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quarta-feira, 23 de maio de 2018

O guri e a lebre



         O guri era medonho. Levado. Mexia em tudo que via. O pais, faça-se a justiça, tentavam impor autoridade, mas as reprimendas, naquele ouvidinho, entravam por um lado e saíam pelo outro. Dizer à ele: Não mexe nesse botãozinho aqui, tá? ... equivalia à um convite pro rapazinho, assim que possível, apertá-lo. Pedir pra ele não desfolhar mais a planta que o papai plantô no canteiro, era como convidá-lo a destruí-la sem piedade. Lembrá-lo que o cãozinho da casa é amigo e não é pra batê nele,  apenas encorajava-o a, longe dos holofotes, descer o cacete no animal.
          Na rua e na casa dos outros, então, nem se fala... Passava a mão em tudo o que a curiosidade infantil queria. Aproveitava-se da hospitalidade e tolerância próprias dos anfitriões para disparar alarme, meter palito em fechadura, despejar terra em aquário, arrancar etiqueta de calça na loja, derrubar prateleira de conservas no mini-mercado e outros tantos abusos que aqui não caberiam. 
Dêxa ele... É criança e tem que brincá... Era dessa forma que a autoridade do pai e da mãe era jogada por terra quando, em casa alheia, esforçavam-se para reprimir o ímpeto mexilão do guri. Bater nele também não adiantava muito, principalmente quando o safanão partia da mãe. Os tapinhas e beliscões da genitora faziam-no debochar dela e da sua falta de vigor. O pai ele até que ouvia, mas simplesmente mudava o foco de suas investidas e, por exemplo, se Alfeu gritasse pra ele parar de jogar pedra no carro ele até obedecia, mas  se mandava pra torneira da frente, ligava ela sem autorização e embarrava os pés na lama.
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      Lebres são animais solitários e possuem hábitos noturnos. Durante o dia dormem numa toca forrada de capim, acordando apenas ao anoitecer e antes de abandonar o seu abrigo, investiga o ambiente ao redor. Apenas após certificar-se de que não há perigo por perto, aventura-se a sair em busca de alimento. Sua alimentação consiste, basicamente, de partes verdes das plantas e nabo. É muito confundida com o coelho e embora as diferenças entre esses dois animais sejam evidentes, a mais notável diz respeito aos membros posteriores. Enquanto na lebre são bem mais longos que os anteriores, no coelho ambos membros possuem o mesmo comprimento. Esta característica, aliada a um corpo musculoso faz da lebre um corredor muito ágil e resistente.
       A gestação da lebre dura em torno de 40 dias. A fêmea dá a luz de um a cinco filhotes, em um ambiente tranqüilo e abrigado. Os cuidados maternais limitam-se a amamentação, que em geral acontece a noite. Durante o dia, os filhotes ficam sozinhos. Estes, ao contrário dos filhotes de coelho, que nascem de olhos fechados e sem pêlos, nascem cobertos de pêlos e olhos bem abertos. Pouco tempo após o nascimento já conseguem andar sozinhos.

(infoescola.com)


     

   Conhecida como “lebrão”, por seu tamanho diferenciado em comparação a outros animais semelhantes, a Lepus europaeus pode chegar a 70 cm quando está saltando, esticada.Essa espécie é nativa da Europa e foi trazida para a Argentina e para o Chile para a chamada caça esportiva. Se proliferou rapidamente por países vizinhos e chegou ao Brasil nos anos 50. Sua primeira aparição registrada em literatura foi no Rio Grande do Sul no início dos anos 80.Em mais de 3 décadas de adaptação bem sucedida, a espécie atualmente é considerada por muitos uma praga que devasta plantações no sul e no sudeste do Brasil.

