terça-feira, 15 de setembro de 2026

Os Lanceiros Negros traídos

      


    No mês em que se festeja a Semana Farroupilha, talvez a maior celebração cívica dos gaúchos¹, o Experiencia vai na contramão dos folguedos e traz um texto que faz contraponto à essa história toda de "Heróis Farrapos". 

    Em comparação aos meus posts habituais, esse é um pouco mais longo, no entanto, dada a importância da data aqui no sul do país e o meu compromisso assumido de, sempre que possível, desmistificar histórias romantizadas demais, peço-lhes que tenham paciência e me acompanhem, se possível for, nessa máquina do tempo com destino ao mundo escravista do século 18. 


Na madrugada de 14 de novembro de 1844 ocorreu o massacre de Porongos, emboscada que vitimou soldados negros desarmados, acampados no Cerro de Porongos, no Rio Grande do Sul. O episódio ainda pouco conhecido faz parte da Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos (1835-45). A Revolução Farroupilha, a guerra civil mais longa da história do Brasil foi movida pela elite gaúcha contra o governo imperial brasileiro motivada pelos altos impostos cobrados sobre seus produtos sulistas. No decorrer da guerra, os farroupilhas proclamaram, em 1836, a independência e a república da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Necessitando de mais homens para lutar contra as tropas imperiais, os chefes republicanos começaram a cooptar negros escravizados. Mas não os seus, e sim os escravos dos adversários, que serviam aos imperiais ou estavam fugidos, com a promessa de alforria após o fim da guerra.


Os negros cooptados não lutavam pelos ideais farroupilhas, mas pela chance de liberdade. Ficaram conhecidos na história como Lanceiros Negros. Formaram 8 companhias de 51 homens cada, totalizando 408 lanceiros. Exerciam a função de tropa de choque do exército farroupilha e manejavam com destreza a lança, uma arma essencial para este tipo de combate. Aos Lanceiros Negros era vedado o uso de espadas e armas de fogo de grande poder, permitindo-lhes apenas pequenas garruchas. Além das lançadas, eram armados com adaga ou facão. Alguns eram hábeis no uso de boleadeiras como armas de guerra, principalmente para abater o inimigo longe do alcance de sua lança. Eram homens rústicos e disciplinados. Faziam a guerra à base de recursos locais. Comiam se houvesse alimento e dormiam em qualquer lugar, inclusive ao ar livre. A maioria lutava a pé e aqueles que tinham cavalo, montavam em pelo, a moda charrua. Como esporas improvisavam uma forquilha de madeira presa com tiras de couro cru. Seu vestuário era constituído de sandálias de couro cru, chiripá (tecido passado por entre as pernas e preso à cintura) de pano grosseiro, um colete recobrindo o tronco e na cabeça uma vincha (faixa) vermelha símbolo da república. Os Lanceiros Negros eram comandados por oficiais brancos, e jamais um negro chegou a um posto significante. Lutavam, marchavam, comiam e dormiam separados das tropas farroupilhas dos brancos. Importante lembrar que os principais chefes farrapos – Bento Gonçalves, David Canabarro, Gomes Jardim e até Antônio Netto, dentre outros, eram todos escravistas e continuaram tendo escravos depois da guerra. O massacre de Porongos Há controvérsias sobre o que teria facilitado o Massacre de Porongos. A maioria das evidências históricas, porém, indica que a chacina foi resultado da traição do general David Canabarro, homem forte dos farroupilhas. À época, reconhecendo a iminente derrota, os rebeldes tentavam negociar uma anistia com o império. O governo de D.Pedro II acenou com a possibilidade de induto mas o império não aceitava a liberdade dos Lanceiros. Os farropilhas deveriam entregá-los. Diante do impasse de cumprir ou não a promessa de liberdade feita aos Lanceiro, mas querendo por fim à guerra, Canabarro teria negociado com os imperiais para estes eliminarem os Lanceiros. Canabarro escreveu ao Barão de Caxias tramando a data e o local para um ataque ao acampamento dos negros no cerro de Porongos, hoje região de Pinheiro Machado (interior do Rio Grande do Sul). (ASSUMPÇÃO, 2013). Na noite anterior ao trágico episódio, Canabarro ordenou que os Lanceiros Negros fossem desarmados e separados do restante das tropas que ficaram acampadas nas imediações. Na madrugada do dia 14 de novembro de 1844, os Lanceiros Negros foram surpreendidos pelas tropas imperiais. Isolados e sem armas para se defenderem, foram massacrados, enterrando de vez a preocupação dos farrapos e acelerando assim a paz com o Império. Três meses depois, foi firmada a rendição e paz de Poncho Verde em 28 de fevereiro de 1845. Canabarro assinou o acordo confiando na “palavra sagrada” e no “magnânimo coração” de D. Pedro II. Os senhores escravistas dos dois lados trocaram abraços e promessas de lealdade. Pouco tempo depois, marcharam juntos e sob a mesma bandeira imperial contra o Uruguai, Argentina e Paraguai.

