domingo, 26 de julho de 2026

Caminhos imprecisos

 


Meu caminho de volta eu fiz contando estrelas,

brincando com seus reflexos na minha pele e no chão.

Eu estava olhando o chão.

Pulava amarelinha em quadrados imaginários de giz

e ia saltando, de um em um, de dois em dois, 

tentando chegar ao céu.

Fiz curvas fechadas, vi precipícios, escapei deles,

porque asas transparentes sempre me seguraram.

Mesmo assim cheguei a ver o fundo, lá no fundo

aquele escuro que não se sabe onde termina,

porque nunca se viu onde começou.

E ainda guardo as marcas brilhantes e invisíveis

aos olhos comuns como os meus

das asas que me guardaram e sei que guardam

quando saio pela rua a contar estrelas

e a pular amarelinha nas calçadas,

tentando fazer o caminho de volta

pensando ser o caminho de ida.



Fonte: "Pintura Ingênua", poemas de Jacqueline Aisenman.

sábado, 18 de julho de 2026

Quem vence a copa

 




          A minha resposta é direta e pode, com certeza, desapontar quem esperava outra coisa dessa postagem: Não sou eu nem tampouco você, que trabalha duro pra vencer com dignidade a batalha dos impostos e faturas de cada mês. Também não é a associação sem fins lucrativos, que distribui sopa no viaduto da tua metrópole. Muito menos aquela ONG que oferece cursos profissionalizantes à menores em situação de rua.

    O vencedor dessa edição recebe, além da cobiçada taça ,  redondos US$ 50 milhões de dólares, quantia que, direcionada pro lugar certo, mitigaria a fome, ignorância e desigualdade entre muitos. Apesar de fã do esporte, não posso deixar de manifestar, nesse momento oportuno, a minha contrariedade com esse aspecto esbanjador do futebol. As cifras que movimentam a máquina futebolística, à nível nacional e continental, também, por sua vez, são milionárias e isso, de uns tempos pra cá, me tem feito refletir.

    Não por acaso, aqui no país, dirigentes de clubes e confederações têm se embrulhado em prestações de contas mal feitas e desvios múltiplos de repasses. Poucas atividades personificam tão esplendidamente o monstro horripilante da má distribuição de renda.

     E pra encerrar com chave de ouro,  deixo-vos à título de informação, os valores que cada seleção desembolsou nessa brincadeira toda.


  • Campeão: US$ 50 milhões
  • Vice-campeão: US$ 33 milhões
  • 3º lugar: US$ 29 milhões
  • 4º lugar: US$ 27 milhões
  • 5º ao 8º lugar: US$ 19 milhões
  • 9º ao 16º lugar: US$ 15 milhões
  • 17º ao 32º lugar: US$ 11 milhões
  • 33º ao 48º lugar: US$ 9 milhões

                                    😮

sábado, 11 de julho de 2026

Um dia na colheita do café -século XVIII

 


Partida para Colheita de Café. Fotografia de Marc Ferrez, Década de 1880. Acervo do Instituto Moreira Salles. As vésperas da ¹Lei Áurea, a grande maioria da população de escravizados estava no interior, cerca de 720.000 pessoas, ou 5% da população brasileira da época

Nas fazendas de café eram comuns as jornadas de trabalho de quinze a dezoito horas diárias, iniciadas, ainda de madrugada, ao som do sino que despertava os escravos para que eles se apresentassem ao feitor, para receber as tarefas. Se as atividades fossem próximas à sede da fazenda, iam a pé; se mais distantes, um carro de boi os transportava.

O almoço era servido lá pelas dez horas da manhã. O cardápio constava de feijão, angu de milho, abóbora, farinha de mandioca, eventualmente toucinho ou partes desprezadas do porco, rabo, orelha, pé etc. e frutas da estação como bananas, laranjas e goiabas.

A refeição deveria ser feita rapidamente, para não se perder tempo, e de cócoras; os negros tinham que engolir tudo porque logo em seguida a faina continuava. Por volta de uma hora da tarde, um café com rapadura era servido substituído nos dias frios por cachaça, e às quatro horas jantava-se. Aí, comia-se o mesmo que no almoço, descansava-se alguns minutos e retomava-se o batente até escurecer.

