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domingo, 13 de agosto de 2017

O Fumo de Negro (Cânhamo) na História do Brasil



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         Hoje, cultivar cannabis dá cadeia, mas essa planta foi determinante para o maior meio de transporte e comércio da humanidade por milênios: a navegação. Foi com a fibra mui resistente do cânhamo que se produziu boa parte das velas e cordas dos navios antigos. Em meio às aventuras responsáveis pelos ditos Descobrimentos, Portugal torrou fortunas comprando essa fibra que chamavam de linho-cânhamo da Vila de Moncorvo. Em 1625, Felipe III criou mais duas: a Real Feitoria do Linho Cânhamo de Coimbra e a de Vila de Santarém. As três feitorias transformaram muita maconha em fibra têxtil antes de serem fechadas em 25/02/1771 pelo Marquês de Pombal.
              Portugal também plantou cânhamo no Brasil. Em 1747, o capitão-general Gomes Freire de Andrades fez a primeira tentativa oficial na ilha de Santa Catarina (atual Florianópolis), mas lá o cultivo não vingou. Então, em 06/10/1764, o Vice-Rei do Brasil, Antônio Alvares da Cunha pediu ao governador do Rio Grande de São Pedro (hoje Rio Grande do Sul) que ajudasse Antonio Gonçalves de Pereira Lima, negociante que queria plantar cannabis e manufaturar linho-cânhamo por aqui. Antônio Gonçalves teve sucesso em 1766 e, segundo o historiador Monsenhor Pizano, o resultado foram 38 arrobas de linho (cerca de 570 kg), além de 80 arráteis de estopa (quase 40 kg) e muitas sementes.
             Essa boa experiência, aliada a necessidade portuguesa de substituir importações e ocupar o sul do Brasil ameaçado pela Espanha, foi fundamental para que em 10/10/1783, o Vice-Rei, Luis de Vasconcelos e Souza, fundasse a Real Feitoria do Linho-Cânhamo do Rincão do Canguçu. Foi seu primeiro inspetor o Pe. Francisco Xavier Prates, ajudado por um segundo inspetor, 4 feitores, soldados europeus, 1 almoxarife e escriturário, 1 capelão e 1 cirurgião, todos recebendo salários pela Real Fazenda. Para o trabalho braçal foram enviados 21 casais de escravos pertencentes à Fazenda Real de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.
            2  Os esforços deveriam ser concentrados no plantio e colheita dessa planta de origem asiática, sem preocupação com a fase de manufatura. Não havia qualquer intenção de se formar fábricas de cordaria no sul do Brasil.

              Cumpre acrescentar que a metrópole portuguesa, nesse específico período, vinha já amargando um considerável decréscimo na extração de minérios em suas minas, somando-se a isso algumas dificuldades comerciais com antigas nações parceiras. Diversificar a agricultura, extraindo da terra o máximo de lucratividade possível, parecia ser a tábua de salvação para um Império em declínio, sem mais ouro ou pedras preciosas para sugar do Brasil colônia.
       2   O rendimento para fins comerciais, no entanto, não foi o esperado, motivando a transferência do estabelecimento para Faxinal do Courita, perto de Porto Alegre. Também receberam o aporte de mais 41 escravos, confiscados de contrabandistas e 20 novas diligências para o transporte.



