domingo, 4 de setembro de 2016

Resenha- Memórias de Geraldo do Cavaco


          Música e literatura, é fato, andam de mãos dadas no Brasil, configurando-se esta, uma pareceria que se confunde à formação de nossa identidade peculiar, como nação. Autores clássicos como Machado de Assis, Lima Barreto e Aloísio de Azevedo já flertavam com as partituras, nem que fosse para retratarem superficialmente o que sentiam ou pensavam seres tão atípicos quanto os músicos. Com o passar dos séculos, cronistas e críticos musicais debruçaram-se sobre esse inesgotável tema, produzindo impecáveis obras que retrataram e esmiuçaram a Música Popular Brasileira, catalogando estilos, períodos e tendências. É possível, graças a estes, estudarmos com ampla abrangência teórica, o que de fato aconteceu, quem foi e fez determinado compositor ou ainda, onde germinou um específico gênero nacional.
            De uns tempos pra cá, segundo percebo, a hegemonia dos estudiosos e pesquisadores começou a ser ameaçada ou, na melhor das hipóteses, compartilhada com a produção literária dos próprios músicos, que resolveram, eles próprios, contarem as suas próprias tramas. Não citarei nomes para evitar ser tendencioso, mas são vários os sambistas, roqueiros, rapers e repentistas que resolveram investir em suas idéias e relatos escritos. É a música vista pelo lado de dentro, definida por quem a faz. Sai ganhando, principalmente, o admirador sincero dessa arte, seja ele hábil ou não em algum instrumento.
          Inserindo-me nesse contexto, através da presente resenha, trago à tona uma obra que, recentemente lançada, mergulha nas raízes do samba produzido no sul do Brasil, mais precisamente na capital dos gaúchos, Porto Alegre. Em seu livro “Memórias”, Geraldo do Cavaco, nome respeitado pela “velha guarda” do samba, conta o que viu, ouviu e sentiu em quase seis décadas de batucadas, a começar pela primeira experiência marcante com a música:
“Na vila, me apareceu um cara tocando bandolim, de noite e sem luz. Todos nós corremos pra perto daquele som, no escuro. Achávamos bonito, lindo, aquilo mexia comigo. O cara era chamado de canhoto e era bom no bandolim. Uma vez por semana o Canhoto aparecia com seu bandolim e mais um pandeiro. Ficávamos curtindo aquele som.”

                Não é exagero dizer que as recordações de Geraldo são as próprias recordações do samba porto-alegrense do final da década de sessenta em diante, com grande ênfase na fundação da agremiação carnavalesca Unidos da Restinga (que mais tarde tornaria-se na premiada e reconhecida Estado Maior da Restinga), na qual teve ativa participação. O autor é gente do povo, simples, sem avançados recursos lingüístico-intelecutais, mas que transmite com clareza as suas impressões de vida no vilarejo:
“Mas como, se lá era varzeio, não tinha esgoto e o terreno era plano e enchia d’água da chuva? Aí é que aparece a gana de um povo. Eles se unem e se ajudam e com alguns conhecimentos eles vão cavando ali, vão fazendo cisternas, pontes de madeiras, derrubando árvores, vão abrindo caminhos. Os pobres e os escravos conseguiram viver e sobreviver em lugares nunca habitados por um ser humano, a não ser os índios. Formaram vilas e foram vivendo bem. Acostumaram-se com a diversidade do lugar.”

