Porto Alegre, 7 de dezembro de 2000
Espero que esta te encontre gozando da mais perfeita saúde e , mesmo um tanto quebrantada pela tua frieza em relação a mim, não deixei de querer a tua felicidade, acredite. Não pense que nada me custa aceitar essa nova realidade que se desenha tão tristonha ante o horizonte. Pelo contrário, ela muito me corrói por dentro. Talvez leve um longo tempo até que eu me esqueça completamente de ti, pois muitas coisas divertidas e gratificantes fizemos nós juntas. O passado é agora, no entanto, tudo o que temos pra nos orgulharmos, já que apenas escombros restaram daquilo que um dia foi uma amizade.
Esta é a terceira carta que escrevo sem obter qualquer resposta e percebo estarem sendo infrutíferas as minhas tentativas de reaproximação. Se ao menos eu soubesse o real motivo que te fez erguer esse muro de concreto frio entre nós, poderia argumentar ainda mais algumas linhas pra tentar reverter a situação. Torna-se inútil, porém, lutar contra um fantasma invisível que nos ataca sem que eu o enxergue. Tudo o que sei é que ultimamente andas evitando a minha companhia e nem as mensagens no celular me respondes mais.
Saiba que não insistirei, pois estou fraca, exaurida e sem forças pra escrever algo que talvez esteja sendo transcrito em vão. Lamento que acabe assim, sem quê nem porquê, a nossa ligação construída ao longo de muitos anos. Sempre gostei de receber cartas e executar todo aquele ritual que envolve o recebimento e abertura do envelope lacrado, entregue pelo carteiro. Eras, até então, a única amiga que me proporcionava esse prazer, mantendo comigo uma regular correspondência.
Se vou conseguir substituí-la, isso é uma incógnita cruel. Faço desta missiva a minha derradeira saudação e grito último de adeus. Seja feliz nesse teu novo mundo em que, decididamente , não consigo mais penetrar.
"Tenra e delicada é a flor da amizade,
mas se o verme da desconfiança a
morde, fecha doridamente os olhos
e fenece."
Quando leu essa citação final, que encerrava a tão melancólica carta em suas mãos, Ângela percebeu que magoara a amiga de tantos anos. Sorriu um sorriso estranho, mórbido, expressando nele toda a confusão e desordem mental que vivia naquele instante. Aquela folha de papel era agora um espelho onde se refletia um perfil que ela não havia ainda reparado em si própria. Essa autocontemplação causou-lhe uma imediata crise de consciência. A imagem que viu fez-lhe enrubescer e mentalmente começou a reconstituir os seus últimos encontros com Alice. Sem muito esforço, percebeu que havia de fato enxotado a amiga pra outras pastagens, tratando-a com bastante frieza. A antiga intimidade entre elas tinha acabado há algum tempo e isso lhe doeu naquela hora.
(...)
Trecho do conto "O carteiro", do meu livro-coletânea "O Grande Pajé"- 2011

10 comentários:
Cesar ,
que texto intenso e profundo!
A dor do afastamento, quando não há explicações, é talvez uma das mais silenciosas e corrosivas. Sua escrita conduz por esse território delicado da perda de uma amizade, onde restam apenas perguntas, memórias e um amor que ainda deseja o bem do outro.
A carta, com todo o seu ritual e delicadeza, amplia ainda mais a melancolia e a verdade do sentimento e o desfecho, com o despertar de consciência de Ângela, é forte, quase um espelho que também nos convoca à reflexão sobre nossas próprias ausências e friezas.
Parabéns pela sensibilidade e profundidade.
Com admiração,
Fernanda
La amistad, es un regalo. Te mando un beso.
E assim se perde o contacto com amizades. Assim me aconteceu também há já muitos anos, amizades a que perdi o rasto. Mas não tive a habilidade de uma citação final assim.
Beijinhos.
Adorei a intensidade do texto! Os meus parabéns!
Bjxxx,
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Boa tarde meu querido amigo Cesar. infelizmente perdi contato com muitos amigos da época de infância. Mais tenho uma grande amiga, que eu conheci quando eu trabalhei no serviço de linhas de ônibus da cidade do Rio de Janeiro. Acho que já temos quase 30 anos de amizade. Sabemos um o dia do aniversário do outro. Amizades assim hoje em dia são muito raras. Grande abraço carioca.
Quanta beleza e profundidade vi por aqui,Cesar!Adorei! abraços, tudo de bom,chica
Interessante a construção do seu livro. Que tenha muito sucesso.
Um ano cheio de coisas agradáveis.
Um beijo.
É pena, mas é verdade, nem todas as amizades são eternas.
O desenlace fere sempre mais a uns que a outros.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Olá, Cesar, parabéns pelo conto que está excelente.
Continue sempre escrevendo, assim, tão bem!
Grande abraço, um feliz 2026!
Lendo esse trecho, sinto como se cada palavra tivesse sido escrita com a ponta do coração. Há uma dor contida, elegante, sem gritos — e talvez por isso mesmo tão profunda. Essa carta carrega uma maturidade emocional rara: não acusa, não humilha, não implora… apenas revela, com dignidade, o quanto o silêncio do outro pode ferir.
O que mais me toca é a honestidade do afeto que persiste mesmo diante da frieza. Há uma generosidade quase dolorosa em desejar a felicidade de quem nos exclui. E o ritual das cartas, tão bem descrito, transforma a amizade em algo quase sagrado, um elo que o tempo e a indiferença não conseguem apagar facilmente.
A virada para a consciência de Ângela é sutil e poderosa. Esse espelho que a carta se torna é literatura de verdade: quando o texto faz o personagem (e o leitor) se enxergar sem defesas. Tudo é muito humano, muito real, muito delicado.
É um texto que fenece devagar, como a flor da citação final — e talvez seja exatamente isso que o torna tão bonito.
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