             Devido a uma conjunção de fatores favoráveis ao enfrentamento e a resistência, os serviçais dessa nova Feitoria do Linho Cânhamo, em São Leopoldo,  protagonizaram um capítulo que os colonizadores certamente, até hoje, fazem de tudo para apagar da história. Os escravos atingiram um nível de cooperação tão grande que lhes foi possível enfrentar os antigos senhores, de igual pra igual. Foi, de fato, um momento até hoje inspirador àqueles que buscam atos heroicos praticados por negros ao longo da nossa história.
              A coroa Real outorgou a cada escravo recrutado o direito de, paralelamente a atividade estatal da cannabis, desenvolver outras culturas de solo, plantando produtos agrícolas destinados à alimentação e ao comércio. Tal liberdade permitia-lhes, em turnos inversos aos seus expedientes de trabalho, produzirem o suficiente para obterem renda média mensal com o lucro de suas vendas.
         2  Porto Alegre ficava a pouco mais de 30 km da Feitoria, era a capital do Rio Grande, local onde estava o palácio do governador e toda a sua “corte”, à maneira dos núcleos políticos importantes do antigo regime. O tempo morto no trabalho, as quebras nos ritmos de produção e o sub-aproveitamento da mão de obra permitiam aos inspetores emprestar e alugar trabalhadores, que passavam a frequentar com certa liberdade a incipiente sociedade urbana porto-alegrense. O mesmo ocorria com os que aproveitavam os sábados e domingos para vender na cidade o produto da sua roça. Aos poucos ia-se construindo em torno deles uma rede de interesses privados: governadores, letrados, artesãos, comerciantes da capital, todos interessados em subtrair escravos da plantação real. Os escravos estimulavam esse tipo de vínculo, assim escapavam do trabalho mais duro na Feitoria para vender suas plantações e exercer trabalho doméstico ou urbano que lhes permitia uma maior liberdade. Com estas práticas, também ganhavam o apoio de homens poderosos da “corte” porto-alegrense em seus conflitos com os administradores da RFC.
             As indecisões administrativas, as desobediências e o não cumprimento dos costumes pelo inspetor (chefe geral do estabelecimento) permitiam que os escravos fossem impondo sua própria “administração”.
             Raphael Pinto Bandeira, que então ocupava o cargo interino de governador do Rio Grande, havia proibido os castigos de escravos Reais na Feitoria. Assim, argumentava o inspetor Antonio José, “desapareciam os principais estímulos ao trabalho metódico, subordinação, respeito e terror ao grande corpo de escravos.” O problema, no entanto, era muito mais grave, pois com esta determinação se retirava do inspetor o poder de exercer violência privada, base do regime de escravidão.
             No início de 1801 um novo inspetor foi nomeado para a Feitoria, o Pe. Antonio Gonçalves Cruz, antigo capelão do mesmo estabelecimento. Uma memória anônima e sem data, mas que parece ser da autoria do mesmo padre, datando do final do século XVIII e a minuta de nomeação do inspetor, preparada pelo governador prometiam grandes mudanças no trato como os escravos:
               Proibir aos escravos o cotidiano tráfico de suas roças e com mais especialidades o que praticam no domingo e dias santos.” Em troca dever-se-ia regulamentar o sábado como dia de “feira” para assim obter o dinheiro para compra de roupas e não “ajuntar somas para aumentar o luxo e nutrir vícios.” Também era preciso “desterrar de entre eles a ociosidade e o comércio com os forasteiros e libertinos, aos quais, absolutamente se deve negar a entrada neste estabelecimento”. Por último, os escravos que estavam dispersos, servindo em outras casas, seriam recolhidos.
             Dois anos depois, contudo, começou a surgir uma série de problemas. Alguns escravos fugiram da fazenda para fazer um requerimento ao governador contra o inspetor. Depois disto, apadrinhados por homens brancos, possivelmente influentes na sociedade porto-alegrense, retornaram à Feitoria. Suas lideranças estavam “revoltosas” e todos os dias faziam “movimentos”.

             Dentre essas mencionadas lideranças, o nome do escravo Manoel José ocupa um papel de destaque nos escassos relatos da época. Constam, nos apontamentos do próprio inspetor Pe.Cruz, que o cativo fugiu para Porto Alegre no intuito de “mexer os pauzinhos”, tendo conseguido, de fato, um patrono que defendesse a sua causa no palácio do governador.
        2   Confiantes da vitória no conflito com o padre, os cativos faziam motins, bailes e fandangos para aterrorizá-lo. Os escravos estavam conseguindo intimidar o inspetor com ameaça de um levante e com os seus requerimentos. Talvez desejassem forçar a sua demissão ou o fim das reformas na administração do estabelecimento, daí os “movimentos”, os “requerimentos orgulhosos” e os “motins”. Vale ressaltar que atuavam tanto no campo legal, com a formulação de requerimentos, como fora dele, com pressões e intimidações, mas sem chegar à violência explícita.

