sexta-feira, 3 de abril de 2026

Domingo de ramos e cultura védica

 



O Domingo de Ramos marca, no cristianismo, a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, quando foi recebido com ramos e aclamações — um momento de aparente glória que antecede a crucificação.
À primeira vista, isso parece um evento histórico e devocional. Mas quando olhamos sob a lente do *Advaita Vedānta, o significado se aprofunda radicalmente.
🌿 O simbolismo do Domingo de Ramos na visão não dual
No Advaita, toda experiência é uma manifestação de Brahman, a Consciência única. Assim:
1. A entrada em Jerusalém = a Consciência entrando no “coração”
Jerusalém pode ser vista simbolicamente como o “centro interno” do ser.
A entrada de Cristo representa o reconhecimento da Consciência (Atman) em si mesmo.
👉 Não é um evento externo — é um despertar interno.
2. Os ramos e a aclamação = a mente em devoção
As pessoas que celebram representam os pensamentos quando se voltam para o divino.
Mas há um ponto essencial no Advaita:
• A mesma mente que hoje celebra…
• É a que amanhã rejeita (na crucificação)
👉 Isso mostra a instabilidade do ego e da mente.
3. Cristo montado no jumento = humildade do Ser
Cristo não entra como rei mundano, mas com simplicidade.
No Advaita:
• O Ser verdadeiro (Atman) não é grandioso externamente
• Ele é silencioso, humilde, sem ego
4. A dualidade da multidão = ilusão (Maya)
O mesmo povo que grita “Hosana” depois grita “Crucifica-o”.
Isso ilustra Maya:
• A realidade percebida muda
• A verdade absoluta não muda
🕉️ A leitura mais profunda (Advaita)
Na visão não dual:
• Cristo não é apenas uma pessoa histórica
• Ele representa o Eu verdadeiro (Atman)
E o ensinamento oculto do Domingo de Ramos seria:
“Quando o Eu verdadeiro é reconhecido, a mente celebra.
Mas enquanto houver ego, essa realização não é estável.”
✨ Paralelo direto com os ensinamentos védicos
Nos textos como a Bhagavad Gita, vemos algo semelhante:
• O sábio permanece estável diante de louvor ou crítica
• A verdade não depende da opinião da multidão
Cristo vivendo louvor e rejeição com equanimidade reflete exatamente isso.
🌿 Contemplação prática
Você pode usar o Domingo de Ramos como meditação:
• Quem é celebrado dentro de mim?
• Minha paz depende da aprovação externa?
• Eu sou a multidão (mente) ou o Cristo (Consciência)?

Rene Ugalde, na fanpage Conhecimento Védico


* Escola filosófica indiana.

sábado, 21 de março de 2026

Funcionalismo Vicioso

 


         (...) Após muito relutar e fazer contas na ponta do lápis, Nivaldo finalmente resolveu solicitar a sua Licença-Prêmio, na esperança de usufruí-la em gozo parcial, recebendo o restante em moeda corrente. Como lhe foi, no entanto, negada a comercialização de mais esse benefício, resolveu adiar por mais cinco meses o descanso que a plenitude do seu ser exigia, já há bastante tempo. Enquanto isso, tentou, sem sucesso, mover uma ação trabalhista contra o Estado, exigindo pagamento de insalubridade na função que desempenhava.

Procurou insuflar alguns colegas de serviço à greve, mas todos, sem exceção, com medo de perderem os seus empregos, preferiram continuar engolindo pequenos sapos como atraso no pagamento do salário, abuso de poder da parte do novo encarregado da repartição e o não repasse dos tickets-refeição, legalmente incorporados à seus direitos, conforme emenda do deputado Anacleto Braz, publicada no Diário Oficial do mês anterior.

          Mesmo infrutífera, a sua mobilização e empenho pela causa trabalhista o levou à índices alarmantes de stress. Isso se refletiu em sua relação com o público em geral. Respondia perguntas banais com impropérios, sem considerar por um instante sequer a sua condição de homem público, comprometido com as questões relativas ao seu ambiente de trabalho, conforme reza o artigo 177 do Estatuto do Servidor.

          Amparado pela estabilidade adquirida com o término do Estágio Probatório o servidor, sutilmente, passa a ignorar certas incumbências e acomoda-se num clima de marasmo e indiferença às questões do seu ambiente de trabalho, conforme especulações filosóficas do escritor paraíbano Artur Severino Dantas, autor do livro "Funcionalismo Vicioso".


          Quando pessoas de tal estirpe alcançam o que para elas significa o objeto máximo em suas vidas, ou seja, um salário mensal, não almejam mais nada em termos profissionais, sentando-se em seus apartamentos, com as bocas escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte lhes chegar.

             

                                                                  Artur Severino Dantas (1960-1998)    



Trecho de "Stress, o conto" da minha primeira obra publicada, a coletânea "Utopias Papareias"(2007).              

 

 

domingo, 8 de março de 2026

Mulher, segundo ela própria.



Qual a reflexão para hoje, no dia internacional da mulher?
Historicamente uma data lutada e criada para nos proporcionar direitos, igualdades, equidades. Mas como quase tudo, virou comércio. Sinônimo de presente e homenagens simples. Que sim, tem seu valor. Mas paramos para pensar em como é ser mulher?
Será que nos importamos em como educamos nossos meninos? Será que nos importamos com o exemplo que somos? Ou é sempre mais fácil continuar fingindo que não acontece, que é bobagem ou exagero, por que não aconteceu conosco?
E para nossas meninas...até quando vamos continuar dizendo que elas precisam ser recatadas, falar baixo, rir baixo, vestir-se de tal maneira...
Até quando vamos aceitar discursos que rebaixam mulheres por ser mães solos, por ter uma tatuagem, por ter mais de 25 anos...até quando vamos normalizar que homens adultos desejem nossas crianças e meninas...até quando as mulheres seguirão sendo mortas pelo simples fato de dizer não ao homem...
O dia de hoje é importante mas acho que é a primeira vez que me desperta para além das homenagens.
Precisamos também lutar. Precisamos nos desvincular de dogmas e respostas prontas. A vida é complexa demais, plural demais, para resumir todas as respostas em um só lugar.
Que possamos nos conscientizar e evoluir não só por nós ou por quem amamos, mas pela sociedade como um todo.
Viva as mulheres! Nos deixem viver, ser livres, sem condenar nossas escolhas. Nos deixem ser crianças , meninas, imaturas e ingênuas porque é o que faz parte dessa fase...
Feliz dia a todas nós que somos ou não mães, que trabalhamos fora e/ou em casa, que temos ou não uma crença, que vamos ou não à igreja, ao terreiro, ao centro espírita e etc, que decidimos o que vestir, o que comer, com quem se relacionar.

Sou grata por todas as mulheres que fazem parte da minha vida, sempre aprendemos lições valiosas...mas desejo um mundo melhor para minha filha e para todas as meninas que eu também, fui um dia... 



                                                                                                               Zane da Rosa