domingo, 24 de maio de 2026

O perigo, a flor e o espinho

 


          Muito cômodo é, divulgar resenha ou propagandear obras de escritores consagrados. Solidário e justo se configura, segundo penso, em contrapartida, proporcionar visibilidade aos autores não aclamados pela mídia, redes sociais e circuitos de divulgação afins. Muitos desses, são cronistas da realidade social em que vivem e podem sim, representar-nos muito bem e prender as nossas atenções com as suas histórias.

          Um deles, que conheci anos atrás, é Geraldo do Cavaco, que como o próprio nome já diz, é músico também e tem forte ligação com a história do samba aqui em Porto Alegre. Não é a primeiro vez que trago ele aqui, não por acaso, pois seu estilo simples, mas claro de escrever, típico de homem do povo, cativou-me a ainda cativa muito.


          Para apimentar a minha rotina foi morar uma senhora com sua empregada no último andar. Esta senhora se chamava Talita e sua empregada Vilma. Eu subia e descia e sempre respeitosamente cumprimentava as pessoas , pedia licença para entrar e sair no elevador. Dona Talita foi com a minha cara e me convidou pra modificar a pintura em seu apartamento. Tudo era branco, ela queria mudar alguma coisa por causa dos móveis. Não podia fazer aquilo porque era o padrão de cima a baixo, mas ela foi convincente e me pediu nas horas vagas que fosse pintando, aos sábados e domingos, seria um biquinho. Fui caindo na dela, tava me infiltrando, almoçava e, pum, enfiava-me no apartamento de Dona Talita pra bater papo com a Vilma, sua empregada. Ás vezes ela não estava em casa, já me sentia em casa, já estava me sentindo no dever de convidar Vilma pra sair comigo num fim de semana. Só que ela tinha um caso com um cara e este cara era um policial que eu não conhecia, isto me travou, senti o perigo. Retirei-me pra refrescar a memória. Pedro, meu mestre, sacudia o rabo quando via Vilma nos corredores do edifício, uivava, latia, babava, lambia o chão onde ela pisava, mas não levava nem um tchau. Isto deixava ciscando o capim, cheirando o chão onde ela pisava e não tinha vaga. Comigo era diferente, volta e meia ela andava me procurando, me convidando para subir e para bater um papo, tomar um sorvete no apartamento com ela, e Pedro tinha ciúmes. Agora eu tinha que me cuidar de dois, do policial e do meu mestre. Às vezes eu não ia embora, eu batia o meu cartão, mas me enfiava no apartamento e ia pintar à noite. Isto me tornou suspeito. Vilma não era de se botar fora, ela vestia umas ¹cocotinhas e calçava um tamanquinho de saltinho e o cabelo de fazer uma trança só que lhe caía nas costas. Era um filé, ela chamava muito a atenção andando acompanhada e só, muito mais! 

          Numa noite, Vilma estava só no apartamento, eu senti que seria o dia fatal e ideal para o ataque. Deitou no sofá cama onde era a sua cama e ficou a me olhar, então eu comecei a sacudir o rabo, com as duas orelhas em pé, e parei de pintar. Disse a ela que tava na hora de nós termos uma conversa franca e me sentei ao seu lado. Ela estava deitada de bruços dava pra ver todo o seu perfil. Fui dizendo a ela que eu queria me concentrar no trabalho, mas ela estava me tirando a atenção e eu não estava conseguindo fazer nada.

          Eu estava a fim dela naquele momento e minhas mãos já andavam viajando por suas pernas quando ela sentou do meu lado, pegou minhas mãos nervosas, me deu um beijo, me olhou bem nos olhos e me disse: Geraldo, tu não sabe nada de mim, por isto eu vou ser franca contigo, com eu também gostei de ti, vou contar para tu não dizer que eu te enganei. Então passou a me revelar de onde era, sua terra, como veio trabalhar com Dona Talita, o envolvimento com este policial, que era mais velho que ela, e por último, a bomba que me tirou do ar.

