sábado, 21 de março de 2026

Funcionalismo Vicioso

 


         (...) Após muito relutar e fazer contas na ponta do lápis, Nivaldo finalmente resolveu solicitar a sua Licença-Prêmio, na esperança de usufruí-la em gozo parcial, recebendo o restante em moeda corrente. Como lhe foi, no entanto, negada a comercialização de mais esse benefício, resolveu adiar por mais cinco meses o descanso que a plenitude do seu ser exigia, já há bastante tempo. Enquanto isso, tentou, sem sucesso, mover uma ação trabalhista contra o Estado, exigindo pagamento de insalubridade na função que desempenhava.

Procurou insuflar alguns colegas de serviço à greve, mas todos, sem exceção, com medo de perderem os seus empregos, preferiram continuar engolindo pequenos sapos como atraso no pagamento do salário, abuso de poder da parte do novo encarregado da repartição e o não repasse dos tickets-refeição, legalmente incorporados à seus direitos, conforme emenda do deputado Anacleto Braz, publicada no Diário Oficial do mês anterior.

          Mesmo infrutífera, a sua mobilização e empenho pela causa trabalhista o levou à índices alarmantes de stress. Isso se refletiu em sua relação com o público em geral. Respondia perguntas banais com impropérios, sem considerar por um instante sequer a sua condição de homem público, comprometido com as questões relativas ao seu ambiente de trabalho, conforme reza o artigo 177 do Estatuto do Servidor.

          Amparado pela estabilidade adquirida com o término do Estágio Probatório o servidor, sutilmente, passa a ignorar certas incumbências e acomoda-se num clima de marasmo e indiferença às questões do seu ambiente de trabalho, conforme especulações filosóficas do escritor paraíbano Artur Severino Dantas, autor do livro "Funcionalismo Vicioso".


          Quando pessoas de tal estirpe alcançam o que para elas significa o objeto máximo em suas vidas, ou seja, um salário mensal, não almejam mais nada em termos profissionais, sentando-se em seus apartamentos, com as bocas escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte lhes chegar.

             

                                                                  Artur Severino Dantas (1960-1998)    



Trecho de "Stress, o conto" da minha primeira obra publicada, a coletânea "Utopias Papareias"(2007).              

 

 

10 comentários:

Graça Pires disse...

O conto já nos revela que o seu livro é muito bom. Que ele faça um bom percurso junto dos seus leitores.
Parabéns!
Um beijo.

Juvenal Nunes disse...

Os funcionários, por vezes, não são suficientemente estimulados para terem uma postura mais empenhada e produtiva.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes

J.P. Alexander disse...

Triste pero cierto. Te mando un beso.

Fá menor disse...

Os abusos de autoridade são sempre actuais.

Boa semana!

Linda's Relaxing Lair disse...

Thank youi for sharing about this.

Tais Luso de Carvalho disse...

Olá, Cesar, adorei tua postagem, tudo verdade!
E gostei muito da parte...
"sentando-se em seus apartamentos, com as bocas escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte lhes chegar."
Sabes que eu conheço gente assim? Dá dó...mas é a pura verdade, não lutam por nada mais.
Uma feliz semana, e com postagens excelentes!
Abraços.

Ana Lucia Nicolau disse...

Olá Cesar, que excelente texto!!! realmente precisamos refletir sobre tudo isso... abraços!

Teresa Isabel SIlva disse...

Uma verdadeira lição!

Bjxxx,
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Luiz Gomes disse...

Boa tarde meu querido amigo Cesar. Obrigado pela visita e comentário, aproveito para desejar, uma excelente tarde de domingo, bom início de semana. Grande abraço do seu amigo carioca.

Teresa Isabel SIlva disse...

Passando para desejar uma boa semana!

Bjxxx,
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