(vista.se.com)

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          Já um pouco mais crescido, o guri, que alguns anos antes, em companhia do primo,  havia enterrado, meio viva, uma  esquelética e adoentada filhote de pastor alemão, certo dia foi com alguns coleguinhas de rua conhecer o que era de fato caçá lebre no morro. Naquela manhã de sol forte, eram quatro homenzinhos, dois deles segurando compridos cassetetes de madeira em mãos, andando a passos decididos, firmes, em direção ao Morro da Embratel, que naquela época era um criadouro natural e a céu aberto de lebres em Porto Alegre.
          Entre tantas diversões e passatempos da gurizada da periferia, a caça da lebre a pauladas era apenas mais uma. O único novato no excitado grupo era exatamente ele, o filho primogênito de Alfeu, guarda municipal e Cinara, caixa operadora da Mercearia Tavares, estabelecimento comercial tradicionalmente bem abastecido pelos legumes, hortaliças frescas e suculentas frutas da Vila Nova. O guri, havia algum tempo, andava com a curiosidade obstinadamente aguçada sobre como se pegava uma lebre de jeito. Todos ali, menos ele, sabiam exatamente o que fazer e acontecer quando o assunto era, sorrateiramente, descer o sarrafo na cabeça do assustado orelhudo. Ás vezes era preciso correr muito, pois o bicho desviava da primeira paulada e saía em carreira pela encosta daquele morro coberto de vegetação ainda nativa. Foi isso o que acabou  acontecendo logo na estréia dele como auxiliar de caçador lebreiro. O coleguinha golpeou apenas o ar, quando tentou sem sucesso esfacelar o crânio da Lepus europaeus e tão logo esta recompôs a postura de exímia velocista, largou em disparada rumo à vida, a salvação, ao sossego de viver em paz. Eram, no entanto, mais fortes e persistentes aqueles que queriam o seu fim. A lebre parecia disposta a não se deixar alcançar novamente, pois carregava em si um segredo que, principalmente as mulheres devem entender bem. Quando, novamente acuada, dessa vez entre duas grandes rochas, sentiu que o fim, prematuramente para os seus, aproximava-se, tentou despertar a compaixão alheia para o seu drama. Emitiu um alto grunhido, que melancolicamente lembrava choro de criança. A semelhança com o lamento de um bebê foi tanta que as pernas do guri bambearam feito vara de bambu no taquaral, ali, em plena emboscada. Os olinhos da criatura, da mesma forma, fitavam-o numa última exortação a piedade. Já as orelinhas, murcharam em sinal de submissão e fraqueza frente á inimigos tão implacáveis.


                     Nada, entretanto, conseguiria naquele instante refrear a inabalável resolução que insuflava o organizado grupo e na segunda vez a paulada foi certeira. Não adiantou nem mesmo confidenciar seu íntimo e mais caro segredo às portas da morte. Mais tarde, quando com uma afiada faca de serra cortavam eles a barriga da fêmea de quatro patas para arrancar-lhe o couro, encontraram quatro filhotes, todos ainda vivos, mexendo-se. Em consideração e respeito à raça humana, principalmente às crianças, que agem de tal forma por impulso e sem maldade ainda consolidada na alma, abstenho-me de relatar os pormenores do que lamentavelmente ocorreu em seguida e encerro pontualmente aqui mais uma narrativa escrita e baseada em fatos da vida real.     

                                                                           
                                                                                                               Cesar
                       

3 comentários:

dioceli borges disse...

Nossa estou sem o palavras, gostei muito dessa mistura de fatos.

Elvira Carvalho disse...

Meu Deus que relato! Fiquei sem palavras, especialmente quando li que se baseava em factos reais. Que adultos serão essas crianças?
Um abraço e bom fim-de-semana

cesar farias disse...

De fato, é uma grande crueldade, Elvira. Já fiz, confesso, algumas atrocidades com animais na minha infância e por isso posso afirmar que nem sempre nos tornamos adultos cruéis por "brincar" dessa forma. O grande problema, acho eu, é a educação e cultura dos adultos, que banaliza práticas como essas.
Grande abraço.