Cumpria-se, então, o ritual da manhã, todos se apresentando ao administrador ou dono, conforme o caso da fazenda. Era quando, após uma breve oração, iniciava-se o serão que constava, geralmente, da produção ou beneficiamento de bens de consumo. Só lá pelas nove ou dez horas da noite é que o escravo podia se recolher. Isso para alguém que, no verão, levantava por volta das quatro horas da madrugada. Antes de se deitar, fazia uma refeição rápida e, extenuado, descansava até a jornada do dia seguinte.

Aos dez ou 11 anos, meninos e meninas escravizados eram apresentados ao universo produtivo da roça, com trabalhos semelhantes aos exigidos dos adultos. Isso significava que eles deixariam as tarefas domésticas diárias, como espantar moscas, carregar porcelana para o chá, trazer água do poço, ser companheiros de brincadeira para as crianças brancas, cuidar de outras crianças escravas e ajudar suas mães em tarefas simples para se tornarem trabalhadores regulares.

Havia também o medo da separação das mães de seus filhos, por meio de vendas a outras fazendas, sendo que somente em 15 de setembro de 1869 pelo decreto 1695 se passou a proibir a separação das famílias escravas: “Art. 2º Em todas as vendas de escravos, ou sejam particulares ou judiciais, é proibido, sob pena de nulidade, separar o marido da mulher, o filho do pai ou mãe, salvo sendo os filhos maiores de 15 anos.


1 Lei assinada em maio de 1888 pela princesa portuguesa Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga. Em tese, ao entrar em vigor, acabou com a escravidão no Brasil.



Fonte: Escravidão no Brasil Por Jaime Pinsky

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A ganja e o Humberto

 

Cauã

(...) O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo(Cauã) bem longe dali . O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servido em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir  o seu  velho  Passat   cinza  em   alta  velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.

            Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido (ganja) exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada. Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera. (...)


Enxerto do conto "O homem da Ganja" do meu livro "O Grande Pajé" (2011)



domingo, 14 de junho de 2026

O WhatsApp, segundo a Psicologia

 


Prefere mandar mensagens escritas no WhatsApp em vez de gravar áudios? A psicologia explica o que essa escolha pode revelar sobre sua personalidade, empatia e forma de se comunicar.

Você é do time que manda mensagem escrita no WhatsApp ou do time que adora gravar áudio? 

Apesar de muitos encararem essa escolha apenas como uma questão de preferência ou agilidade no dia a dia contudo, especialistas em psicologia apontam que ela pode estar relacionada a características específicas da personalidade e à forma como cada indivíduo processa suas relações sociais. 

De acordo com a Associação Americana de Psicologia, pessoas que priorizam a comunicação por texto buscam controle, consistência interna e clareza emocional. Elas não evitam o contato, mas escolhem um canal no qual possam se expressar sem improvisação, considerando cuidadosamente tanto o conteúdo quanto o impacto da mensagem.

                                 1. Pessoas introvertidas

A preferência pela escrita é bastante comum entre indivíduos introvertidos. Ao contrário do que muitos pensam, eles não evitam o contato social, mas costumam administrar sua energia emocional com mais cautela. 

As mensagens de texto oferecem um ambiente mais confortável para interagir, sem a pressão de responder imediatamente ou a necessidade de se expor por meio da voz. 

Esse formato permite que participem das conversas no próprio ritmo, preservando seu bem-estar emocional.

2. Comunicadores reflexivos

Outro perfil frequentemente associado às mensagens escritas é o das pessoas reflexivas. Elas tem a tendência de analisar cuidadosamente o que desejam comunicar antes de enviar uma resposta. 

A escrita funciona como uma ferramenta que possibilita organizar pensamentos, revisar argumentos e garantir que a mensagem represente exatamente suas intenções. Por isso, costumam valorizar a clareza, a coerência e a precisão das palavras escolhidas.

       3. Pessoas independentes e autônomas

A escolha pelo texto também aparece com frequência entre indivíduos que valorizam autonomia e independência. Como a comunicação escrita não exige respostas instantâneas, ela permite mais tempo para refletir e formular opiniões sem a influência da pressão do momento. 