            Acuado, Cruz agarrou-se com todos os argumentos que tinha para, finalmente convencer o governador a tomar o seu partido. Conseguiu a prisão do preto Manoel José em Porto Alegre e anunciou novas medidas para coibir futuras insubordinações.
          2  A punição de Manoel José não trouxe sossego ao estabelecimento. Dois meses depois o inspetor escrevia que, desejando punir com 50 açoites por dia um dos negros que desobedecera ao capataz da estância da Feitoria, “achou-se tal repugnância nos seus companheiros para o açoitarem, que foi preciso proceder o castigo em algum para assim o executarem.” Com os açoites na Real Feitoria do Cânhamo novamente permitidos o Pe. Cruz tentou implementar uma prática muito comum no Brasil colonial, o uso dos próprios escravos na punição de seus companheiros, o que causou repugnância e uma resistência passiva que levou à punição dos recalcitrantes.
            No espaço entre 1803 e 1814 não existe nenhuma informação nova sobre a relação entre o inspetor da Feitoria e a escravaria. No entanto, em 14 de dezembro de 1814, Joaquim Maria da Costa Ferreira relata a morte do Pe. Cruz ao governador, o Marquês de Alegrete. Ao que parece, o padre havia sido assassinado pelos seus escravos.
            Alguns anos mais tarde os escravos fizeram nova demonstração de força às autoridades. De acordo com o relato do inspetor, todas as noites os escravos iam roubar gado da Feitoria. Querendo dar fim aos roubos, afirma: “mandei a noite passada alguns soldados do Destacamento prender aqueles que eu tinha certeza eram os principais roubadores’. Contudo: “não se entregaram eles à prisão e entrando em suas senzalas saíram armados e assim atacaram os soldados que se retiraram ao Quartel. Tendo eu parte disto, ajuntei todo o Destacamento e fui com ele diligenciar a prisão dos levantados, que vendo a nossa resolução e estando o partido mais engrossado, e até instigado pelas mulheres que gritavam que nos matassem, saíram ao nosso encontro armados e dirigindo-me ameaças e injúrias, nos atacaram fortemente, levando eu uma bordoada em um braço e um camarada muitos de que está em perigo. Conhecendo a desproporção e vendo que se ia tornando mais sério o caso, retirei-me com o Destacamento.”
            O baixo rendimento e produtividade da Feitoria acabaram-na colocando fora dos projetos econômicos da jovem nação brasileira. No momento em que caíram os últimos laços coloniais, passou-se a discutir a sua liquidação, que foi levada a efeito em 1824. No lugar em que habitaram os negros d’El Rei, foi formada uma colônia de alemães. Os escravos foram enviados ao Rio de Janeiro, possivelmente de volta à Fazenda Santa Cruz.



                                         O pito do pango

            O aproveitamento da fibra têxtil não foi o único meio de emprego da cannabis no período de transição da monarquia a república. 3 Sabidamente, a maconha tem utilidade medicinal no tratamento de diversas enfermidades, sendo usada para dor reumática, constipação intestinal, disfunções do sistema reprodutor feminino, malária e outras desde o segundo milênio a.C. O uso pela “medicina popular” chamava a atenção dos médicos diplomados, que alertavam: “é entre nós empregada a maconha como fumo, e raramente em infusão: é dada na asma, onde aliás, a tosse provocada pela fumaça faz recear um uso mais extenso na moléstia: nas perturbações gastro-intestinais, nas nevralgias, nas cólicas uterinas”. Entre o final do Oitocentos e início do novo século a maconha era divulgada como eficaz medicamento pra problemas respiratórios como bronquite, asma e tosse ou mesmo para insônia. Os “Cigarros Indios”, produzidos pelo laboratório francês Grimault & Cie. eram anunciados em jornais de circulação diária (ver figura abaixo). A propaganda anunciava o medicamento em forma de cigarro.


            Curiosamente, alguns anúncios usavam o embasamento médico para a promoção dos cigarros: “São bem conhecidos pelos médicos as propriedades anti-asthmaticas do cannabis indica, de que se tem falado muitas vezes nos memoriais da Academia de Medicina”. A mesma medicina que se encarregou de questionar o uso da maconha e apontar duramente para seus possíveis malefícios, era a que aparecia como garantia de qualidade de um produto feito à base de maconha para curar determinadas enfermidades.

