quarta-feira, 1 de julho de 2026

A ganja e o Humberto

 

Cauã

(...) O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo(Cauã) bem longe dali . O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servido em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir  o seu  velho  Passat   cinza  em   alta  velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.

            Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido (ganja) exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada. Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera. (...)


Enxerto do conto "O homem da Ganja" do meu livro "O Grande Pajé" (2011)



10 comentários:

chica disse...

Sempre nos proporcionas ótimos momentos de leitura!
Gostei desse trecho do teu livro!
abraços, lindo dia, chica

Catolico disse...

Deus caritas est!

Luiz Gomes disse...

Boa noite meu querido amigo Cesar. Obrigado pela visita e seu comentário, concordo com você totalmente. Uma excelente noite de quinta-feira e um grande abraço do seu amigo carioca.

MELODY JACOB disse...

The sudden shift from his chaotic, violent temper to the absolute stillness of the police car arriving to find nothing but guitar chords and the scent of the pitanga tree is incredibly well-written.

Jornalista Douglas Melo disse...

A literatura nos coloca entre o possível e o lúdico, e você transmite isso com maestria, meu amigo César.
Um abraço!

Catolico disse...

Obrigado! Deus caritas est!

❦ Leoa ❦ disse...

Que narrativa intensa e muito bem construída. A forma como o personagem Humberto vai sendo apresentado, aos poucos, revela não apenas um homem embrutecido pelos vícios e pela violência, mas também um retrato social profundamente humano e inquietante. Gostei especialmente dessa dualidade entre o cotidiano simples da granja e a agressividade latente que explode nos momentos mais inesperados.

O trecho final ficou belíssimo. A chegada da polícia contrastando com os acordes do violão, o perfume da pitangueira e a brisa anunciando a primavera criam uma atmosfera quase cinematográfica. Há uma delicadeza poética muito forte nesse encerramento, como se a natureza silenciosamente desmentisse toda a tensão construída antes.

Também achei muito interessante o simbolismo da “ganja” funcionando quase como pretexto para revelar preconceitos, perseguições e hipocrisias. O texto prende justamente porque mistura crueza, crítica social e lirismo sem perder a fluidez narrativa.

Excelente enxerto. Dá vontade de mergulhar no conto completo e conhecer mais profundamente esse universo de “O Grande Pajé”.

Fá menor disse...

Bom momento de leitura.
Grata.
Boa semana!
Bjs.

Teresa Isabel SIlva disse...

Confesso que não conhecia o livro!

Bjxxx,
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Luiz Gomes disse...

Boa noite meu querido amigo Cesar. Sabemos que muitos países da Europa, cometeram muitas atrocidades com os povos originários ou indígenas e negros. Sou carioca da gema, mais minha bisavó materna era indígena. Uma excelente noite de sexta-feira, meu querido amigo poeta gaúcho e um grande abraço do seu amigo carioca.