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sábado, 21 de julho de 2018

O Muito Lôku



Marcos em foto tirada no réveillon de 2011 

-- Maconhêro... Sem vergonha... Tu já viu um maconhêro não se vagabundo? É tudo sem vergonha, marginal. Me mostra UM... UM maconhêro sem vergonha qui não seja vagabundo. É tudo. TUDO mau elemento. Sábi pra mim u qué qui tinha qui sê feito cum êssi tipo di cara? Fazê qui nem u presidênti das Filipinas, u Rodrigo, hômi di pulso fez... Pegá êssis maconhêro tudo e passá a bala neles tudo. É eles qui compram essas porcaria. Máta eles e não vai tê mais quem compre, acabô, deu. Quem compra e quem vende é tudo safado... Mas dêxa qui u homi vai sê presidenti aqui e vai acertá us pontêro direitinho... Aí qui eu quero vê esses muito lôku cumé qui ficam...

          Nada, absolutamente nada há que tire a razão do Seu Adelmo no que refere-se a primeira afirmação feita. Ninguém seria louco o suficiente pra negar que o Pereira ou Pepo, rapaz em questão, de fato, dava uns tapas na pantera, uns pegas, como queiram. Iclair, a concunhada do filho do velho Eugênio, o Bráz, já comentara várias vezes que ele fazia fumaça, dava uns pito, queimava um fuminho, uma erva. Muitos já estavam ligados que ele chapava o côco, queimava um beck, acendia o pavio, gostava dum verdinho. Não bastasse a tal rapariga, o próprio irmão dele, certa noite,  bêbado, durante churrasco entre tios, vomitara que o mano tocava fogo na bomba, dava dois. A primeira, é necessário reconhecer, a apontar essa particularidade foi Vívian, amiga da sua sogra, que com perspicácia sacou de imediato que o negócio dele era ficar na brisa, na boa. Isso era fato e nem o próprio esforçava-se mais pra disfarçar. Mas sem vergonha...
          Se o Mini Dicionário FTD, revisado e reeditado no ano de 1996 estiver correto, isso se diz de pessoa desprovida de vergonha, de pudor ou de brio (dignidade, amor próprio). Os fatos narrados a seguir falam mais do que tentar defendê-lo só com argumentos.
          Conta-se que em meados da década de noventa, após engravidar a namorada, apesar de não possuir profissão ou ocupação permanente, assumiu o que fez, alugou uma casa com três peças nos fundos do terreno de um conhecido, tornou-se um bom pai e hoje tem casa própria e escriturada. Em 2001, Baltazar Klaes Pereira poupou, á pedido da filha de seis anos, uma galinha de se tornar canja e não se animou a estrangular a pobre e afetuosa ave rechonchuda de penas amareladas, uma antiga amiga de estimação da família. Sentiu pena e permitiu que morresse de velhice, cercada dos carinhos da guria. Já em 2013, quando mecânico, negou-se a fornecer nota fiscal fria pra conserto de ambulâncias do município de Pelotas. A propósito da sua profissão, dois anos depois, contrariando os prognósticos gerais, devolveu à um cliente, dono da Meriva 2010 Preta, a pochete esquecida no banco dianteiro, com R$ 900,00 intactos, cartões de crédito e molhe de chaves.
          Na verdade, nem muito lôku ele era mais. Provara, admita-se, de tudo um pouco. Aprendera, porém, que Deus e a família eram-lhes o principal. Marcos, o seu primo, esse ainda era. Andava quase sempre doidão. Se lhe ofereciam pó ele cheirava. Se lhe alcançassem uma seringa ele o braço picava. Se um copo de uísque sem gelo lhe passassem ele bebia. Pílulas? Ele simplesmente engolia. No carnaval, se um lenço perfumado alcançassem, ele aspirava. Esse, coitado, ainda era, mas o Pereira...
          Tentemos, pois, chegar a um consenso ou meio termo. Pereira era, pra contentar moralistas e liberais,  lôku. Gostava só do natural.
          Voltando, pra encerrar, no seu Adelmo, existe tráfico onde existe proibição. O primeiro sempre existirá em grande escala enquanto a segunda, massivamente, persistir. O usuário descontrolado é caso de saúde pública, não de polícia. Quanto às próximas eleições, Seu Adelmo, desconfie de falsos salvadores da pátria. Político é político, não esquece.

                                                                                                          
                                              Cesar

domingo, 1 de julho de 2018

Anomalia


         


          Por entre o nevoeiro, frio labirinto de trevas, vigio meu jantar desta noite. Trata-se de uma garota que exibe inocência, de tão pura. De certa forma, é comovente, por pensar que está segura.
           Não há nela resquícios da solidão que sentia quando a conheci. Foi há umas sete noites. Ela na janela do seu quarto implorando por companhia, o olhar profundamente melancólico. Sua pele pálida refletia a luz do luar. A vida insistia em acompanhá-la, apesar de ela parecer ter desistido da vida. Simplesmente fiquei seduzido.
          O desejo agora me penetra e dilacera de tanta intensidade. Preciso tê-la. Minhas presas latejam diante da expectativa de saborear o gosto daquele sangue em meus lábios.
       Aproximo-me da janela que permaneceu aberta. Entro. Na cama, minha vítima adormecida e vulnerável. Seus cabelos negros repousam sobre o colo lúbrico e generoso. Uma brisa doce e reconfortante entra pela janela. Aliviado, percebo a ausência de crucifixos e de qualquer religiosidade.
          A distância entre mim e minha amada parece inofensiva. Inquieto, prestes a me fartar, vou em direção a ela. Esbarro em algo caído no chão. O barulho é suficiente para despertá-la. Nossos olhares se cruzam. Meus olhos sedentos por prazer, os dela, amedrontados. Ela grita.
          Tento hipnotizá-la. É inútil. Ela continua a gritar. Um tanto retraído, tento acalmá-la. Mas não adianta. Ela uiva por dores que parecem florescer no âmago da terra. A loucura de seus berros ecoa e corrói minha cabeça.
          A ordem de tudo muda. Os atores são substituídos. Torno-me vítima indefesa. Deixo minha fome de lado. Só quero sair dali o mais célere possível. Corro, batendo a porta atrás de mim.
         Do lado de fora, assustado, ainda ouço alguns gritos. Seguro firmemente a porta, certificando-me de que a criatura e toda sua histeria permanecerão longe de meus pobres ouvidos imortais.
          Retorno à escuridão da noite, que está calma e silenciosa, toda a volúpia esquecida e minha fome sem ter sido saciada. A partir de então me ofendo sempre que me descrevem como aberração.

    



                                                                                                                  Kamila Ail

Fonte: Coletânea Literária IPDAE- 2006