            Torna-se, pois, necessário, tentarmos entender porque uma planta empregada legalmente em pelo menos dois ramos de atividades (manufatura do linho e medicina) se torna, da noite pro dia, uma vilã criminalizada que deve ser á todo custo reprimida. Acreditem se quiserem, ideias racistas foram decisivas nessa transição de pensamento da jovem nação brasileira.    
         3   Destaca-se a atuação do médico e político Rodrigues Dória, cujos escritos serviram de base para tornar ilegal o uso da maconha, que ele e outros médicos da época apontavam como um hábito trazido pelos escravos africanos, considerados raça inferior segundo ideias então em voga. No cenário político de uma Abolição e uma República recém-decretadas se intensificou a visão de que os hábitos e práticas dos negros seriam obstáculos para concretizar os anseios por uma nação civilizada. O consumo de maconha constituía, assim, um dos empecilhos à modernização e ao progresso, uma vez que seus usuários tenderiam a adquirir comportamentos violentos, imorais ou insanos.
             O primeiro documento conhecido que restringe o uso da maconha foi uma postura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de 1830, penalizando a venda e o uso do “pito do pango”, sendo “o vendedor [multado] em 20$000 e os escravos e mais pessoas que dele usarem, em três dias de cadeia. É possível que posturas semelhantes tenham sido criadas em outras cidades do Império do Brasil. Segundo ditado popular da época, “maconha em pito faz negro sem vergonha". A referência explícita na postura carioca sugere que era entre eles que estava mais divulgado o uso da maconha, sendo a repressão do seu consumo vinculada ao controle da população negra. Uma legislação proibitiva mais abrangente, de caráter nacional, sobre a maconha, só apareceria mais de cem anos depois, através da inclusão da planta na lista de substâncias proscritas em 1932. Porém, mesmo antes de sua proibição, a maconha “era diretamente associada às classes baixas, aos negros e mulatos e a bandidagem”.  
             A referência ao uso da maconha nas “festas africanas  é constante nos textos dos profissionais que faziam a campanha contra a erva. Utilizada em rituais sagrados desde tempos remotos no continente africano, em regiões e entre populações que abasteceram o tráfico de escravos no Brasil, a maconha parece não ter perdido seu caráter ritualístico após atravessar o Atlântico. As fontes encontradas mostram que a planta e a religião afro-brasileira andavam juntas no cenário de condenação ao curandeirismo, à feitiçaria, à bruxaria e à magia negra, entre outras definições de carga pejorativa. A influência da medicina foi fundamental nessa questão: curandeiros representavam uma ameaça aos médicos oficialmente diplomados e a maconha uma afronta aos remédios farmacologicamente aprovados.

            Tentei conduzi-los, até aqui, dentro de uma máquina do tempo que percorreu caminhos e vielas negligenciadas pela história oficial. Os dados, citações e fatos aqui expostos foram compilados de bibliografias autênticas, que podem ser consultadas para um maior aprofundamento, conforme guia de referência logo abaixo. A temática, evidentemente, não se esgota aqui, pois apenas a ponta de um iceberg é o que foi trazido à tona. Ignorância se desfaz com informação e só ela pode sanar dúvidas e mal entendidos históricos. Os estudos apresentados são sérios e não se tratam de mera apologia às drogas. Fatos antigos só podem ser discutidos a luz de memórias escritas da época. Em cima disso, lanço aqui, pretensiosamente, uma nova interpretação a essa questão proibitiva da cannabis, associada à cultura negra desde os primórdios do Brasil colônia. Por trás da pretensa “moral e bons costumes” houve, sim, outros interesses em conflito, não abordados aqui. Expandir o assunto, segundo penso, poderia tornar cansativo esse nosso retorno ao passado, por isso fiz a opção de condensar no presente trabalho de pesquisa, apenas o que de imediato me preocupa. Esses homens que, a exemplo do político Rodrigues Dória, lutaram contra essa planta queriam, veladamente, criminalizar tudo o que estivesse relacionado ao negro, essa sub-raça.  




                                    


                                               Fontes


1   novointegralismo.blogspot



2  Os escravos da Feitoria do Linho-Cânhamo: Trabalho, conflito e negociação- Maximiliano M. Menz.



3 “Fumo de negro”: A criminilização da maconha no Brasil (c. 1890-1932)- Dissertação de Pós-Graduação  Luisa Gonçalves Saad- Univ. Federal da Bahia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

domingo, 6 de agosto de 2017

Abolição da escravatura no continente americano- Brasil, não simpatizante até o fim.