Esse comportamento costuma estar relacionado à segurança nas próprias decisões e à capacidade de sustentar posicionamentos de forma tranquila e racional.

Assim, para psicologia, escolher por mensagens escritas em vez de áudios está longe de ser uma simples preferência tecnológica. Em muitos casos, essa escolha pode refletir traços importantes da personalidade, como introspecção, empatia, reflexão e autonomia emocional.

4. Pessoas com alta empatia

Muitos adeptos das mensagens de texto também demonstram grande preocupação com o impacto que suas palavras podem causar nos outros. 

A comunicação escrita oferece a oportunidade de ajustar o tom da conversa, evitar interpretações equivocadas e transmitir emoções de maneira mais cuidadosa. 

Em vez de agir por impulso, essas pessoas costumam considerar como a pessoa do outro lado da tela vai receber a mensagem, buscando reduzir desconfortos e possíveis conflitos.


Fonte: purepeople.com.br                                                                                      






domingo, 7 de junho de 2026

A meditação mântrica

 




           Os populares "Hare Krishnas" são conhecidos pela maior parte da sociedade como figuras exóticas de modos e trajes típicos. Quem nunca foi abordado por um "Hare" vendendo incensos ou livros no ônibus, ao menos avistou um grupo tocando instrumentos musicais indianos entoando repetidamente:

                              Hare Krsna, Hare Krsna

                              Krsna Krsna, Hare Hare

                              Hare Rama, Hare Rama

                              Rama Rama, Hare Hare

            Na verdade, no mundo ocidental, pouco se sabe a respeito da cultura que os inspira. O processo de cantar e ouvir as glórias de Deus, a meditação mântrica, as escrituras sagradas, os mestres espirituais, a alimentação lacto-vegetariana e a adoração a deidades compõem um universo ainda pouco familiar aos olhos ocidentais. Sabe-se que seus hábitos são oriundos da Índia, mas o seu significado é pouco compreendido.

            A base do movimento pela consciência de Krishna é a cultura védica, a mais antiga da humanidade. Todos os seus aspectos (religiosos, filosóficos, científicos, sociais, etc.) estão voltados para a espiritualidade, para a busca da auto-realização e o contato com Deus.

            O Senhor é o proprietário de todo o universo e assim pode ser conhecido por diferentes nomes, em diferentes lugares. Qualquer nomenclatura que se relacione ao Senhor Supremo é tão sagrada quanto as outras. Todas dizem respeito à Deus. Estes Santos nomes são tão poderosos quanto Ele e nada impede que alguém os cante glorificando-O através do nome específico pelo qual é conhecido em determinada religião ou região. A literatura védica milenar da Índia reconhece o mantra Hare Krsna como Supremo - Maha-mantra -  pois contém todos os outros.

            O nome KRISHNA significa "o todo-atrativo", RAMA o "todo-agradável". HARE é uma súplica à energia interna de Deus. Quando cantamos o Maha-mantra estamos orando ao Senhor todo-atrativo, à sua potência interna de prazer, que nos aceite e possamos satisfazê-Lo servindo-O. 

            Mantra é a vibração sonora capaz de nos conectar à energia Suprema que controla todas as coisas, materiais e imateriais. Ao entoarmos mantras, automaticamente entramos em contato com níveis superiores de consciência e ultrapassamos os limites dos padrões mentais condicionados. Assim, podemos desenvolver o controle mental e atingir o equilíbrio emocional necessário para uma vida saudável e harmoniosa. Não há nenhuma restrição para a prática da meditação mântrica. Pelo contrário, o processo de cantar mantras é indicado como o processo ideal para o homem moderno na busca da auto-realização. Descubra a paz em meio ao caos.


                                 🙏


  Fonte: Informativo do Centro de Estudos Védicos de Porto Alegre                                              

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O Tio Sam vem aí

 


             Após certo período de advertência, os U.S.A passaram a classificar as facções criminosas daqui como grupos terroristas.

