(...) Após muito relutar e fazer contas na ponta do lápis, Nivaldo finalmente resolveu solicitar a sua Licença-Prêmio, na esperança de usufruí-la em gozo parcial, recebendo o restante em moeda corrente. Como lhe foi, no entanto, negada a comercialização de mais esse benefício, resolveu adiar por mais cinco meses o descanso que a plenitude do seu ser exigia, já há bastante tempo. Enquanto isso, tentou, sem sucesso, mover uma ação trabalhista contra o Estado, exigindo pagamento de insalubridade na função que desempenhava.
Procurou insuflar alguns colegas de serviço à greve, mas todos, sem exceção, com medo de perderem os seus empregos, preferiram continuar engolindo pequenos sapos como atraso no pagamento do salário, abuso de poder da parte do novo encarregado da repartição e o não repasse dos tickets-refeição, legalmente incorporados à seus direitos, conforme emenda do deputado Anacleto Braz, publicada no Diário Oficial do mês anterior.
Mesmo infrutífera, a sua mobilização e empenho pela causa trabalhista o levou à índices alarmantes de stress. Isso se refletiu em sua relação com o público em geral. Respondia perguntas banais com impropérios, sem considerar por um instante sequer a sua condição de homem público, comprometido com as questões relativas ao seu ambiente de trabalho, conforme reza o artigo 177 do Estatuto do Servidor.
Amparado pela estabilidade adquirida com o término do Estágio Probatório o servidor, sutilmente, passa a ignorar certas incumbências e acomoda-se num clima de marasmo e indiferença às questões do seu ambiente de trabalho, conforme especulações filosóficas do escritor paraíbano Artur Severino Dantas, autor do livro "Funcionalismo Vicioso".
Quando pessoas de tal estirpe alcançam o que para elas significa o objeto máximo em suas vidas, ou seja, um salário mensal, não almejam mais nada em termos profissionais, sentando-se em seus apartamentos, com as bocas escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte lhes chegar.
Artur Severino Dantas (1960-1998)
Trecho de "Stress, o conto" da minha primeira obra publicada, a coletânea "Utopias Papareias"(2007).


