segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Amigo Bicho- Parte I

   


   É com desespero que anuncio o desaparecimento                             

                                    de minha cachorra, um pincher  de  pequeno  porte.

                                    Ela é marrom  clara, bem  magrinha, pesa  cerca de

                                   1,5 kg.  Tem  orelhas  pontudinhas, rabinho  curto,

                                    três  anos  de  idade. Ela  se  perdeu  na  praia  de

                                    Ipanema no dia 16  de fevereiro, terça-feira de

                                    Carnaval  por  volta  das 11:00 hs.  Estamos

                                    procurando todos os dias. Temos uma criança

                                    que sofre muito com o desaparecimento. Fizemos

                                    buscas na praia  e  continuamos  procurando. Se

                                    alguma família  estiver  com  a  cachorrinha, por

                                    favor  devolva  nosso  bichinho. Desde  já,

                                    agradecemos qualquer informação.

                                   

 

                                                              Gisele Abreu Machado, Ipanema
                                                                   (Diário Gaúcho, 23/02/2010)


      

          Em seu programa matutino na Rádio 104 FM, nos dias 22 e 23 de fevereiro, o comunicador J. Crow também noticiou o extravio daquele pequeno animal de estimação. Ambas as tentativas, no entanto, não     surtiram o efeito esperado, fazendo cair em depressão todos naquela casa, exceto Lígia. A ausência de Chiquita, a personalidade canina em questão, deixou um vazio inversamente proporcional ao seu tamanho. Era uma cadelinha bastante amorosa, que costumava roçar-se nas pernas dos donos até receber carinho. Deitava-se de barriga pra cima e com olhos suplicantes induzia-os a alisar-lhe com os pés, desde o ventre até o pescoço. Uma vez atendida, protestava a cada interrupção da carícia, pondo-se de pé e arranhando-lhes com delicadeza as pernas. Era alegre ao extremo e sua alegria contagiava-os tanto que eram raras as brigas e discussões naquele lar. O seu rabinho balançava em movimentos ultra-rápidos toda vez que ela simplesmente ouvia a voz de alguém, como se estivesse de fato entendendo cada palavra pronunciada. Buscava os olhares daquelas pessoas da mesma forma que a margarida branca dos campos retorce-se para aproveitar o sol. Lembravam duas minúsculas e brilhantes pedras de quartzo aqueles olhos ternos, meigos e vívidos. Brincava com qualquer objeto colocado ao seu alcance, desde chinelos e pantufas no chão até novelos de lã, jornais e garrafas pet largadas em cima de cadeiras ou mesas. Essa faceta sapeca despertou a antipatia de um único membro da família, que não tolerava, em hipótese alguma, ver a casa desarrumada.

            Lígia fulminava a cachorrinha com olhares de rancor toda vez que encontrava o pátio de pernas para o ar. Vassoura caída, havaianas desaparecidas, meias rasgadas, tudo isso irritava-a com uma profundidade espantosa. Fazia uma tempestade em copo d’água, estressando-se facilmente enquanto os outros reagiam com bom humor diante das peripécias do bichinho. Gisele, sua irmã, no auge do desespero e inconformada com o sumiço de Chiquita, suspeitou dela como a possível mentora intelectual  do desaparecimento, reparando que parecia tranqüila demais para aquele momento tão desolador.

            Tal desconfiança abalou sensivelmente a relação entre as duas, que se tornaram praticamente estranhas e não mais confidenciavam segredos uma para a outra. Nem mesmo as refeições faziam juntas, parecendo a cada dia mais distantes. De fato, encaravam de maneiras diferentes a perda de um mero animalzinho de estimação.

            “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, e as lágrimas de saudade derramadas por Gisele e a filha Páti acabaram abrindo uma brecha nas sólidas paredes do coração de Lígia. Por essa brecha penetraram lembranças que a fizeram refletir. Após mergulhar no passado e posteriormente comparar o ontem com o hoje, desejou, acredite, ver a casa novamente desarrumada. Lamentou em seu íntimo não ter percebido antes o quanto a cadelinha fazia falta naquele lar. A possibilidade de nunca mais ouvir aqueles latidos finos e sentir o arranhar daquelas frágeis patinhas em busca de carinho, assustou-a. Passou então a acompanhar sua irmã, o cunhado e a sobrinha nas buscas intermináveis que faziam diariamente pelos quatro cantos do bairro Ipanema. Em casa, á noite, levantava abruptamente da cama toda vez que ouvia lá fora latidas semelhantes à da pequenina. Corria afoita até a janela da frente e abria as duas folhas de madeira com pressa, recebendo em cheio no rosto a aragem fria da madrugada. Voltava então, frustrada, ao seu quente e aconchegante leito e de tanto repetir esse vai-vem, acabou contraindo um resfriado que lhe fez arder em febre durante uma semana inteira.

            Tão logo se recuperou, prosseguiu com determinação redobrada a sua tarefa investigativa. Foi incansável na procura, movida pela saudade e o arrependimento que aumentavam a cada dia. Chegava do trabalho por volta das 18:30 e sem pausa para um banho ou descanso lançava-se a novas buscas, guiando lentamente o seu Ford KA azul marinho. Percorreu Pet Shops, escolas, praças e até botecos na esperança de obter pistas que levassem-na a achar aquela agulha no palheiro.

 

       (Continua no próximo post)

                                              


Fonte: O conto "Amigo Bicho", apesar de fazer parte da longínqua coletânea minha,  "O Grande Pajé" (2011) é ainda inédito por aqui.