A exploração do trabalho humano pelo próprio homem, chamada de escravidão , marcou a história da humanidade desde as primeiras civilizações, mas, entre todas essas formas de escravidão, a que mais marcou pela crueldade foi a dos negros africanos , trazidos por europeus para vários países das Américas.
Esses negros eram retirados de suas aldeias, trazidos para diversos países em navios sem a mínima condição de higiene, além da falta de comida e maus tratos.
Quando chegavam ao seu destino, não era muito diferente, pois as senzalas, locais destinados exclusivamente aos escravos, era na verdade um grande galpão, onde todos viviam amontoados, além do trabalho duro e degradante a que eram expostos. Trabalhavam principalmente nas plantações de algodão.
Os países europeus que comercializavam escravos eram principalmente Portugal, Inglaterra e Espanha. Esses países viram nesse tipo de comércio uma forma de lucrar ainda mais em suas colônias, assim, Estados Unidos, México, Haiti, Chile, Bolívia, Uruguai, Argentina, Cuba e Brasil foram os principais países a receber escravos africanos.
Felizmente desde o começo do comércio de escravos, existiram grupos de pessoas, tanto nos países de origem quanto nas colônias, que se posicionavam radicalmente contra essa prática. Eram os abolicionistas , sempre dispostos a lutar a favor dos escravos.
Esses grupos foram ganhando força e, junto com rebeliões organizadas pelos próprios escravos, os movimentos abolicionistas começaram a ter sucesso em vários países resultando na abolição da escravatura. Cada país em seu tempo, de acordo com as características políticas e sociais da época entraram no processo, veja só a história de alguns desses países:
O Haiti foi o primeiro país das Américas a abolir a escravidão. Isso ocorreu em 1804, mas o evento que desencadeou foi a “Revolução dos Escravos” que teve início alguns anos antes.
No Chile as conquistas começaram em 1811, com a lei que considerava livre os filhos de escravos que nascessem a partir de então. A abolição da escravidão aconteceu em 1823.
A Bolívia declarou a abolição em 1826, mas até pouco tempo, ou seja em pleno século XXI, havia escravidão de índios no país.
No México , apesar da mão de obra não ser especificamente de negros, mas sim de mestiços e indígenas, só foi declarada a abolição da escravatura em 1829.
A Argentina proclamou a abolição da escravatura em 1853. Durante décadas a entrada de negros nesse país se dava pelo porto local e também pelo Uruguai.
Os Estados Unidos declararam a abolição da escravatura em 1863, principalmente pelos esforços do presidente Abraham Lincoln. Neste país a luta pela liberdade dos escravos foi árdua dividindo o país e resultando em uma guerra civil.
O Brasil foi o último país das Américas a declarar a abolição dos escravos, somente em 13 de maio de 1888 isso ocorreu com a proclamação da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel.
Apesar de ser uma luta que demorou décadas para ter êxito, o legado deixado pelos abolicionistas foi determinante modificações sociais e até hoje inspira pessoas envolvidas com os direitos humanos.     
Curiosidade

A primeira organização oficial a lutar pela abolição da escravatura foi a Sociedade Abolicionista, fundada em 1787 na Grã-Bretanha. Em 1807, esse país decidiu abolir o comércio de escravos em suas colônias.


