sexta-feira, 18 de abril de 2025
Detalhes da Santa Ceia
domingo, 13 de abril de 2025
O Príncipe Anacoreta
Depois que Rama, auxiliado por sua ilustre videana, doou as riquezas aos bramas, tomou armas e instrumentos, a saber, a enxada e o cesto, saiu do palácio em companhia de Lacsmana e foi ver seu augusto pai. Acompanharam-no a esposa e o irmão.
Para comtemplar-lhe o andar e recrear-se, para vê-lo, as mulheres, os aldeães e os homens da cidade aglomeravam-se, subiam ao teto das casas e aos terraços dos palácios. Na estrada real, tomada pelo povo, não havia espaço vazio. Tal era o seu afeto por Rama que acorria para despedir-se dele em esplendor infinito.
Antes da vinda de Rama, com a esposa e Lacsmana, o poderoso monarca, cheio de emoção e dor, passava o tempo a gemer.
Então Sumantra, vivamente angustiado, juntando as mãos, apresentou-se diante do senhor da terra e disse-lhe:
-- Rama, que acaba de distribuir as riquezas entre os bramas, depois de ter atendido a subsistência de seus criados, acompanhado de Lacsmana, seu irmão, e de Sita, sua esposa, veio ver teus augustos pés. Recebe-o, se te apraz.
O rei, de alma pura como o ar, suspirou profundamente e em sua viva dor respondeu:
-- Sumantra, traze para cá todas as minhas esposas. Quero receber, rodeado delas, ao digno sangue de Ragu!
Aquelas damas, cujo número ascendia à metade de setecentas, encantadoras todas e ricamente ataviadas, vieram visitar o esposo, que se encontrava em companhia de Caqueí.
O monarca, vendo que se achavam todas, sem exceção de nenhuma, disse ao nobre porteiro:
-- Sumantra, traze logo meu filho à minha presença!
Quando viu Rama adiantar-se com as mãos cruzadas, o rei desceu do trono onde estava sentado, em meio às mulheres, e exclamou aflito:
-- Vem Rama, filho meu! -- e quis abraçá-lo.
Todavia, em virtude da fortíssima emoção, caiu em terra antes de poder fazê-lo. As mulheres, com seus gritos, alvoraçaram o palácio do rei. Ao cabo de um instante, porém, voltou a si e Rama, cruzando as mãos, invadido por um mar de tristeza, assim falou:
-- Grande rei, venho dizer-lhe adeus, príncipe augusto, pois és nosso senhor! Lança-me um olhar de benevolência, que parto neste momento para moras nas selvas. Digna-te também, senhor da terra, dar as despedidas a Lacsmana e á bela videana, minha esposa, que apesar de meus rogos não desistiram de seguir-me. Despede-te, pois, dos três.
Trecho do capítulo 6 de "Ramayana" do poeta Valmiki.
domingo, 6 de abril de 2025
Valmiki - Introdução ao Ramayana
Antes de transcrever um trecho do épico indiano "Ramayana", que descreve as façanhas do Senhor Rama, encarnação divina que representou na terra o papel de um rei perfeito, faço antes um post sobre o autor da obra, o poeta Valmiki. O seu estilo de narrar cativou-me desde o início, com a sua riqueza de detalhes ao descrever emoções dos personagens, embates e paisagens paradisíacas. Acredito que grande parte dos leitores, mesmo sem motivações religiosas acaba fascinando-se pela aventura do herói e avatar Rama.
A história a seguir ilustra como o autor, outrora um abominável criminoso, tornou-se um grande devoto ao entrar em contato com um mestre espiritual auto realizado, dotado de qualidades divinas. Embora nascido em família de sacerdotes, Valmiki convivia com homens de má índole. Em consequência disso, virou um criminoso violento, tendo, inclusive, assassinado muitos sábios. Certa vez, ele se aproximou do elevado sábio Narada Muni com a intenção de matá-lo. Bastou Narada erguer a mão e dizer: "Pare!" para Valmiki, perplexo, ver- se forçado a congelar seus movimentos. Diante daquilo, Valmiki sentiu seu coração invadido por uma atitude natural de submissão a Narada. O sábio, então, aproveitou para revelar-lhe as reações que recairiam sobre ele como resultado de seus pecados abomináveis. Refugiando-se em Narada, Valmiki perguntou-lhe o que deveria fazer para eximir-se daquelas reações.
Narada disse: "Sente-se aqui e cante: Rama Rama Rama Rama Rama. Faça isso, e mais nada. Valmiki tentou acatar a ordem de Narada, porém, em virtude do frutificar das reações às suas tantas ações pecaminosas, ele não conseguiu cantar aquele nome divino. Narada sagazmente lhe disse: "Se você não é capaz de cantar 'Rama", cante 'mara', então".
O termo mara, que significa morte em sânscrito, é formado pelas mesmas sílabas que Rama, só que invertidas. A repetição de mara mara acaba soando como Rama Rama. Após orientar Valmiki daquele modo Narada foi-se embora.
Para Valmiki, foi fácil cantar mara mara, coisa que ele continuou fazendo por milhares de anos enquanto aguardava a volta de seu guru. Ele passou todo aquele tempo sem comer, defecar ou urinar. Pouco a pouco as formigas (da espécie valmika) consumiram sua carne, sangue e demais substâncias físicas, até que seu corpo foi envolvido por um formigueiro. Por fim, ele desapareceu, aponto de agora parecer feito de terra. Eventualmente, Brahma, líder dos semideuses e guru original da sucessão discipular proveniente do Deus Krishna, chegou ali . Ao ver o estado em que se encontrava o corpo de Valmiki, o Senhor Brahma borrifou- lhe água sagrada enquanto proferia mantras. Logo, o corpo de Valmiki retomou o vigor de um corpo em plena juventude. Brahma disse-lhe "Você acaba de aperfeiçoar o cantar de seu mantra, logo, já tem percepção direta do Senhor Supremo."
Posteriormente, no transcurso de sua meditação, o agora grande sábio Valmiki compôs o famoso Ramayana, a biografia autorizada do Senhor Rama, cujo nome ele vivia cantando. Escrito há centenas de milhares de anos, o Ramayana é considerado um dos Vedas (escrituras sagradas) originais e o épico espiritual mais famoso na Ìndia. Valmiki o redigiu antes mesmo de o Senhor Rama surgir nesse mundo.
Fonte: "Alma, identidade espiritual e outros segredos", de Shri Shrimad
Bhaktivedanta Narayana Goswami Maharaja- Editora Braja