              A leitura flui agradável e encontrará eco, principalmente, no coração dos sambistas e da gente batalhadora das favelas e periferias, que sabem o que é viver com pouco, precariamente, esquecida das políticas governamentais. De fato, como não poderia deixar de ser, é grande a identificação do livro com a vida no morro, onde mocinhos e bandidos apenas mudam de sotaque,  mas desempenham basicamente os mesmíssimos papéis em qualquer aglomerado urbano do país. Períodos históricos como a segunda guerra mundial e a ditadura militar encontram-se contempladas nessa narrativa que apresenta o ponto de vista não dos historiadores, mas do povo humilde que sentiu os efeitos desses conflitos em sua já sofrida rotina.
            É com grande mágoa que Geraldo relata o episódio em que, numa manobra, segundo ele, típica do regime militar, ditatorial, o presidente da primeira Escola de Samba do bairro, a Unidos da Restinga, é afastado de sua posição por funcionários da Prefeitura Municipal. Em seu lugar foi colocado outro, com o aval e confiança dos donos do poder. Isso aconteceu, para espanto e surpresa do músico, logo após o primeiro título conquistado, ainda na divisão  de acesso ao grupo principal. Essa decepção, aliás, volta e meia, em vários momentos, vêm pincelar as lembranças deste folião que, em dupla com o seu cavaco, muito contribuiu para a afirmação dessa comunidade entre as grandes do carnaval local.
“Passamos pro primeiro grupo, mas ficamos sem glória e ficou difícil para nos acostumar com os novos senhores, eles faziam questão de apresentar os novos contratados e vinham todos para o meio da quadra a rodear e iluminar os novos contratados. Nós, o povo, éramos os pobres de Paris, sem direito a nada.”

          Crítica, irreverência, paixão, decepção e religiosidade são os ingredientes que prendem a atenção do leitor, cativado pela espontaneidade do autor, que se expressa objetivamente, revelando-se um hábil cronista da realidade social em que vive. Pra quem ainda acredita que na favela só mora assaltante e traficante, Geraldo revela, sem acanhamento, toda a sua integridade, mesmo em meio a tentadoras oportunidades de lucro fácil. Conviver com o crime, não necessariamente tornará alguém um criminoso e isso comprova-se apenas com exemplos práticos como esse, proporcionado por um escritor ambientado na periferia de uma grande cidade. O seu testemunho de vida convida-nos, em nome da literatura, a despir-nos de preconceitos sociais que carregamos sem sabermos de fato o que é a pobreza.
           O instrumentista mostra-nos, no entanto, que nem só de miséria, privações e angústias vivem os favelados. Romance, humor e, principalmente, a música, são os responsáveis por atenuarem os efeitos degradantes da má distribuição de renda e disparidade entre as classes.
“Uma vez eu escrevi pra ela coisas, versos, poesia: Quisera não ter te conhecido, pois isto me tornou um prisioneiro em minha solidão... Meus pensamentos voam em tua direção... Eu me sentia, até te conhecer, livre...”

          A trilha sonora que embala, do início ao fim, essa autobiografia do escritor e músico porto-alegrense Geraldo da Neves é perceptivelmente a do samba. Samba bom, das antigas, com sentimento e autenticidade. Cheio de entusiasmo e nostalgia o autor relembra o auge e declínio dos principais conjuntos em que tocou, alguns deles com reconhecido prestígio na capital gaúcha como Candeias, Velha Guarda do Samba Puro e Banda Porto.
           Nitidamente, temos a sensação de estarmos conversando informalmente com um músico, já que a sua narrativa desenvolve-se inteiramente na primeira pessoa, fazendo-nos adentrar em fatos marcantes da sua vida pessoal. À medida que, cronologicamente, a história encaminha-se para o final, sentimo-nos íntimos e confidentes desse sambista remanescente do seu tempo. Álcool, brigas, contravenções, pitadas de sexo, misticismo, fé, tudo isso e mais aquilo que faz parte da vida de tantos pais de família que com suor batalham o pão de cada dia, seja sentando tijolo, capinando pátio, dirigindo ônibus ou pintando paredes. Considero-me um privilegiado por ter encontrado, no bairro que adotei em meu coração, um exemplo de artista tão eclético, (já ia esquecendo, Geraldo também pinta quadros nas horas vagas de aposentado) que se dispôs a compartilhar com as gerações posteriores, ingredientes que moldam o seu pensamento e ditaram á ele um modelo de conduta.
          Trata-se, enfim, de uma obra que se juntará, certamente, aos manuais e tratados que definem, se é que isso é possível, o samba em palavras. Já rimavam Vadico e Noel Rosa: “Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio.” Podemos, sim, esmiuçá-lo em versos, crônicas ou exemplos de vida como esse, que raramente oferecem-se assim, sem reservas. Os estudantes sinceros da Música Popular Brasileira agradecem o que está lá no sumário:
“ O motivo porque passei a escrever sobre minha existência foi pra relatar as lembranças de minha vida aos amigos, coisas boas e ruins que vivenciei ao longo dos anos e que gostaria de deixar registrado.”