Fonte: smartkids.com.br

domingo, 16 de julho de 2017

22 de julho- Dia de Santa Maria Madalena



Uma das personagens bíblicas mais conhecidas, Maria Madalena é descrita no Novo Testamento como uma das discípulas mais dedicadas de Jesus. As fontes que temos sobre sua vida, são os Evangelhos canônicos* e os livros apócrifos**. Sua primeira aparição se faz no livro de Lucas (8:2), onde a narrativa relata que Cristo expulsou dela sete demônios e, na sequência, ela se torna uma das mulheres que o acompanhariam e seguiriam.
Os escritos apócrifos de Maria, Tiago, Filipe e Pistis Sophia consideram Maria Madalena como o espírito da Sabedoria, descrita como a personificação do conhecimento; a amada de Jesus; a discípula e apóstola de Jesus; a apóstola dos apóstolos.
Madalena aparece firme nos momentos mais cruciais da vida de Jesus. Esteve presente na crucificação e em seu funeral, juntamente com Maria de Nazaré e outras mulheres.
A Bíblia conta que, no sábado após a crucificação, Madalena saiu do Calvário rumo à Jerusalém para comprar certos perfumes, a fim de preparar o corpo de Cristo como se dava o costume funerário na época. Permaneceu na cidade durante todo o sábado e, no dia seguinte,  "quando ainda estava escuro", foi ao sepulcro e achou-o vazio. Lá, recebeu de um anjo a notícia de que Cristo havia ressuscitado e foi-lhe dito que devia informar tal fato aos apóstolos de Cristo. Após esse episódio, não houveram mais citações sobre ela na Bíblia.
Maria Madalena é considerada uma santa pela Igreja Católica Romana, Ortodoxa, Anglicana e luteranas, que comemoram com festa o dia 22 de julho em sua homenagem. As igrejas ortodoxas orientais também comemoram,  porém no segundo domingo após a Páscoa.
Além disso, nada pode ser afirmado, com certeza, a respeito de Maria Madalena. Porém, muitas lendas surgiram em torno dela. De acordo com uma antiga tradição dos antigos cristãos do Oriente, Maria Madalena acompanhou João e Maria, mãe de Jesus, a Éfeso, onde morreu e foi enterrada. Já, uma das lendas da Idade Média diz que ela foi prometida ao apóstolo João.
Uma outra lenda antiga, que a confunde com Maria, irmã de Lázaro, diz que ela viajou para Marselha, na França, com Marta, Lázaro e outros para evangelizar a região. Segundo essa lenda, ela passou 30 anos de sua vida cumprindo penitência na caverna de La Saint-Baume nos Alpes Marítimos e foi milagrosamente transportada pouco antes de sua morte, para a capela de Saint-Maximin e enterrada em Aix.
Alguns escritores e estudiosos contemporâneos, narram Madalena como mulher de Cristo que teve com ele, inclusive, filhos. Segundo esta teoria, tal fato teria sido escondido por revisionistas cristãos que teriam alterado os Evangelhos. Estes escritores tecem suas teorias a partir do cruzamentos de informações dos Evangelhos Canônicos com os livros apócrifos e escritos gnósticos.
Ao longo dos séculos, a arte cristã tem representado Maria Madalena através da escultura e da pintura, como uma mulher de cabelos longos e com uma jarra de óleo nas mãos.
Mas, o que a fez famosa, é a crença de que ela teria sido uma prostituta que foi transformada pela palavra de Cristo. O que serve como exemplo ”ferramenta" de exemplo para as religiões falarem sobre arrependimento e transformação para os "pecadores". O curioso é que em nenhum lugar da Bíblia (e até mesmo nos evangelhos apócrifos) se diz que Maria Madalena teria sido uma prostituta ou uma pecadora.
A autoria desta ideia pode ser atribuída aos líderes e seguidores da Igreja Católica em seu início, que permitiram e incentivaram a confusão entre a história de Maria Madalena e outras Marias e mulheres citadas na Bíblia. Teriam como um de seus objetivos principais descreditar as mulheres e mantê-las fora do clero.

* Evangelhos canônicos são os livros do Novo Testamento aceitos como legítimos na maioria das religiões cristãs. Compreendem os  Evangelhos de: Mateus, Marcos, Lucas e João.
** Os Livros apócrifos apresentam narrativas e informações que divergem da doutrina estabelecida pela Igreja Católica em seu início. Muitos destes textos foram considerados heréticos e, por isso, excluídos da Bíblia.  A maioria deles consistem em cartas, coletâneas de frases, narrativas e profecias que abordam a vida de Jesus Cristos e seus seguidores. Alguns, ainda, apresentam diferentes versões de fatos narrados no Antigo Testamento, como, por exemplo, a criação do mundo



Fonte: seuhistory.com

terça-feira, 11 de julho de 2017

Verdades


Vou escrever agora,
Vergonhas minhas de outrora,
quando a dor era senhora,
motivo de cada verso
Hoje eu vou admitir,
tudo o que eu venha a sentir.
Sem limites, sem mentir,
desculpando a solidão.
Quero viver então,
nem que seja na ilusão,
da paz de um amor qualquer.
Confesso que uma mulher,
foi das trevas a minha luz,
assim como é a cruz,
pra alma do arrependido.

Vou se agora imparcial,
com qualquer coisa banal ,
como as folhas  de um jornal,
não lidas e sem valor.
Hoje eu falo de amor.
Antes, só da dor,
Madrasta que me escondia,
mostrando com ironia,
que era pouco o que eu sabia.

