quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Delicada flor da amizade


 

          Porto Alegre, 7 de dezembro de 2000


   Espero que esta te encontre gozando da mais perfeita saúde e , mesmo um tanto quebrantada pela tua frieza em relação a mim, não deixei de querer a tua felicidade, acredite. Não pense que nada me custa aceitar essa nova realidade que se desenha tão tristonha ante o horizonte. Pelo contrário, ela muito me corrói por dentro. Talvez leve um longo tempo até que eu me esqueça completamente de ti, pois muitas coisas divertidas e gratificantes fizemos nós juntas. O passado é agora, no entanto, tudo o que temos pra nos orgulharmos, já que apenas escombros restaram daquilo que um dia foi uma amizade.

   Esta é a terceira carta que escrevo sem obter qualquer resposta e percebo estarem sendo infrutíferas as minhas tentativas de reaproximação. Se ao menos eu soubesse o real motivo que te fez erguer esse muro de concreto frio entre nós, poderia argumentar ainda mais algumas linhas pra tentar reverter a situação. Torna-se inútil, porém, lutar contra um fantasma invisível que nos ataca sem que eu o enxergue. Tudo o que sei é que ultimamente andas evitando a minha companhia e nem as mensagens no celular me respondes mais.

   Saiba que não insistirei, pois estou fraca, exaurida e sem forças pra escrever algo que talvez esteja sendo transcrito em vão. Lamento que acabe assim, sem quê nem porquê, a nossa ligação construída ao longo de muitos anos. Sempre gostei de receber cartas e executar todo aquele ritual que envolve o recebimento e abertura do envelope lacrado, entregue pelo carteiro. Eras, até então, a única amiga que me proporcionava  esse prazer, mantendo comigo uma regular correspondência.

   Se vou conseguir substituí-la, isso é uma incógnita cruel. Faço desta missiva a minha derradeira saudação e grito último de adeus. Seja feliz nesse teu novo mundo em que, decididamente , não consigo mais penetrar.


  "Tenra e delicada é a flor da amizade,

mas se o verme da desconfiança a

morde, fecha doridamente os olhos

e fenece."


          Quando leu essa citação final, que encerrava a tão melancólica carta em suas mãos, Ângela percebeu que magoara a amiga de tantos anos. Sorriu um sorriso estranho, mórbido, expressando nele toda a confusão e desordem mental que vivia naquele instante. Aquela folha de papel era agora um espelho onde se refletia um perfil que ela não havia ainda reparado em si própria. Essa autocontemplação causou-lhe uma imediata crise de consciência. A imagem que viu fez-lhe enrubescer e mentalmente começou a reconstituir os seus últimos encontros com Alice. Sem muito esforço, percebeu que havia de fato enxotado a amiga pra outras pastagens, tratando-a com bastante frieza. A antiga intimidade entre elas tinha acabado há algum tempo e isso lhe doeu naquela hora.

                                                     (...)


Trecho do conto "O carteiro", do meu livro-coletânea "O Grande Pajé"- 2011


                                                

2 comentários:

Aleatoriamente disse...

Cesar ,

que texto intenso e profundo!
A dor do afastamento, quando não há explicações, é talvez uma das mais silenciosas e corrosivas. Sua escrita conduz por esse território delicado da perda de uma amizade, onde restam apenas perguntas, memórias e um amor que ainda deseja o bem do outro.

A carta, com todo o seu ritual e delicadeza, amplia ainda mais a melancolia e a verdade do sentimento e o desfecho, com o despertar de consciência de Ângela, é forte, quase um espelho que também nos convoca à reflexão sobre nossas próprias ausências e friezas.

Parabéns pela sensibilidade e profundidade.

Com admiração,
Fernanda

J.P. Alexander disse...

La amistad, es un regalo. Te mando un beso.