   Sem querer chateá-los com ponderações nacionalistas e políticas, na condição de mero cidadão brasileiro, vejo com certa desconfiança mais essa altruísta decisão do governo norte-americano, dessa vez, diretamente apontada pro meu país. Coincidência ou não, todas as intervenções bélicas externas de Trump são em países com alguma reserva mineral  ou fóssil de fazer inveja.

    Não tenho, é lógico, a capacidade de prever as próximas jogadas desse tabuleiro, mas posso, isso sim, manifestar publicamente a minha apreensão, com base no histórico arbitrário desse senhor de cabelos brancos que parece, de fato, se julgar dono do mundo.

     Mundialmente falando, o tráfico de drogas tá fortemente infiltrado na política e não acredito que a influência externa de uma potência mundial vai pura e simplesmente acabar com ele e é por isso que eu encerro evocando, em tom de consultoria, aquele velho ditado:


"Each monkey in its own tree."


domingo, 24 de maio de 2026

O perigo, a flor e o espinho

 


          Muito cômodo é, divulgar resenha ou propagandear obras de escritores consagrados. Solidário e justo se configura, segundo penso, em contrapartida, proporcionar visibilidade aos autores não aclamados pela mídia, redes sociais e circuitos de divulgação afins. Muitos desses, são cronistas da realidade social em que vivem e podem sim, representar-nos muito bem e prender as nossas atenções com as suas histórias.

          Um deles, que conheci anos atrás, é Geraldo do Cavaco, que como o próprio nome já diz, é músico também e tem forte ligação com a história do samba aqui em Porto Alegre. Não é a primeiro vez que trago ele aqui, não por acaso, pois seu estilo simples, mas claro de escrever, típico de homem do povo, cativou-me a ainda cativa muito.


          Para apimentar a minha rotina foi morar uma senhora com sua empregada no último andar. Esta senhora se chamava Talita e sua empregada Vilma. Eu subia e descia e sempre respeitosamente cumprimentava as pessoas , pedia licença para entrar e sair no elevador. Dona Talita foi com a minha cara e me convidou pra modificar a pintura em seu apartamento. Tudo era branco, ela queria mudar alguma coisa por causa dos móveis. Não podia fazer aquilo porque era o padrão de cima a baixo, mas ela foi convincente e me pediu nas horas vagas que fosse pintando, aos sábados e domingos, seria um biquinho. Fui caindo na dela, tava me infiltrando, almoçava e, pum, enfiava-me no apartamento de Dona Talita pra bater papo com a Vilma, sua empregada. Ás vezes ela não estava em casa, já me sentia em casa, já estava me sentindo no dever de convidar Vilma pra sair comigo num fim de semana. Só que ela tinha um caso com um cara e este cara era um policial que eu não conhecia, isto me travou, senti o perigo. Retirei-me pra refrescar a memória. Pedro, meu mestre, sacudia o rabo quando via Vilma nos corredores do edifício, uivava, latia, babava, lambia o chão onde ela pisava, mas não levava nem um tchau. Isto deixava ciscando o capim, cheirando o chão onde ela pisava e não tinha vaga. Comigo era diferente, volta e meia ela andava me procurando, me convidando para subir e para bater um papo, tomar um sorvete no apartamento com ela, e Pedro tinha ciúmes. Agora eu tinha que me cuidar de dois, do policial e do meu mestre. Às vezes eu não ia embora, eu batia o meu cartão, mas me enfiava no apartamento e ia pintar à noite. Isto me tornou suspeito. Vilma não era de se botar fora, ela vestia umas ¹cocotinhas e calçava um tamanquinho de saltinho e o cabelo de fazer uma trança só que lhe caía nas costas. Era um filé, ela chamava muito a atenção andando acompanhada e só, muito mais! 

          Numa noite, Vilma estava só no apartamento, eu senti que seria o dia fatal e ideal para o ataque. Deitou no sofá cama onde era a sua cama e ficou a me olhar, então eu comecei a sacudir o rabo, com as duas orelhas em pé, e parei de pintar. Disse a ela que tava na hora de nós termos uma conversa franca e me sentei ao seu lado. Ela estava deitada de bruços dava pra ver todo o seu perfil. Fui dizendo a ela que eu queria me concentrar no trabalho, mas ela estava me tirando a atenção e eu não estava conseguindo fazer nada.