                             Cesar




quarta-feira, 5 de julho de 2017

A boceta de Antoninha

                        

          A inveja possui ramificações e manifesta-se conforme a ocasião ou atratividade do objeto em questão. A linha que separa esse sentimento da admiração sincera, desprovida de    malícia, é tênue como um fio de cabelo ou o caráter de um político. Tão frágil e imperceptível é, que todos nós, indubitavelmente, acabamos cobiçando em menor ou maior grau, aquilo que não nos pertence. O pior é que, em grande parte das vezes, nem nos damos conta disso, o que nos deixa inteiramente vulneráveis à esse, que configura-se num dos sete condenáveis pecados capitais. Ora, jamais teremos a iniciativa de remediar uma enfermidade que ainda nem percebemos. Necessitamos, antes de mais nada, enxergá-la, detectá-la em nós mesmos para que daí nasça a vontade de corrigirmos o que está errado e essa percepção é difícil para alguns.

           O olho grande é implacável, existe, acreditemos ou não em energias psíquicas ou fenômenos espirituais. Fiquem tranquilos leitores ateus, pois o pano de fundo dessa narrativa não consiste em enumerar técnicas de benzeduras ou sugerir talismãs contra mau-olhado, muito embora fosse louvável essa preocupação. A história, apenas ela, será a minha grande aliada e veículo de expressão nos próximos parágrafos, abduzindo-nos a uma remota época onde as pessoas andavam de bonde e charrete, escreviam com caneta tinteiro e comunicavam-se tão somente através de cartas quando queriam trocar confidências entre si. A memória do fato, preservada em diário e correspondência pessoal de uma senhorita que desembarcara de Portugal pra cá no século XVIII, provocará, entre algumas polêmicas, um questionamento sobre até onde o consumismo pode nos enterrar à lama escura e pegajosa da inveja.

          O Brasil vivia um profundo período de transição e a monarquia apresentava já visíveis sintomas de cansaço. As ideias republicanas, que sugeriam ao país um novo regime de governo, começavam a ganharem força. Inspirados pelos vizinhos argentinos e uruguaios, nosso aliados na Guerra do Paraguai, os militares contavam nos dedos as horas para expulsarem daqui, de mala e cuia, o imperador D.Pedro II e seus convivas mais próximos. Sonhavam implantar nesta ex colônia portuguesa uma República Federativa, onde o presidente governasse, o legislativo elaborasse leis e o judiciário zelasse pelo cumprimento destas. A recente abolição da escravatura, assinada há pouco mais de seis anos, em meio a parcial entusiasmo da sociedade, não passava de apenas teoria e ainda não trouxera efetiva liberdade ao negro, que sem concretas oportunidades de subsistência continuou a desempenhar as mesmas tarefas braçais de outrora, em troca de um prato de comida.  

         O ano era 1894 e a fonte de memórias extraída de um livro de anotações encontrado no baú de Dona Lourdes Epifânia de Coimbra Salazar Fernão, mulher de um fidalgo português radicado no país desde a segunda metade do século dezoito. Naquela época, tudo que relacionava-se ao luxo, ao glamour, a beleza, vinha,  invariavelmente, da Europa e o burburinho que agitou aquele vilarejo carioca estava, de fato,  relacionado a algo contrabandeado do primeiro mundo.



   Todos nós aqui dos lados de cá do além mar, inclusive eu, estamos a querer a boceta de Antoninha.



    Era isso, acreditem, o que lia-se na página 34, lá pelas últimas linhas, sem emendas, rasuras ou metáforas. O diário, á partir desse ponto, encontra-se quase que exclusivamente dedicado a esse tema aparentemente fútil, mas que utilizarei de parâmetro histórico para a inveja. Se acreditarmos que é possível aprender com os erros cometidos no passado, sejam eles nossos ou não, sigamos pois, juntos, por mais alguns parágrafos, distância suficiente  para que eu pormenorize, com base nos já referidos escritos, o quê, de fato, aguçava tanto desejo por um objeto  tão efêmero como aquele.

        Antoninha tinha, mas não dava nem emprestava, uma *boceta que literalmente valia ouro. Ela conseguia a incrível façanha, para aquela época, de despertar a cobiça de homens e mulheres, que sonhavam dia e noite com algo praticamente inviável. Eusébio já tentara e dera com os burros n'água. Floriano aproximara-se mas a moça percebera as suas intenções ocultas e despachou-lhe porta à fora no segundo dia de namoro. Setembrino chegou a tocá-la, mas foi repelido como a um gatuno vulgar, levando golpes de sombrinha que incharam-lhe o rosto esquerdo. Entre as mulheres, a que mais chegou perto foi Antonieta, que fingiu-se de amiga para descobrir o melhor momento e local para agir. Acabou, coitada, sendo traída pela própria ansiedade e no dia de dar o bote certeiro atrapalhou-se toda, sendo desmascarada na hora H.