                                                Cesar


Para adquirir: cesinhapoa@gmail.com


                                     


 





terça-feira, 16 de agosto de 2016

Soneto da noite fria


        Noite fria adentro, varando pelo teclado
Procuro a palavra certa, quero escrever um poema;
O que sinto é um eterno dilema
Meus dedos se arrastam no punho cerrado

Grande é o compromisso no que dizer
Porque sempre opõem-se o certo e o errado?!!!
E na alcunha eterna deste grande Advogado
Os preceitos humanos revelam todo o seu poder

Sob o próprio ser, nem os poetas dominam
Pois quem escreveria agora este soneto
Os que pranteiam, dormem, ou os que dominam?

Ao certo, somos todos como um grande e lindo dia,
que surge ensolarado, vívido, largo cenário paradisíaco
E se opõe, dia após dia, numa inevitável... noite fria.


                                             Paulo Rogério C Vargas
            
    

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O samba de breque




Há um monte de variações que podemos incluir na árvore principal do samba. Uma destas é o samba de breque, que foi imortalizado pelo cantor e compositor Moreira da Silva, o Morangueira. Ele virou a marca registrada daquele tipo de samba que dá umas paradinhas no andamento normal e introduz umas frases no vazio, nos intervalos dos versos...

"Na Subida do Morro" é um samba de breque autêntico, de autoria de Geraldo Pereira, Ribeiro Cunha e do próprio Moreira da Silva.

Para gente falar das origens, de como surgiu este tipo de samba, é preciso pesquisar muito e, ainda assim, citar algumas possíveis "verdades", sem ser categórico. O crítico musical Tárik de Souza, por exemplo, diz que o samba de breque é uma variante do picote rítmico do samba-choro. O que dá pra dizer é que a gente já encontra estas "paradas" no meio do samba até mesmo em Sinhô, na gravação de "Cansei", por Mário Reis, em 1929.



De fato era uma parada, mas ainda não dá pra dizer que fosse aquela que seria imortalizada na voz de Moreira da Silva,  pelo menos 10 anos depois. Luiz Barbosa talvez tenha sido o verdadeiro precursor como intérprete do samba "Risoleta", de Wilson  Baptista e Haroldo Lobo. Esta gravação, de 1937 sim,  na minha opinião, inicia o estilo "samba de breque". 

Mas se o leitor me pergunta:  "que parada é essa mermão?" eu já respondo: o Samba de Breque é caracterizado por um intervalo  no acompanhamento,  acentuadamente sincopado, quando o intérprete diz alguma coisa em complemento à frase musical anterior.  Estas paradas  são chamadas breques, do inglês "break", que significa freio de carro. Os "breques" são versos  apenas falados que conferem um ar de malandragem ao samba.






Moreira da Silva foi o grande representante do samba de breque. Entrou em algumas parcerias com Geraldo Pereira, com Wilson Baptista, mas ele mesmo confessou,  em vida, que deixou uma grana das boas pra ambos em alguns sambas, sem ter composto uma linha de criação sua sequer. Comprou a parceria. Não tiro o mérito dele nem um pouco ...foi um grande artista e deu luz a este tipo de samba. Enfim, o cara perfeito pra levar o recado, já que ele era realmente frequentador das rodas de malandragem do Rio dos anos 30. 
Foi com  o samba "O Rei do Gatilho", de Miguel Gustavo, que Moreira da Silva tornou-se Kid Morangueira.



Fonte:sambabook.blogspot