oral do conhecimento




Contadores de histórias, mensageiros oficiais, guardiões de tradições milenares: todos esses termos caracterizam o papel dos Griots, que na África Antiga eram responsáveis por firmar transações comerciais entre os impérios e comunidades e passar aos jovens ensinamentos culturais, sendo hoje em dia a prova viva da força da tradição oral entre os povos africanos.
Utilizando instrumentos musicais como o Agogô e o Akoting (semelhante ao banjo), os griots e griottes estavam presentes em inúmeros povos, da África do Sul à Subsaariana, transitando entre os territórios para firmar tratados comerciais por meio da fala e também ensinando às crianças de seu povo o uso de plantas medicinais, os cantos e danças tradicionais e as histórias ancestrais. Diferente da civilização ocidental, que prioriza a escrita como principal método para transmissão de conhecimentos e tem historicamente fadado povos sem escrita ao âmbito da “pré-história”, em sociedades de tradição oral a fala tem um aspecto milenar e sagrado, e deve-se refletir profundamente antes de pronunciar algo, pois cada palavra carrega um poder de cura ou de destruição.
Nesse sentido, os Griots são os guardiões da palavra, responsáveis por transmitir os mitos, as técnicas e as tradições de geração para geração.
O termo “griot” tem origem no processo de colonização do continente africano, sendo a tradução para o francês da palavra portuguesa “criado”. Durante o processo de colonização da costa africana a partir do século XIV, com a progressiva construção de fortes portugueses que funcionavam como entrepostos comerciais, o Reino de Portugal realizava comércio com Reinos africanos como Kongo, Mali e Songhai. Esses primeiros contatos já transformavam tanto as culturas africanas como a nação de Portugal, mas acabaram levando a muitos reinos à desestruturação cultural. Com o tráfico de escravizados e o processo de Neocolonização do século XIX, países como França, Bélgica e Alemanha adentraram os territórios africanos, contribuindo para essa desestruturação.
Entretanto, até os dias de hoje os Griots seguem em seu papel de guardiões da tradição, estando presente em muitos lugares da África Ocidental, incluindo Mali, Gâmbia, Guiné e Senegal, e entre os povos Fula, Hausá, Woolog, Dagomba e entre os árabes da Mauritânia.
Aqui no Brasil, podemos ver semelhanças entre os Griots e os repentistas, que também se utilizam da oralidade para transmitir cultura.
Em sociedades marcadas pela escravidão, os sujeitos foram historicamente considerados meros “objetos” sem memória. Nesse sentido, é importante relembrarmos a importância da memória para esses povos, sendo os Griots a manifestação viva de uma memória transmitida de geração em geração.

Fonte: www.geledes.org.br  

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Involuntariamente

                                                

                                                Por que nascer negro é uma consequência?
                                                Por que a vida não para de fazer diferença?
                                                Por que tenho que escolher entre o bem e o mal?
                                                Perdão, a culpa é minha, mas eu fiz sem querer

                                                Vamos morrer pela pátria
                                                Matar gente pela pátria
                                                Porém outro sofre pela minha falta
                                                Perdão, a culpa é minha, mas fiz sem querer

                                                Todo o tempo eu fiz a escolha errada
                                                Machucar as pessoas pra depois pedir desculpa
                                                Desculpa não é perdoar
                                                A maldade estava aqui antes de eu nascer

                                                Tudo estava aqui antes de mim
                                                Porém tenho que buscar o perdão
                                                Para purificar minha alma



Fonte:  Livreto: O Inimigo em Comum, dos escritor haitiano Joseph Mike Iorry- Edição do autor.
                                                       

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Livro- A Cabana do Pai Tomás


Não há muitos livros que tenham vivido uma vida tão atribulada como "A Cabana do Pai Tomás". Publicado entre 1851 e 1852 sob a forma de folhetim, num jornal antiesclavagista moderado, "National Era", e recusado pelos primeiros editores a quem foi proposto sob a forma de livro, "A Cabana do Pai Tomás" acabaria por ser editado nesse formato a 20 de Março de 1852. O livro vendeu dez mil exemplares na primeira semana de vendas nos Estados Unidos e 300.000 exemplares no primeiro ano. Na Grã-Bretanha, no primeiro ano de edição, venderia um milhão e um segundo milhão nas suas várias traduções em diversos países. Segundo as suas próprias palavras, Harriet Beecher Stowe esperava ganhar com a obra o suficiente para comprar um vestido novo, mas os primeiros três meses de vendas renderam-lhe a soma de 10.000 dólares - uma pequena fortuna. Em 1861, nas vésperas da Guerra Civil Americana (1861-1865), a autora era a mais famosa escritora do mundo e o livro atingia uns fabulosos 4,5 milhões exemplares vendidos - um número tanto mais espantoso quanto muitos dos estados do Sul dos Estados Unidos o tinham proibido, quanto havia contra ele uma intensa campanha política e os cinco milhões de escravos que integravam os 32 milhões de americanos de então eram praticamente todos analfabetos. Havia um exemplar de "A Cabana do Pai Tomás" em cada família americana não militantemente esclavagista, o que o tornava o livro mais difundido depois da Bíblia, da qual era companheiro de estante frequente.
A seguir à Guerra Civil americana, da qual é apontado como uma das causas directas (a lenda reza que Abraham Lincoln, durante uma visita de Harriet Beecher Stowe à Casa Branca, em 1862, lhe terá chamado "a pequena senhora que fez esta grande guerra"), o livro foi caindo gradualmente no esquecimento e só voltaria ao primeiro plano após a Segunda Guerra Mundial, para conquistar um lugar cativo no panteão dos "grandes romances americanos".
Tudo começou com o martírio do Pai Tomás
Nascida numa família fervorosamente religiosa, filha do mais famoso pregador evangelista da sua geração, Lyman Beecher, e casada com um professor de teologia, Calvin Stowe, Harriet viveu toda a vida num ambiente de extrema devoção e firmes convicções antiesclavagistas, alicerçadas numa veemente fé cristã na igualdade de todos os homens. Antes de "A Cabana do Pai Tomás" a sua reputação como escritora era inexistente e a sua carreira nesse domínio resumia-se a alguns textos morais e bucólicas descrições campestres. Terá sido a aprovação da Lei dos Escravos Fugitivos, em 1850 (que tornava um crime dar ajuda ou refúgio a estes escravos e que foi acatada por alguns estados do Norte), que levou Harriet Beecher Stowe a deitar as mãos ao romance. Isso e uma visão que teve um dia depois da comunhão, em que à frente dos seus olhos viu desfilar o martírio e morte do Pai Tomás.
Misto de romance e panfleto, "A Cabana do Pai Tomás" está cheio de interpelações lacrimogéneas ao leitor ("mãe que lês estas páginas...") e de fórmulas de fervor religioso que datam o texto e podem tornar a leitura fastidiosa. O texto está recheado de orações lançadas ao seio do Todo-Poderoso, rogos dirigidos Àquele que é piedade e compaixão, louvores ao Senhor, glórias a Jesus, bênçãos ao Criador, de uma fé inquebrantável nos Seus desígnios e de hinos fervorosos que sobem aos Céus (muitos deles acompanhados da respectiva letra) por entre os olhares marejados de lágrimas daqueles que não aspiram senão a ser chamados à Sua glória. Apesar disso, a viva caracterização dos seus personagens - um dos mais famosos críticos americanos, Edmund Wilson, escreveu que "os personagens se exprimem muito melhor do que o autor" - fazem do livro uma obra poderosa, que se lê com inevitável adesão.


 Fonte: www.publico.pt