          Eu estava a fim dela naquele momento e minhas mãos já andavam viajando por suas pernas quando ela sentou do meu lado, pegou minhas mãos nervosas, me deu um beijo, me olhou bem nos olhos e me disse: Geraldo, tu não sabe nada de mim, por isto eu vou ser franca contigo, com eu também gostei de ti, vou contar para tu não dizer que eu te enganei. Então passou a me revelar de onde era, sua terra, como veio trabalhar com Dona Talita, o envolvimento com este policial, que era mais velho que ela, e por último, a bomba que me tirou do ar.

                                             😵😯😨


          Ela me contou que estava encrencada por que suas ²regras já estavam atrasadas há dois meses e ela estava com medo, longe de casa como iria ser? A patroa era uma senhora velha, como iria cuidar se era ela que precisava de cuidados? E ela sabe, um bebê chora, quer colo, se acorda a noite. Ela nem quarto tinha, dormia naquele sofá cama, e agora? E agora digo eu. Pergunto se a dona Talita sabe e ela diz que ainda não. "Eu preciso me virar, arrumar um meio de me livrar desta encrenca, e agora, por que depois eu não sei o que pode acontecer". Com a notícia-bomba tudo murchou, o galinho perdeu a crista.

          Eu pergunto: E o cara? Ela me responde: Hi, ele não esta nem aí, eu tentei dizer a ele, mas ele desconversa. Então ela me diz: Se tu pudesse me ajudar eu ficaria muito grata, vou começar vida nova de hoje em diante. Eu disse: Como vou te ajudar? E ela: Bom, tu vais receber desta pintura, então tu me empresta dois mil, por eu não quero pedir pra Dona Talita e nem ela precisa ficar sabendo, tá? Posso contar contigo? Eu sacudi a cabeça por que não tinha mais nada a fazer e fui me levantando. Ela ficou com as minhas mãos ainda presas e vendo o meu desânimo soltou e disse: Tu me desculpe, eu gostaria que fosse de outro jeito, mas infelizmente não é! Eu fui pra casa naquela noite pensando, e se a velha já sabe? E deixou uma ratoeira pra mim? Sim, porque eu entro, dou uma ruída no queijo e a Vilma não me fala nada? E depois anuncia que aconteceu? E explode notícia no edifício que o Gegê vai ser papai? Sim, porque aí eu vou ao pote todos os dias e como vou explicar que não é meu? A velha vai fazer de tudo para amparar a Vilma. Se a Vilma fosse trapaceira teria me metido num bolo naquela noite, mas ela me contou, teria acontecido, mas eu sou casado, tenho mulher e filhos? Como vai ficar, é um caso a ser pensado, não vou poder ficar com ela. Depois, se a velha, ao querer amparar a empregada, diz que eu abusei, deixei ela sair, para abusar da empregada? Eu perco tudo, casa, mulher, emprego, vou parar atrás das grades e com um policial na minha cola. Eu tinha que ter cabeça, vou pensar. Assim, eu me afastei de Vilma, mas Pedro soube por outros que eu estive com ela.


                   Fragmento de  'Memórias de Geraldo do Cavaco"- 2ª edição- 2016.



1  o termo cocota tem origem no francês "cocotte" que é um tipo de calça jeans com        o cós muito baixo e justa ao corpo.

2   menstruação

             

sábado, 16 de maio de 2026

A seta

         


        Eu, que me tornei internacionalmente conhecido como um contista de histórias longas, algumas beirando à romances, começo aqui a palmilhar, despretensiosamente, o terreno dos mini contos. Direto e reto. Claro e conciso.

     Agradem ou não, muitos outros virão, podem esperar, estimados leitores meus.

