É com desespero que anuncio o desaparecimento
de minha
cachorra, um pincher de pequeno porte.
Ela é
marrom clara, bem magrinha, pesa cerca de
1,5 kg. Tem orelhas
pontudinhas, rabinho curto,
três anos de
idade. Ela se perdeu na praia
de
Ipanema no dia 16 de fevereiro, terça-feira de
Carnaval por volta das 11:00 hs. Estamos
procurando
todos os dias. Temos uma criança
que sofre
muito com o desaparecimento. Fizemos
buscas na
praia e
continuamos procurando. Se
alguma
família estiver com
a cachorrinha, por
favor devolva
nosso bichinho. Desde já,
agradecemos
qualquer informação.
Em seu programa matutino na Rádio 104 FM, nos dias 22
e 23 de fevereiro, o comunicador J. Crow também noticiou o extravio daquele
pequeno animal de estimação. Ambas as tentativas, no entanto, não surtiram o efeito esperado, fazendo cair
em depressão todos naquela casa, exceto Lígia. A ausência de Chiquita, a
personalidade canina em questão, deixou um vazio inversamente proporcional ao
seu tamanho. Era uma cadelinha bastante amorosa, que costumava roçar-se nas
pernas dos donos até receber carinho. Deitava-se de barriga pra cima e com
olhos suplicantes induzia-os a alisar-lhe com os pés, desde o ventre até o
pescoço. Uma vez atendida, protestava a cada interrupção da carícia, pondo-se
de pé e arranhando-lhes com delicadeza as pernas. Era alegre ao extremo e sua
alegria contagiava-os tanto que eram raras as brigas e discussões naquele lar.
O seu rabinho balançava em movimentos ultra-rápidos toda vez que ela
simplesmente ouvia a voz de alguém, como se estivesse de fato entendendo cada
palavra pronunciada. Buscava os olhares daquelas pessoas da mesma forma que a
margarida branca dos campos retorce-se para aproveitar o sol. Lembravam duas
minúsculas e brilhantes pedras de quartzo aqueles olhos ternos, meigos e
vívidos. Brincava com qualquer objeto colocado ao seu alcance, desde chinelos e
pantufas no chão até novelos de lã, jornais e garrafas pet largadas em cima de
cadeiras ou mesas. Essa faceta sapeca despertou a antipatia de um único membro
da família, que não tolerava, em hipótese alguma, ver a casa desarrumada.
Lígia fulminava a cachorrinha com
olhares de rancor toda vez que encontrava o pátio de pernas para o ar. Vassoura
caída, havaianas desaparecidas, meias rasgadas, tudo isso irritava-a com uma
profundidade espantosa. Fazia uma tempestade em copo d’água, estressando-se
facilmente enquanto os outros reagiam com bom humor diante das peripécias do
bichinho. Gisele, sua irmã, no auge do desespero e inconformada com o sumiço de
Chiquita, suspeitou dela como a possível mentora intelectual do desaparecimento, reparando que parecia
tranqüila demais para aquele momento tão desolador.
Tal desconfiança abalou sensivelmente
a relação entre as duas, que se tornaram praticamente estranhas e não mais
confidenciavam segredos uma para a outra. Nem mesmo as refeições faziam juntas,
parecendo a cada dia mais distantes. De fato, encaravam de maneiras diferentes
a perda de um mero animalzinho de estimação.
“Água mole em pedra dura, tanto
bate até que fura”, e as lágrimas de saudade derramadas por Gisele e a filha
Páti acabaram abrindo uma brecha nas sólidas paredes do coração de Lígia. Por
essa brecha penetraram lembranças que a fizeram refletir. Após mergulhar no
passado e posteriormente comparar o ontem com o hoje, desejou, acredite, ver a
casa novamente desarrumada. Lamentou em seu íntimo não ter percebido antes o
quanto a cadelinha fazia falta naquele lar. A possibilidade de nunca mais ouvir
aqueles latidos finos e sentir o arranhar daquelas frágeis patinhas em busca de
carinho, assustou-a. Passou então a acompanhar sua irmã, o cunhado e a sobrinha
nas buscas intermináveis que faziam diariamente pelos quatro cantos do bairro
Ipanema. Em casa, á noite, levantava abruptamente da cama toda vez que ouvia lá
fora latidas semelhantes à da pequenina. Corria afoita até a janela da frente e
abria as duas folhas de madeira com pressa, recebendo em cheio no rosto a aragem
fria da madrugada. Voltava então, frustrada, ao seu quente e aconchegante leito
e de tanto repetir esse vai-vem, acabou contraindo um resfriado que lhe fez
arder em febre durante uma semana inteira.
Tão logo se recuperou, prosseguiu
com determinação redobrada a sua tarefa investigativa. Foi incansável na
procura, movida pela saudade e o arrependimento que aumentavam a cada dia.
Chegava do trabalho por volta das 18:30 e sem pausa para um banho ou descanso
lançava-se a novas buscas, guiando lentamente o seu Ford KA azul marinho.
Percorreu Pet Shops, escolas, praças e até botecos na esperança de obter pistas
que levassem-na a achar aquela agulha no palheiro.
(Continua no próximo post)
Fonte: O conto "Amigo Bicho", apesar de fazer parte da longínqua coletânea minha, "O Grande Pajé" (2011) é ainda inédito por aqui.