                                                 😮

    Calcula-se que, nos últimos anos do conflito, os farrapos somavam uns 5.000 homens, sendo que cerca de mil eram Lanceiros Negros. Após o massacre, porém, restaram apenas uns 120 deles, feridos, alguns mutilados. Foram entregues aos soldados legalistas e enviados ao Rio de Janeiro. Na Corte Imperial foram colocados inicialmente no Depósito de Recrutas da Praia Vermelha, depois remetidos ao Arsenal de Guerra e de lá remanejados ao Hospital Militar ou à Fortaleza de Santa Cruz. Viveram por anos em situações precárias, duvidosas e imprecisas, trabalhando como serventes, alguns recebendo ração e um mísero soldo, por vezes abonado em fumo. Consta que, liderados pelo africano Salvador Braga, escreveram um abaixo-assinado ao Imperador, pedindo uma definição para suas vidas, expondo a situação em que se encontravam, tratados como escravos, embora não o fossem mais (GOMES, 2016). Quanto a Davi Canabarro, ele foi posteriormente acusado de traição e o caso foi levado ao tribunal Militar. Mas o processo foi arquivado em 1866.



Fonte: https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/massacre-de-porongos/



1 Indivíduos naturais do estado brasileiro  Rio Grande do Sul.












terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ele deve...

 



                     ...Pra cada santo, uma vela.

              Pra cada conto, aumenta um ponto.

              Diz que faz e acontece.

              Depois de eleito, desaparece.  

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Reciclagem- Vida longa ao papel


 Segundo pesquisadores brasileiros, a matéria-prima proveniente de talos e raízes de cânhamo pode fortalecer o papel reciclado, prolongando a vida útil das fibras de papel reutilizadas e melhorando o desempenho mecânico em um dos maiores mercados de reciclagem de papel do mundo.

Cientistas do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV) estão estudando como a matéria-prima de caules, galhos e raízes de cânhamo pode reforçar produtos de papel reciclado que normalmente enfraquecem após repetidos ciclos de reutilização.

“Além dos ganhos técnicos e econômicos, o uso de fibras de cânhamo como reforço representa um avanço importante do ponto de vista da sustentabilidade, aumentando a eficiência da reciclagem e reduzindo a pressão sobre as matérias-primas florestais tradicionais”, afirmou o coordenador do projeto, Marcelo Moreira da Costa.

Os pesquisadores afirmaram que o estudo pode ter amplas implicações para o setor de papel reciclado do Brasil — parte de um mercado nacional de papel e cartão avaliado em cerca de US$ 10 bilhões anualmente. O país processa cerca de 6,6 milhões de toneladas de fibras recicladas por ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Florestal.

Resistência da fibra

As fibras de celulose convencionais degradam-se a cada ciclo de reciclagem, tornando-se mais curtas e frágeis com o tempo, reduzindo sua resistência e desempenho. Os pesquisadores afirmaram que as fibras de cânhamo demonstram maior resistência durante a reciclagem, permitindo que os produtos de papel sobrevivam a mais ciclos de reutilização antes da degradação.

O projeto encontra-se agora na fase final de consolidação dos resultados dos testes mecânicos de papéis produzidos com diferentes concentrações de fibra de cânhamo.

Sustentabilidade

O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de papel e papelão reciclados, o que torna as melhorias na durabilidade potencialmente significativas para o setor de papel industrial do país.

A pesquisa também reflete o crescente interesse no cânhamo industrial como matéria-prima para celulose, embalagens e outras aplicações baseadas em fibras. As longas fibras do cânhamo têm sido historicamente valorizadas por sua resistência e durabilidade em aplicações de papel especial, embora a adoção comercial em larga escala permaneça limitada por restrições de cultivo e pela viabilidade econômica do processamento em muitos países.



Fonte: hemptoday.net