 

          Aqueles oito meses abstêmios, sem vida sentimental e tudo aquilo que com ela vêm junto, impulsionaram-na à um apurado estágio reflexivo. A seta foi certeira. Uma frase, do nada surgiu. Foi reveladora e ao mesmo tempo definitiva, moldando, á partir dali, profundamente, a forma como passou à encarar a vida:

        "Não nasci pra ser freira."


domingo, 10 de maio de 2026

Bendita maternidade

 


No cuidado.
Na presença.
Na entrega.
Na força que acolhe
e no coração que tantas vezes ama sem pedir nada em troca.
A maternidade carrega algo de sagrado,
porque revela, de forma muito concreta,
esse princípio divino do amparo, da proteção
e do amor que sustenta a vida.
Neste Dia das Mães,
mais do que comemorar,
vale contemplar.
Reconhecer.
Honrar.
Honrar aquelas que cuidam,
as que protegem,
as que estão presentes,
e também aquelas que, com todas as suas limitações humanas,
ainda assim expressam algo profundo do amor.
🌿 Que este seja um dia de gratidão,
de reverência
e de lembrança:
quando o amor se torna cuidado, presença e doação,
ele nos mostra um reflexo de Deus.



Giridhari Das

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O primeiro sinal

     


    

          Dia de remexer no baú e resgatar o poema de um romance adolescente que escrevi.

  


O que será isso que eu sinto agora?

Onde está aquele meu orgulho?

Onde estão minhas razões?

Não é bem isso o que eu quero,

mas a escolha parece não ser mais minha

O certo e o errado já não existem,

perderam-se em algum lugar

Aquela redoma que tanto me acompanhara,

parece não mais funcionar

Não sei calar essa minha voz

Justo eu, que sempre achara errado dar a outra face,

mesmo que o coração mandasse

Sempre abri mão de segundas chances,

e de toda espécie de concessões

Só que agora sinto algo novo

Algo que eu assistia,

mas não imaginava em mim

Sei que ainda posso acabar com tudo,

mas quero continuar

Talvez por necessidade


Talvez só por curiosidade

É solitária a minha caminhada,

por isso só eu sentirei

Poderá ser mais uma triste ilusão,

ou o início de uma realidade

Não sei se estou me humilhando,

ou se estou somente lutando

A verdade é que nunca fiz isso antes,

por isso nem imagino qual será o fim.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

8 perguntas sobre nutrição vegetariana

 


  De onde os vegetarianos tiram a sua proteína?

Ao contrário da percepção geral da população, as carnes não são as únicas fontes de proteínas. Além delas, também os alimentos de origem vegetal, quando consumidos em quantidade e variedade suficientes, são capazes de suprir todas as necessidades protéicas do organismo humano.

As principais fontes de proteína vegetal, estão divididas em dois grupos: as leguminosas (feijões, lentilha, ervilha, grão-de-bico, soja e derivados) e oleaginosas (castanhas, nozes, amêndoas, sementes de gergelim e girassol, entre outras). O segredo está em consumir esses alimentos em quantidade que seja adequada a cada pessoa.

As proteínas vegetais têm o valor biológico igual ao das carnes?

Um alimento de valor biológico é aquele que é capaz de fornecer todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano. Outra terminologia usada é "proteína completa". Aminoácidos são fragmentos que formam a proteína. O termo "essenciais" refere-se a algo que só pode ser obtido através da dieta. As proteínas de origem animal apresentam um bom perfil de aminoácidos essenciais. Isso significa dizer que elas contêm esses nutrientes em quantidade equilibrada.

Em comparação e de forma geral, os vegetais não apresentam essa mesma qualidade, sendo raro encontrar todos os aminoácidos essenciais em um único alimento de origem vegetal. Apesar disso, o fato é que um pessoa não consome apenas um tipo de alimento vegetal, mas sim uma variedade desses. Essa variedade é o que torna possível que se obtenha todos os aminoácidos essenciais em uma dieta 100% vegetariana (vegana), pois o aminoácido que falta em um alimento vegetal pode ser encontrado num outro.

Além das fontes proteicas já citadas, os cereais (arroz integral, aveia, milho, trigo, cevadinha, centeio) ajudam a completar esse perfil de aminoácidos pois são ricos justamente no aminoácido que falta às leguminosas.

Nenhum alimento isolado, seja esse de origem vegetal ou animal, é capaz de fornecer todos os nutrientes necessários à saúde. Portanto, a chave está na variedade e isso se torna mais verdadeiro no caso de uma dieta vegetariana. Vale notar que não é necessário realizar cálculos complicados para garantir esse equilíbrio. Variando a fonte vegetal de proteína a cada dois ou três dias, o consumo de um bom perfil de aminoácidos essenciais estará garantido.

