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domingo, 1 de março de 2020

Vaguinho



           
            Vaguinho, o filho homem de Odir, certo dia saiu de casa pela manhã comunicando á mãe que iria “ver um serviço”. Fez o mesmo no 2º, 3º e 4º dia consecutivo. No 5º dia ela resolveu seguí-lo para desvendar de vez o mistério do tal emprego que não se concretizava. Queria saber o motivo de tanta demora em se admitir ou dispensar alguém.
            Naquela manhã Vaguinho ao sair viu alguém ou alguma coisa “fresteando” na janela da   sua casa. Julgando ser apenas uma ilusão óptica, deu as costas e foi ver o tal serviço. Ao afastar-se uns 200 metros do portão, começou á ser seguido sorrateiramente pela mãe. Mantendo sempre a mesma distância regulamentar, Dona Elvira pôde finalmente perceber a real situação. Viu quando seu filho sentou-se na calçada de uma avenida que estava sendo pavimentada. Lá trabalhavam, de baixo de um sol de 40 graus, os funcionários da prefeitura. Os olhos do rapaz acompanhavam pacientemente o desenrolar da cena. Estava de fato, literalmente, vendo um serviço.


Fonte: Trecho do conto "Heraldo Zona Sul", do meu livro de estréia, a coletânea "Utopias Papareias"(2007)- Edição Independente- 97 p. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Carnaval & Ditadura


Driblando a censura, o período de 1964-1985 foi enfrentado também pelos sambistas. A bonita cadência do samba tornava-se mais uma voz da resistência às atrocidades cometidas pelo país. Salgueiro, Império Serrano e Unidos de Vila Isabel foram três escolas q ue não deixaram-se intimidar, cantando em protesto contra o regime – mesmo que implicitamente.
Com o enredo “A História da Liberdade no Brasil“, o Salgueiro desfilou em 1967 exaltando as lutas populares – uma sutil referência sobre o momento vivido pelo Brasil. Todos os seus ensaios foram monitorados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), que liberou o desfile na Sapucaí.
No Carnaval de 1969, o primeiro depois do AI-5, os compositores Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira, do Império Serrano, foram obrigados pelo governo a mudar um verso do samba-enredo “Heróis da Liberdade“. Baseada na Inconfidência Mineira, na Independência e na Abolição, a letra fazia analogia à luta pela liberdade na ditadura:
“Ao longe soldados e tambores/Alunos e professores/Acompanhados de clarim/Cantavam assim/Já raiou a liberdade/A liberdade já raiou/Essa brisa que a juventude afaga/Essa chama/ Que o ódio não apaga pelo universo/É a revolução em sua legítima razão”. Considerada subversiva, a frase foi reescrita. “É a evolução em sua legítima razão”.
Ainda em pleno regime militar, a Unidos de Vila Isabel levou para avenida o samba-enredo “Sonho de um sonho“, em 1980. Inspirada na poesia de Drummond de Andrade e assinada por Martinho da Vila, a composição clamava pela liberdade sem disfarces. “Um sorriso sem fúria entre o réu e o juiz/A clemência e a ternura por amor da clausura/A prisão sem tortura, inocência feliz/Ai meu Deus/Falso sonho que eu sonhava”.
O verso “a prisão sem tortura” é considerada uma das mais ousadas manifestações contra o governo. Porém, o espírito progressista durou pouco tempo. Três anos depois, a escola de samba passou a ser presidida pelo Capitão Guimarães, militar acusado de ter participado de procedimentos de torturas contra presos políticos.

