sábado, 18 de julho de 2026

Quem vence a copa

 




          A minha resposta é direta e pode, com certeza, desapontar quem esperava outra coisa dessa postagem: Não sou eu nem tampouco você, que trabalha duro pra vencer com dignidade a batalha dos impostos e faturas de cada mês. Também não é a associação sem fins lucrativos, que distribui sopa no viaduto da tua metrópole. Muito menos aquela ONG que oferece cursos profissionalizantes à menores em situação de rua.

    O vencedor dessa edição recebe, além da cobiçada taça ,  redondos US$ 50 milhões de dólares, quantia que, direcionada pro lugar certo, mitigaria a fome, ignorância e desigualdade entre muitos. Apesar de fã do esporte, não posso deixar de manifestar, nesse momento oportuno, a minha contrariedade com esse aspecto esbanjador do futebol. As cifras que movimentam a máquina futebolística, à nível nacional e continental, também, por sua vez, são milionárias e isso, de uns tempos pra cá, me tem feito refletir.

    Não por acaso, aqui no país, dirigentes de clubes e confederações têm se embrulhado em prestações de contas mal feitas e desvios múltiplos de repasses. Poucas atividades personificam tão esplendidamente o monstro horripilante da má distribuição de renda.

     E pra encerrar com chave de ouro,  deixo-vos à título de informação, os valores que cada seleção desembolsou nessa brincadeira toda.


  • Campeão: US$ 50 milhões
  • Vice-campeão: US$ 33 milhões
  • 3º lugar: US$ 29 milhões
  • 4º lugar: US$ 27 milhões
  • 5º ao 8º lugar: US$ 19 milhões
  • 9º ao 16º lugar: US$ 15 milhões
  • 17º ao 32º lugar: US$ 11 milhões
  • 33º ao 48º lugar: US$ 9 milhões

                                    😮

sábado, 11 de julho de 2026

Um dia na colheita do café -século XVIII

 


Partida para Colheita de Café. Fotografia de Marc Ferrez, Década de 1880. Acervo do Instituto Moreira Salles. As vésperas da ¹Lei Áurea, a grande maioria da população de escravizados estava no interior, cerca de 720.000 pessoas, ou 5% da população brasileira da época

Nas fazendas de café eram comuns as jornadas de trabalho de quinze a dezoito horas diárias, iniciadas, ainda de madrugada, ao som do sino que despertava os escravos para que eles se apresentassem ao feitor, para receber as tarefas. Se as atividades fossem próximas à sede da fazenda, iam a pé; se mais distantes, um carro de boi os transportava.

O almoço era servido lá pelas dez horas da manhã. O cardápio constava de feijão, angu de milho, abóbora, farinha de mandioca, eventualmente toucinho ou partes desprezadas do porco, rabo, orelha, pé etc. e frutas da estação como bananas, laranjas e goiabas.

A refeição deveria ser feita rapidamente, para não se perder tempo, e de cócoras; os negros tinham que engolir tudo porque logo em seguida a faina continuava. Por volta de uma hora da tarde, um café com rapadura era servido substituído nos dias frios por cachaça, e às quatro horas jantava-se. Aí, comia-se o mesmo que no almoço, descansava-se alguns minutos e retomava-se o batente até escurecer.

Cumpria-se, então, o ritual da manhã, todos se apresentando ao administrador ou dono, conforme o caso da fazenda. Era quando, após uma breve oração, iniciava-se o serão que constava, geralmente, da produção ou beneficiamento de bens de consumo. Só lá pelas nove ou dez horas da noite é que o escravo podia se recolher. Isso para alguém que, no verão, levantava por volta das quatro horas da madrugada. Antes de se deitar, fazia uma refeição rápida e, extenuado, descansava até a jornada do dia seguinte.

Aos dez ou 11 anos, meninos e meninas escravizados eram apresentados ao universo produtivo da roça, com trabalhos semelhantes aos exigidos dos adultos. Isso significava que eles deixariam as tarefas domésticas diárias, como espantar moscas, carregar porcelana para o chá, trazer água do poço, ser companheiros de brincadeira para as crianças brancas, cuidar de outras crianças escravas e ajudar suas mães em tarefas simples para se tornarem trabalhadores regulares.

Havia também o medo da separação das mães de seus filhos, por meio de vendas a outras fazendas, sendo que somente em 15 de setembro de 1869 pelo decreto 1695 se passou a proibir a separação das famílias escravas: “Art. 2º Em todas as vendas de escravos, ou sejam particulares ou judiciais, é proibido, sob pena de nulidade, separar o marido da mulher, o filho do pai ou mãe, salvo sendo os filhos maiores de 15 anos.


1 Lei assinada em maio de 1888 pela princesa portuguesa Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga. Em tese, ao entrar em vigor, acabou com a escravidão no Brasil.



Fonte: Escravidão no Brasil Por Jaime Pinsky

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A ganja e o Humberto

 

Cauã

(...) O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo(Cauã) bem longe dali . O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servido em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir  o seu  velho  Passat   cinza  em   alta  velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.

            Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido (ganja) exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada. Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera. (...)


Enxerto do conto "O homem da Ganja" do meu livro "O Grande Pajé" (2011)