Na data em que completaram exatos dois meses do desaparecimento, ao final da tarde, quando voltava pra casa visivelmente transtornada, Lígia entrou em uma lancheria para tomar água mineral com gás. Fazia um calor quase insuportável em pleno outono gaúcho e a temperatura elevada parecia derreter-lhe o ânimo. Sentou-se na única cadeira vazia do balcão e por um instante arrependeu-se de entrar num lugar tão barulhento e cheio de gente. Como estava cansada demais e sem pique para procurar um outro bar, quedou-se ali mesmo, permanecendo com um olhar perdido em direção a um quadro na parede. A pintura artística reproduzia com fidelidade, em todos os seus detalhes, uma paisagem à beira-mar. No som MP3 do estabelecimento tocava, em volume razoável, um sucesso do cantor e compositor carioca Seu Jorge. O swing da música lhe reanimou o semblante e a letra, que dizia coisas como “É importante manter a paz interior, e não deixar morrer a chama do amor...”, lhe trouxe de volta o equilíbrio e disposição para seguir adiante. Ao seu lado, durante todo o tempo naquele balcão e sem tirar os olhos dela, um rapaz aproveitou o promissor momento para paquerá-la. Apresentou-se como um fã do Seu Jorge e disse que tinha todos os Cd’s dele em casa. Depois, acrescentou uma lista de artistas e músicos da sua preferência, o que atraiu o interesse de Ligia, fazendo-a finalmente reparar nele.
A começar pelos gostos musicais, descobriram várias afinidades entre si e os assuntos pareciam não ter fim. As horas passaram voando e, apenas quando perceberam que o balcão e as mesas estavam já praticamente vazios, deram-se conta que a lancheria se preparava para encerrar o expediente. Mauricio morava num apartamento a duas quadras dali e convidou-a para uma visita de cortesia. Ela recusou o convite, pois temia que as coisas acabassem rolando rápido demais entre os dois, prometendo, contudo, que se encontrariam novamente. Ele então, simulando um certo desapontamento na voz, disse-lhe como frase de despedida:
-- Então ta... Não vais ficar conhecendo a minha ratinha...
-- Ratinha? Não acredito que tu cria uma rata em casa...
O rapaz explicou então que recentemente tinha achado na praia uma minúscula cadelinha com laço rosa na coleira branca. Ficou com pena de vê-la ali com frio, tremendo, toda assustada com o barulho dos carros na avenida, e levou-a sem qualquer dificuldade, no colo, pra casa. Lígia, eufórica, mudou de idéia e quis acompanhá-lo para confirmar o que a sua intuição parecia querer dizer-lhe.
A noite estava com uma temperatura agradável e convidativa para passeios. Levaram menos de dez minutos até chegarem ao prédio 1018 da Avenida Tramandaí, onde Mauricio morava no 5º andar. No elevador ela mentalmente perguntava a si própria se o destino haveria mesmo de recompensá-la duplamente ao final daquele dia de buscas. Acharia a desaparecida e ainda, de quebra, um novo amor?
A sorte realmente parecia estar ao seu lado e naquela mesma noite Chiquita retornou com ela para os braços de Gisele, filha e marido. Foi um grande estardalhaço entre todos quando a miniatura de quatro patas reapareceu, trazida por sua ex-opositora. Páti, a guriazinha que chorara praticamente todos os dias com saudade da cachorrinha, aninhou-a em seus braços e beijou-a com ternura, reação esta tão espontânea e pura que emocionaria até o mais insensível dos mortais. “Cadê a minha pikurruxa... Cadê a coisinha mimosa da mamãe...”, repetia sem cessar a não menos enternecida Gisele. A pequena Chiquita também, por sua vez, dava claras demonstrações de euforia. Estava um pouco mais magra, pois apesar dos cuidados de Mauricio, perdera o apetite com saudades da família. Emitiu um grunhido diferente, semelhante a um grito de desabafo. Em seguida, correu como uma louca por toda a casa e suas patinhas velozes faziam-na praticamente flutuar sobre o piso. Quando cansou, começou a latir, olhando para um e para outro, faceira com aquele reencontro. Gisele pegou-a no colo e acariciou as suas orelinhas pontudas, o que a fez fechar os olhos de tanto contentamento. Depois, deslizou os dedos, desde a cabeça até a ponta do seu focinho, deixando-a paralisada de prazer. Abraçou-a de encontro ao rosto, recebendo em troca varias lambidas que acabaram-lhe fazendo cócegas.
Já era tarde da noite, mas mesmo assim todos sentiram fome, já que nas últimas semanas ninguém conseguira comer regularmente. A tristeza abatera-se naquela casa de tal forma que até a comida perdera o interesse para eles. Ali, entretanto, no auge daquele final feliz, os seus estômagos roncaram reclamando em coro, fazendo Gisele deslocar-se às pressas até o galinheiro. Quando lá chegou foi recebida por uma franga de penas vermelhas, parada na entrada da portinhola de tela. Como em outras tantas vezes, estava ali para catar no chão os generosos punhados de milho que a moça jogava para engordá-la. A ave nutria pela mãe de Páti uma afeição toda especial e sentia-se protegida na sua presença. Nos dias de frio buscava o seu calor humano, tal como o pinto refugia-se na quentura da mãe. Recebia, algumas vezes, carinho em seu pescoço e em tais momentos arrepiava-se do bico até o rabo. Tinha penas brilhantes e macias, o que lhe dava um saudável aspecto, deixando-a diferente das demais galinhas. Tranqüilizava-se quando escutava música e quanto mais identificava-se com a melodia mais ela colocava ovos.
Gisele buscou então o seu pescocinho, só que desta vez com intenções diferentes. Agarrou-o com as duas mãos, ergueu o roliço corpinho dela no ar e girou-o varias vezes, com movimentos circulares. O osso do pescoço não suportou o esforço por muito tempo e fez “TRACK”, fraturando-se ao meio. O bicho sentiu uma dor indescritível e ainda olhou uma última vez, confusa, para a dona da Chiquita.
Nota do Autor: Conforme os leitores mais observadores e formais certamente perceberam, tive problemas na configuração do texto, copiado em World, de um arquivo antigo meu. Peço-lhes, pois desculpas, já que me faltou, nessa madrugada, paciência pra encontrar uma solução estética que deixasse o tipo e o tamanho da fonte uniformes.

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