                                             😵😯😨


          Ela me contou que estava encrencada por que suas ²regras já estavam atrasadas há dois meses e ela estava com medo, longe de casa como iria ser? A patroa era uma senhora velha, como iria cuidar se era ela que precisava de cuidados? E ela sabe, um bebê chora, quer colo, se acorda a noite. Ela nem quarto tinha, dormia naquele sofá cama, e agora? E agora digo eu. Pergunto se a dona Talita sabe e ela diz que ainda não. "Eu preciso me virar, arrumar um meio de me livrar desta encrenca, e agora, por que depois eu não sei o que pode acontecer". Com a notícia-bomba tudo murchou, o galinho perdeu a crista.

          Eu pergunto: E o cara? Ela me responde: Hi, ele não esta nem aí, eu tentei dizer a ele, mas ele desconversa. Então ela me diz: Se tu pudesse me ajudar eu ficaria muito grata, vou começar vida nova de hoje em diante. Eu disse: Como vou te ajudar? E ela: Bom, tu vais receber desta pintura, então tu me empresta dois mil, por eu não quero pedir pra Dona Talita e nem ela precisa ficar sabendo, tá? Posso contar contigo? Eu sacudi a cabeça por que não tinha mais nada a fazer e fui me levantando. Ela ficou com as minhas mãos ainda presas e vendo o meu desânimo soltou e disse: Tu me desculpe, eu gostaria que fosse de outro jeito, mas infelizmente não é! Eu fui pra casa naquela noite pensando, e se a velha já sabe? E deixou uma ratoeira pra mim? Sim, porque eu entro, dou uma ruída no queijo e a Vilma não me fala nada? E depois anuncia que aconteceu? E explode notícia no edifício que o Gegê vai ser papai? Sim, porque aí eu vou ao pote todos os dias e como vou explicar que não é meu? A velha vai fazer de tudo para amparar a Vilma. Se a Vilma fosse trapaceira teria me metido num bolo naquela noite, mas ela me contou, teria acontecido, mas eu sou casado, tenho mulher e filhos? Como vai ficar, é um caso a ser pensado, não vou poder ficar com ela. Depois, se a velha, ao querer amparar a empregada, diz que eu abusei, deixei ela sair, para abusar da empregada? Eu perco tudo, casa, mulher, emprego, vou parar atrás das grades e com um policial na minha cola. Eu tinha que ter cabeça, vou pensar. Assim, eu me afastei de Vilma, mas Pedro soube por outros que eu estive com ela.


                   Fragmento de  'Memórias de Geraldo do Cavaco"- 2ª edição- 2016.



1  o termo cocota tem origem no francês "cocotte" que é um tipo de calça jeans com        o cós muito baixo e justa ao corpo.

2   menstruação

             

sábado, 16 de maio de 2026

A seta

         


        Eu, que me tornei internacionalmente conhecido como um contista de histórias longas, algumas beirando à romances, começo aqui a palmilhar, despretensiosamente, o terreno dos mini contos. Direto e reto. Claro e conciso.

     Agradem ou não, muitos outros virão, podem esperar, estimados leitores meus.

 

          Aqueles oito meses abstêmios, sem vida sentimental e tudo aquilo que com ela vêm junto, impulsionaram-na à um apurado estágio reflexivo. A seta foi certeira. Uma frase, do nada surgiu. Foi reveladora e ao mesmo tempo definitiva, moldando, á partir dali, profundamente, a forma como passou à encarar a vida:

        "Não nasci pra ser freira."


domingo, 10 de maio de 2026

Bendita maternidade

 


No cuidado.
Na presença.
Na entrega.
Na força que acolhe
e no coração que tantas vezes ama sem pedir nada em troca.
A maternidade carrega algo de sagrado,
porque revela, de forma muito concreta,
esse princípio divino do amparo, da proteção
e do amor que sustenta a vida.
Neste Dia das Mães,
mais do que comemorar,
vale contemplar.
Reconhecer.
Honrar.
Honrar aquelas que cuidam,
as que protegem,
as que estão presentes,
e também aquelas que, com todas as suas limitações humanas,
ainda assim expressam algo profundo do amor.
🌿 Que este seja um dia de gratidão,
de reverência
e de lembrança:
quando o amor se torna cuidado, presença e doação,
ele nos mostra um reflexo de Deus.



Giridhari Das