A carne não é a melhor fonte de ferro que existe? Não ficarei anêmico se eu parar de comer carne?

A carne é uma excelente fonte de ferro, mas isso não significa que ela seja a única. Leguminosas, oleaginosas, vegetais verde-escuros e frutas secas são boas fontes vegetais de ferro. Consumí-los em conjunto com uma fonte de vitamina C (vegetais e frutas in natura), aumentará a absorção do ferro. É sabido que o ferro presente nas carnes é mais bem absorvido, mas o ferro presente nos vegetais é absorvido a uma taxa suficiente para suprir as necessidades do organismo. Uma dieta vegana, por ser isenta de laticínios, possui a vantagem de ser mais rica em ferro. Isso porque os laticínios, além de serem uma péssima fontes desse mineral, ainda prejudicam a absorção do ferro que tenha sido ingerido a partir de outros alimentos. Estatisticamente, , quando comparada com a população onívora (que consome carnes), vemos que a população vegetariana não apresenta uma incidência maior de anemia ferropriva (por falta de ferro).


Existe algum nutriente que não possa ser suprido com uma dieta 100% vegetariana (vegana)?

Sim. A vitamina B12 é o único nutriente que não pode ser obtido a partir de fontes vegetais. A vitamina B12 é produzida por bactérias, que por sua vez são consumidas por animais e assim essa vitamina vai parar em seus tecidos, que serão eventualmente consumidos por um animal carnívoro ou por um animal humano. Ancestralmente, os seres humanos obtinham a sua vitamina B12 consumindo bactérias presentes no ambiente e que naturalmente contaminavam os seus alimentos. Com a modernização da dieta e a adoção de métodos de higiene pessoal e ambiental, o nosso consumo de bactérias foi reduzindo drasticamente, o que é bom por muitos motivos. O único contraponto, que é a redução do consumo da vitamina B12, pode ser resolvido fazendo uso de um suplemento da vitamina, que é barato e seguro. Alguns alimentos são fortificados com esse nutriente e podem ser consumidos no lugar do suplemento. Se você é vegano, não deixe de suplementar a vitamina B12 e assim poderá ficar tranquilo com relação à obtenção de todos os nutrientes necessários ao organismo humano.

Crianças e gestantes podem ser vegetarianas ou veganas?

Sim. Por se tratar de uma fase crítica da vida, recomenda-se fortemente que haja um planejamento nutricional adequado, o que inclui a suplementação de ácido fólico, vitamina B12 e ômega-3. Havendo planejamento e orientação, não há qualquer objeção à adoção de uma dieta vegana durante qualquer fase da vida, inclusive a gestação e a infância.

Se eu aderir a uma dieta vegetariana ou vegana, isso prejudicará o meu rendimento físico?

Assim como acontece com relação à proteína, ao ferro e ao cálcio, o baixo rendimento físico também não passa de uma mito. Por ser capaz de suprir todas as necessidades do organismo, não há motivo pelo qual a adesão a uma dieta vegetariana ou vegana poderia causar uma queda no rendimento físico. Muitos atletas de destaque são veganos. Entre eles estão Carl Lewis (medalhista olímpico), Dave Scott (seis vezes campeão do Ironman) e Kenneth Williams (campeão de fisiculturismo).

E o meu prazer culinário? Nunca mais poderei saborear um pedaço de carne?

A culinária vegetariana é riquíssima em aromas, cores e sabores. Os melhores chefs de cozinha sabem que são justamente os ingredientes vegetais (legumes, ervas e especiarias) que conferem sabor aos pratos à base de carnes de animais. Imagine a possibilidade de aromas e sabores quando os vegetais deixam de ser complemento e passam a ser usados como ingredientes principais. a influência das cozinhas indiana, oriental e mediterrânea está muito presente na culinária vegetariana. além dessas e muitas outras, também é possível adaptar ao veganismo quase todos os pratos típicos da cozinha brasileira. Você não precisa abrir mão do seu prazer culinário para aderir à uma dieta vegetariana ou vegana. Além do prazer culinário, a escolha em adotar uma dieta vegana proporciona ainda os prazeres de viver uma vida mais ética e mais saudável.

