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domingo, 1 de julho de 2018

Anomalia


         


          Por entre o nevoeiro, frio labirinto de trevas, vigio meu jantar desta noite. Trata-se de uma garota que exibe inocência, de tão pura. De certa forma, é comovente, por pensar que está segura.
           Não há nela resquícios da solidão que sentia quando a conheci. Foi há umas sete noites. Ela na janela do seu quarto implorando por companhia, o olhar profundamente melancólico. Sua pele pálida refletia a luz do luar. A vida insistia em acompanhá-la, apesar de ela parecer ter desistido da vida. Simplesmente fiquei seduzido.
          O desejo agora me penetra e dilacera de tanta intensidade. Preciso tê-la. Minhas presas latejam diante da expectativa de saborear o gosto daquele sangue em meus lábios.
       Aproximo-me da janela que permaneceu aberta. Entro. Na cama, minha vítima adormecida e vulnerável. Seus cabelos negros repousam sobre o colo lúbrico e generoso. Uma brisa doce e reconfortante entra pela janela. Aliviado, percebo a ausência de crucifixos e de qualquer religiosidade.
          A distância entre mim e minha amada parece inofensiva. Inquieto, prestes a me fartar, vou em direção a ela. Esbarro em algo caído no chão. O barulho é suficiente para despertá-la. Nossos olhares se cruzam. Meus olhos sedentos por prazer, os dela, amedrontados. Ela grita.
          Tento hipnotizá-la. É inútil. Ela continua a gritar. Um tanto retraído, tento acalmá-la. Mas não adianta. Ela uiva por dores que parecem florescer no âmago da terra. A loucura de seus berros ecoa e corrói minha cabeça.
          A ordem de tudo muda. Os atores são substituídos. Torno-me vítima indefesa. Deixo minha fome de lado. Só quero sair dali o mais célere possível. Corro, batendo a porta atrás de mim.
         Do lado de fora, assustado, ainda ouço alguns gritos. Seguro firmemente a porta, certificando-me de que a criatura e toda sua histeria permanecerão longe de meus pobres ouvidos imortais.
          Retorno à escuridão da noite, que está calma e silenciosa, toda a volúpia esquecida e minha fome sem ter sido saciada. A partir de então me ofendo sempre que me descrevem como aberração.

    


                                                                                                                  Kamila Ail

Fonte: Coletânea Literária IPDAE- 2006

sábado, 23 de junho de 2018

Vida de cachorro





           Conta-se que, certa vez, um rapaz gay entrou em loja para comprar uma cadela. Ele viu uma linda, por R$ 3 mil, a mais cara da loja, e resolveu comprá-la. No ato do pagamento, disse a vendedora que aquela seria a cadela mais linda e rica do mundo!
          Levou o animalzinho para casa e mandou fazer uma coleira banhada a ouro, com pedras e diamantes, com seu novo nome escrito: Pink. Vivia dando banhos nela com os melhores produtos do mundo e a enchia de perfumes, talcos, e até pó-de-arroz. E ela pensava: “Puxa vida, se sou cachorro, por que não posso ter cheiro de cachorro?”
        Ele vivia colocando nela vestidos cor-de-rosa com brilhantes, pulseiras, e, quando chovia, a vestia com capa de borracha, lenço na cabeça e botas; e a coitadinha morria de vergonha de sair assim na rua! Nunca a deixava solta, e ela pensava: “Puxa, isso não é jeito de cachorro andar, e cachorro precisa correr!”
      Conta-se que até em concurso de cães ela a levava e que disse que iria furar a orelha dela, para colocar brincos. Vê se pode!
       Então ela pensou: “Puxa vida, quem sabe esse tempo todo eu estou pensando que sou cachorro, mas não sou?...” Foi então que ela percebeu que estava ficando maluca com a vida que estava levando. Então, num dia em que ele abriu a porta para uma visita entrar, ela fugiu. Hoje, está morando na rua, sem conforto e às vezes sem ter o que comer, mas feliz do jeito que é.

                                                                
                                                 Danielle de Lima Oliveira (autora juvenil)

                                                                                   


 Fonte: Coletânea Literária do Instituto Popular de Arte-Educação e Biblioteca Leverdogil de Freitas                 Edição 2006- Editora IPDAE           

sábado, 9 de junho de 2018

A vida de Cão

   
    
           O homem escolhido para explorar a costa sul da África defendendo interesses econômicos de Portugal, foi Diogo Cão, navegador formado na "escola do Golfo" (a exigente arte de navegar na costa da Guiné). Cão partiu em agosto de 1482 e chegou à foz de um grande rio, que chamou de rio Poderoso. Era a embocadura do Congo, hoje Zaire. Ali, Cão deu início a uma nova fase de périplo africano: ergueu um "padrão", na ainda hoje chamada Ponta do Padrão (6º de latitude sul). Padrões eram colunas de pedra, com cerca de 2,5 m de altura, encimadas por uma cruz e com inscrições em português, latim e árabe, que os lusos passaram a usar como prova de suas descobertas e símbolo de sua fé.
          
          Na sequência de sua primeira viagem, Cão chegou ao Cabo Lobo (hoje Santa Maria, em Angola, a 13º 6' de latitude sul) e, sem que se possa entender por quê, concluiu que ali a África acabava. Ao retornar ao reino, em abril de 1484, deu notícia a D. João II. No outono de 1485, Diogo Cão voltaria a partir com a missão de atingir o oceano Índico. Ao ultrapassar o Cabo do Lobo, percebeu seu erro. Quando Cão voltou humilhado da viagem, grande decepção se abateu sobre o reino. D. João II jamais o perdoaria.



Fonte: Trecho do livro "A Viagem do Descobrimento - A verdadeira história da expedição de Cabral", de Eduardo Bueno- Coleção Terra Brasilis Vol. 1.