sexta-feira, 10 de abril de 2026

Vocação

 


      Posto hoje mais um poema desse jovem escritor haitiano, que imigrou pro Brasil deixando pra trás os horrores da fome e da guerra e é, portanto, uma autoridade em ambos assuntos.


A vida é uma batalha

Lute com sua cabeça

Nunca com seu coração

Lidar sobre a vida é a minha vocação


Aceitar que a culpa é sua

Buscar onde está a sua falha

Ter a determinação pra lutar

Antes que sua vida acabe


Há dois dias que você não pode fazer nada

Ontem e amanhã

Mas hoje é o dia ideal

Pra amar e lutar


A vida é nossa inimiga

Nós devemos fazer a união para a guerra

Posso perder a batalha

Mas nunca a guerra.



                                           Joseph Mike

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Domingo de ramos e cultura védica

 



O Domingo de Ramos marca, no cristianismo, a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, quando foi recebido com ramos e aclamações — um momento de aparente glória que antecede a crucificação.
À primeira vista, isso parece um evento histórico e devocional. Mas quando olhamos sob a lente do *Advaita Vedānta, o significado se aprofunda radicalmente.
🌿 O simbolismo do Domingo de Ramos na visão não dual
No Advaita, toda experiência é uma manifestação de Brahman, a Consciência única. Assim:
1. A entrada em Jerusalém = a Consciência entrando no “coração”
Jerusalém pode ser vista simbolicamente como o “centro interno” do ser.
A entrada de Cristo representa o reconhecimento da Consciência (Atman) em si mesmo.
👉 Não é um evento externo — é um despertar interno.
2. Os ramos e a aclamação = a mente em devoção
As pessoas que celebram representam os pensamentos quando se voltam para o divino.
Mas há um ponto essencial no Advaita:
• A mesma mente que hoje celebra…
• É a que amanhã rejeita (na crucificação)
👉 Isso mostra a instabilidade do ego e da mente.
3. Cristo montado no jumento = humildade do Ser
Cristo não entra como rei mundano, mas com simplicidade.
No Advaita:
• O Ser verdadeiro (Atman) não é grandioso externamente
• Ele é silencioso, humilde, sem ego
4. A dualidade da multidão = ilusão (Maya)
O mesmo povo que grita “Hosana” depois grita “Crucifica-o”.
Isso ilustra Maya:
• A realidade percebida muda
• A verdade absoluta não muda
🕉️ A leitura mais profunda (Advaita)
Na visão não dual:
• Cristo não é apenas uma pessoa histórica
• Ele representa o Eu verdadeiro (Atman)
E o ensinamento oculto do Domingo de Ramos seria:
“Quando o Eu verdadeiro é reconhecido, a mente celebra.
Mas enquanto houver ego, essa realização não é estável.”
✨ Paralelo direto com os ensinamentos védicos
Nos textos como a Bhagavad Gita, vemos algo semelhante:
• O sábio permanece estável diante de louvor ou crítica
• A verdade não depende da opinião da multidão
Cristo vivendo louvor e rejeição com equanimidade reflete exatamente isso.
🌿 Contemplação prática
Você pode usar o Domingo de Ramos como meditação:
• Quem é celebrado dentro de mim?
• Minha paz depende da aprovação externa?
• Eu sou a multidão (mente) ou o Cristo (Consciência)?

Rene Ugalde, na fanpage Conhecimento Védico


* Escola filosófica indiana.

sábado, 21 de março de 2026

Funcionalismo Vicioso

 


         (...) Após muito relutar e fazer contas na ponta do lápis, Nivaldo finalmente resolveu solicitar a sua Licença-Prêmio, na esperança de usufruí-la em gozo parcial, recebendo o restante em moeda corrente. Como lhe foi, no entanto, negada a comercialização de mais esse benefício, resolveu adiar por mais cinco meses o descanso que a plenitude do seu ser exigia, já há bastante tempo. Enquanto isso, tentou, sem sucesso, mover uma ação trabalhista contra o Estado, exigindo pagamento de insalubridade na função que desempenhava.

Procurou insuflar alguns colegas de serviço à greve, mas todos, sem exceção, com medo de perderem os seus empregos, preferiram continuar engolindo pequenos sapos como atraso no pagamento do salário, abuso de poder da parte do novo encarregado da repartição e o não repasse dos tickets-refeição, legalmente incorporados à seus direitos, conforme emenda do deputado Anacleto Braz, publicada no Diário Oficial do mês anterior.

          Mesmo infrutífera, a sua mobilização e empenho pela causa trabalhista o levou à índices alarmantes de stress. Isso se refletiu em sua relação com o público em geral. Respondia perguntas banais com impropérios, sem considerar por um instante sequer a sua condição de homem público, comprometido com as questões relativas ao seu ambiente de trabalho, conforme reza o artigo 177 do Estatuto do Servidor.

          Amparado pela estabilidade adquirida com o término do Estágio Probatório o servidor, sutilmente, passa a ignorar certas incumbências e acomoda-se num clima de marasmo e indiferença às questões do seu ambiente de trabalho, conforme especulações filosóficas do escritor paraíbano Artur Severino Dantas, autor do livro "Funcionalismo Vicioso".


          Quando pessoas de tal estirpe alcançam o que para elas significa o objeto máximo em suas vidas, ou seja, um salário mensal, não almejam mais nada em termos profissionais, sentando-se em seus apartamentos, com as bocas escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte lhes chegar.

             

                                                                  Artur Severino Dantas (1960-1998)    



Trecho de "Stress, o conto" da minha primeira obra publicada, a coletânea "Utopias Papareias"(2007).