Fonte:  catraca livre.com.br






terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Preconceitos da vida

        

           Bom, o preconceito é uma coisa que a gente pode superar.  Eu já vi muitas pessoas preconceituosas contra negros, índios, deficientes, mas eu penso de outra maneira de uns e outros, porque gente é gente, todos tem direitos e deveres a cumprir, tem pessoas que pensam de maneira diferente. São guerreiras que cuidam de deficientes físicos, aidéticos, velhos, crianças negras, índios. Trabalham para salvar vidas.
          Tem pessoas que ainda estão superando seus preconceitos, e isso é muito bom.
          Mas ainda há um grande preconceito contra os índios, pois ainda tem pessoas que acham que os índios não tem calçados e comida e que ainda somos selvagens.
          Mas a nossa dor de índio é que os brancos se apossaram de nosso "canto", de nossas terras, de nossas aldeias.
          O diferente é que temos nossas próprias leis, meninas podem se casar a partir de 12 anos, temos cadeia e escola na comunidade, nós somos Kaingang com muito orgulho.


                                                                                                          Kauana Inácio Lima
                                                                                      6º ano do Ensino Fundamental (na época)
                                                                                            E.E.I.E.M. FÁG KAVÁ- Ronda Alta/RS
                                                                                            Coletânea "Crianças e Jovens do  Rio 
                                                                                         Grande Escrevendo Histórias. Editora 
                                                                                          CORAG- Porto Alegre/2014

        
         
       

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Racismo e reparação histórica


        

          Como falar de um assunto grave e controverso no Brasil iracundo dos dias de hoje? Como falar da herança do escravismo brasileiro no nosso cotidiano?
          Para fundamentar a pertinência da discussão, cabe lembrar que a maioria da população brasileira, ou seja, 54% dos habitantes em 2014, se autoidentifica como afrodescendente. A origem desse panorama cultural tem suas raízes no povoamento do país. Em cada 100 indivíduos desembarcados entre 1550 e 1850 no Brasil, 86 eram africanos escravizados e só catorze eram cidadãos portugueses. As estatísticas podem variar com novas pesquisas, mas é improvável que a proporção se altere. No século XX, imigrantes de outras paragens aumentaram a categoria dos brancos e, mais geralmente, dos habitantes não negros. Houve, contudo, desde 1960, uma queda geral da taxa de fecundidade. Mais acentuado entre as mulheres brancas do que entre as mulheres mulatas e negras, esse fenômeno acabou gerando a proeminência populacional afrodescendente. Algumas constatações podem ser tiradas dessa evolução.
          Foi essencialmente o trabalho africano e afro-brasileiro que sustentou os chamados ciclos econômicos – açúcar, ouro e café – e costurou as capitanias e depois as províncias num corpo nacional. Por esse motivo, faz todo o sentido incluir o estudo da história africana e afro-brasileira no ensino médio. Em seguida, é preciso rever o discurso sobra a nacionalidade. Não se pode dizer apenas que “O Brasil é obra de imigrantes, homens e mulheres de todos os continentes”, como afirmou o então presidente Temer no seu discurso de setembro de 2016 na Organização das Nações Unidas. O que deve ser dito na ONU e alhures, é o seguinte: “O Brasil é obra de milhões de deportados africanos, índios e outros milhões de imigrantes pobres, que criaram uma nação, um Estado independente e multicultural”.
          Os afrodescendentes são uma maioria demográfica, social e cultural. Mas são uma minoria política. Dessa desigualdade nasce a força que transforma suas reivindicações num vetor da consolidação democrática: o país avança quando as demandas da maioria social avançam. Na Constituinte de 1946, o escritor e deputado Jorge Amado, ligado aos terreiros de candomblé perseguidos pela polícia do Estado Novo, propôs a lei de liberdade de culto que guardou seu nome. Anexada na forma do artigo 5º à Constituição de 1988, essa lei garante ampla liberdade religiosa no quadro do Estado laico. Os marginais que destroem terreiros de candomblé e de umbanda, em nome de uma interpretação alucinada da Bíblia, deviam ser informados sobre esse capítulo da história cultural. Foi a afirmação da liberdade dos cultos afro-brasileiros que pôs um termo à intolerância religiosa no país.