Se eu me tornar vegano, vou ter que gastar mais com a minha alimentação?

A dieta vegana baseia-se em alimentos que podem ser facilmente adquiridos em feiras livres e mercados municipais: frutas, legumes, cereais, castanhas e leguminosas. Além de serem alimentos acessíveis, a sua conservação também é mais fácil do que a dos produtos de origem animal. Além disso, o preparo de alimentos de origem vegetal é menos trabalhoso, desde o processo de higienização até o momento de corte e cocção (isso quando não são consumidos in natura).



Fonte: VEDDAS (Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais e Sociedade.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Vocação

 


      Posto hoje mais um poema desse jovem escritor haitiano, que imigrou pro Brasil deixando pra trás os horrores da fome e da guerra e é, portanto, uma autoridade em ambos assuntos.


A vida é uma batalha

Lute com sua cabeça

Nunca com seu coração

Lidar sobre a vida é a minha vocação


Aceitar que a culpa é sua

Buscar onde está a sua falha

Ter a determinação pra lutar

Antes que sua vida acabe


Há dois dias que você não pode fazer nada

Ontem e amanhã

Mas hoje é o dia ideal

Pra amar e lutar


A vida é nossa inimiga

Nós devemos fazer a união para a guerra

Posso perder a batalha

Mas nunca a guerra.



                                           Joseph Mike

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Domingo de ramos e cultura védica

 



O Domingo de Ramos marca, no cristianismo, a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, quando foi recebido com ramos e aclamações — um momento de aparente glória que antecede a crucificação.
À primeira vista, isso parece um evento histórico e devocional. Mas quando olhamos sob a lente do *Advaita Vedānta, o significado se aprofunda radicalmente.
🌿 O simbolismo do Domingo de Ramos na visão não dual
No Advaita, toda experiência é uma manifestação de Brahman, a Consciência única. Assim:
1. A entrada em Jerusalém = a Consciência entrando no “coração”
Jerusalém pode ser vista simbolicamente como o “centro interno” do ser.
A entrada de Cristo representa o reconhecimento da Consciência (Atman) em si mesmo.
👉 Não é um evento externo — é um despertar interno.
2. Os ramos e a aclamação = a mente em devoção
As pessoas que celebram representam os pensamentos quando se voltam para o divino.
Mas há um ponto essencial no Advaita:
• A mesma mente que hoje celebra…
• É a que amanhã rejeita (na crucificação)
👉 Isso mostra a instabilidade do ego e da mente.
3. Cristo montado no jumento = humildade do Ser
Cristo não entra como rei mundano, mas com simplicidade.
No Advaita:
• O Ser verdadeiro (Atman) não é grandioso externamente
• Ele é silencioso, humilde, sem ego
4. A dualidade da multidão = ilusão (Maya)
O mesmo povo que grita “Hosana” depois grita “Crucifica-o”.
Isso ilustra Maya:
• A realidade percebida muda
• A verdade absoluta não muda
🕉️ A leitura mais profunda (Advaita)
Na visão não dual:
• Cristo não é apenas uma pessoa histórica
• Ele representa o Eu verdadeiro (Atman)
E o ensinamento oculto do Domingo de Ramos seria:
“Quando o Eu verdadeiro é reconhecido, a mente celebra.
Mas enquanto houver ego, essa realização não é estável.”
✨ Paralelo direto com os ensinamentos védicos
Nos textos como a Bhagavad Gita, vemos algo semelhante:
• O sábio permanece estável diante de louvor ou crítica
• A verdade não depende da opinião da multidão
Cristo vivendo louvor e rejeição com equanimidade reflete exatamente isso.
🌿 Contemplação prática
Você pode usar o Domingo de Ramos como meditação:
• Quem é celebrado dentro de mim?
• Minha paz depende da aprovação externa?
• Eu sou a multidão (mente) ou o Cristo (Consciência)?

Rene Ugalde, na fanpage Conhecimento Védico


* Escola filosófica indiana.