     Outra que merece menção, mesmo não tendo aproximado-se o bastante para vangloriar-se, foi Joaquina, a primeira a descobrir o passado e o real valor de mercado daquela, digamos, caixinha oval. Graças à ela, uma especialista no assunto, a notícia espalhou-se rápido, primeiro entre as donzelas burguesas, estendendo-se às raparigas ordinárias do povoado e por último aos rapazes enamorados de jovens damas, desejosos de impressionarem as suas amadas. Entre estes, para não chatear a paciência do leitor com considerações estatísticas, aludo aqui, tão somente, ao afortunado Estevão, um aristocrata recém doutorado em Direito pela renomada Universidade de Oxford na Inglaterra. O tal sujeito, que retornara à casa paterna após duas décadas de formação na Europa, em meados de 1891, ano em que a primeira constituição republicana é promulgada e Machado de Assis  lança às prateleiras "Quincas Borba", queria a todo custo enamorar-se de certa fidalguinha. A moça, não restava dúvida, era um mimo de encher os olhos, no entanto, suas ambições tornavam-lhe uma cara aquisição. Rita queria casar, mas casar bem, com o melhor partido que pudesse financiar os seus sonhos de morar em Veneza, na Itália e frequentar os badalados cafés de Milão. Ficava lisonjeada apenas com presentes caros e peculiares, como a tal pequena circunferência em questão. É lógico, tão logo o mancebo pensou em pedir a mão dela em casamento, passou a imaginar meios de apropriar-se, indevidamente, do desejado utensílio feminino de Antoninha. Não foi bem sucedido, apesar da queda que a moçoila sentia por ele, um promissor advogado em início de carreira.

        Sensível a confusão que à essas alturas, provavelmente, estará embaralhando a mente do leitor, em meio a tantas frustradas conquistas, agravadas com a recente insinuação  de um triângulo amoroso, vamos aos fatos, nus e crus, pormenorizados conforme informações da linguaruda Joaquina:

         Reza a lenda, que D. Maria I, mãe de D. João VI, 1º imperador do Brasil, não batia muito bem das ideias. Era tão piradinha que colocou na própria boceta uma pomba forjada em ouro, encravada de diamantes, tratando a milionária esculturazinha como se tivesse parido o pequeno  pássaro. Agasalhava-o no colo, beijava-o e apalpava-o com o bico como se fosse, de fato, uma afetuosa mamãe pomba. A boceta, conforme a sua peculiar linha de raciocínio, era o ninho que servia de descanso às longas revoadas da pombinha, peça fundida e moldada numa casa de fundição mineira, no auge do ciclo do ouro, na segunda metade do século XVII.

         Um dia, em Portugal, contrariada com uma suposta malcriação da ave de estimação, jogou a caixinha amarela arredondada fora, pela janela, em plena rua, com a pequena fortuna dentro. Posteriormente, com a transferência da família real portuguesa para o nosso país, em janeiro de 1808, um dos membro da comitiva desembarcou no Rio de Janeiro com o objeto oculto entre seus pertences, ofertando-o anos mais tarde à sua filha, Antonia Margarida de Queiroz Andrade, a Antoninha, nossa protagonista central.

    Findo o relato, feitas as devidas reconstituições e cálculos, é possível, ao menos parcialmente, aceitarmos que um pequeno receptáculo feito para guardar joias, seja disputado à unhas e dentes por seres humanos. Com efeito, a íntima ligação com a família real, aliada ao grande valor de mercado, tornavam aquele acessório deslumbrante aos olhos de qualquer um . Ainda assim, mesmo tolerando que a carne seja fraca e o santo ás vezes de barro, não consigo silenciar uma impertinente indagação que me faz divagar e projetar-me à um futuro próximo:



 O que um homem será ainda capaz de fazer por causa de uma boceta?


                                                                                                   Cesar


 * boceta- caixinha redonda, oval ou oblonga, feita de materiais

                      diversos e usada para guardar pequenos objetos.

                       (Minidicionário Luft)         


                      
           

       * b