Luiz Felipe de Alencastro- Professor da Escola de Economia de São Paulo e da Fundação Getulio Vargas (novembro 2017)

         
         

sábado, 21 de dezembro de 2019

Mensagem Paulina de natal


 Portanto, se fostes ressucitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus.
                                Colossenses 3:1                
                

                     Por outro lado, prestem atenção:

... conservem-se as mulheres caladas nas igrejas,

porque não lhes é permitido falar; mas estejam

submissas como também a lei o determina.

  Se, porém, querem aprender alguma coisa,

interroguem, em casa o seu próprio marido;

porque para a mulher é vergonhoso falar na

Igreja.

          1 Corintios 14:34-35

              Se você veio, de fato, atrás de boas novas, à fim de saborear uma mensagem natalina de esperança, não clicou no link errado. Deve ter se surpreendido, e com razão, mas peço, não vá ainda embora achando que uma coisa nada tem a ver com a outra. Não pirei, como muitos devem estar supondo. Apenas fiz uma conexão com os ensinamentos desse auto-intitulado apóstolo, que segundo a igreja tradicional, levou adiante os ensinamentos de Jesus.                          
             Confesso, acho curioso que alguém jamais tenha convivido com um mestre, e ainda assim ocupe lugar mais destacado que os seus próprios discípulos e é isso o que parece ter acontecido na história oficial do cristianismo. Tiago, Filipe, Tomé, etc, têm pouquíssima participação no Novo Testamento, enquanto que Paulo domina esmagadoramente a cena, explicando, argumentando e tirando dúvidas como essa, do livro 1 Coríntios,  segunda citação bíblica dessa postagem natalina.
              Mas por quê natalina?  Não é o momento de lembrarmos o Cristo Menino? É, mas temos que admitir,  o que Jesus fez e disse, parece ter sido “aprimorado”, “lapidado” por esse que foi, até a sua dita conversão,  um dos mais implacáveis perseguidores dos genuínos seguidores do Rabi da Galiléia. Se ele tem essa importância toda pras igrejas, é justo sim, segundo minha lógica, homenageá-lo com um de seus tão profundos ensinos,  escrito numa de suas tantas cartas apostólicas inseridas na Bíblia. É ele quem explica, melhor do que ninguém, a importância do nascimento do Messias e principalmente, sem se fixar muito em seus ensinamentos, a importância de Seu sacrifício   pela humanidade.
              O, que, indo direto ao ponto pra não chate-á-los demasiadamente com Teologia, pensava afinal Jesus sobre as mulheres? Isso que tem em Coríntios? Chamou-me a atenção e por isso propositalmente sublinhei a palavra VERGONHOSO. Ele podia ter escrito inadequado, impróprio, inconveniente, mas cravou sem piedade um VERGONHOSO... Paulo não parece, pelo menos numa primeira análise, ter se baseado em Jesus Cristo pra afirmar uma coisa dessas. Se acham que me equivoquei, deixo-os, como um relâmpago, na mesma velocidade em que apareci,  sem forçá-los a reflexões ainda mais profundas, com fatos. Fatos esses narrados nos próprios evangelhos canônicos e que atestam uma, pra não chocar demais os fiéis, "sutil" diferença entre o que um e o Outro pensavam:


Mas algumas mulheres olhavam de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé: elas haviam acompanhado Jesus já na Galiléia e o serviam. Encontravam-se ali muitas das outras mulheres, que tinham vindo com Jesus para Jerusalém”.



                                            Mc 15:40-41




Chamando a si os seus discípulos, Jesus declarou: “Afirmo que esta viúva pobre colocou na caixa de ofertas mais do que todos os outros. Todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver”.



                                            Mc 12:43-44



Percebendo isso, Jesus lhes disse: “Porque vocês estão perturbando essa mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo.”

Eu asseguro que em qualquer lugar do mundo inteiro onde este evangelho for anunciado, também o que ela fez será contado,  em sua memória.



                                          Mt 26: 10:13



            Um Feliz Natal e minha solidariedade especial às mulheres que sentiram-se injustiçadas ao final desses parágrafos, pois concordo, foram esquecidas e menosprezadas ao longo de tantos séculos da Igreja.  


                                                                                                 Cesar