segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Amigo Bicho- Parte I

   


   É com desespero que anuncio o desaparecimento                             

                                    de minha cachorra, um pincher  de  pequeno  porte.

                                    Ela é marrom  clara, bem  magrinha, pesa  cerca de

                                   1,5 kg.  Tem  orelhas  pontudinhas, rabinho  curto,

                                    três  anos  de  idade. Ela  se  perdeu  na  praia  de

                                    Ipanema no dia 16  de fevereiro, terça-feira de

                                    Carnaval  por  volta  das 11:00 hs.  Estamos

                                    procurando todos os dias. Temos uma criança

                                    que sofre muito com o desaparecimento. Fizemos

                                    buscas na praia  e  continuamos  procurando. Se

                                    alguma família  estiver  com  a  cachorrinha, por

                                    favor  devolva  nosso  bichinho. Desde  já,

                                    agradecemos qualquer informação.

                                   

 

                                                              Gisele Abreu Machado, Ipanema
                                                                   (Diário Gaúcho, 23/02/2010)


      

          Em seu programa matutino na Rádio 104 FM, nos dias 22 e 23 de fevereiro, o comunicador J. Crow também noticiou o extravio daquele pequeno animal de estimação. Ambas as tentativas, no entanto, não     surtiram o efeito esperado, fazendo cair em depressão todos naquela casa, exceto Lígia. A ausência de Chiquita, a personalidade canina em questão, deixou um vazio inversamente proporcional ao seu tamanho. Era uma cadelinha bastante amorosa, que costumava roçar-se nas pernas dos donos até receber carinho. Deitava-se de barriga pra cima e com olhos suplicantes induzia-os a alisar-lhe com os pés, desde o ventre até o pescoço. Uma vez atendida, protestava a cada interrupção da carícia, pondo-se de pé e arranhando-lhes com delicadeza as pernas. Era alegre ao extremo e sua alegria contagiava-os tanto que eram raras as brigas e discussões naquele lar. O seu rabinho balançava em movimentos ultra-rápidos toda vez que ela simplesmente ouvia a voz de alguém, como se estivesse de fato entendendo cada palavra pronunciada. Buscava os olhares daquelas pessoas da mesma forma que a margarida branca dos campos retorce-se para aproveitar o sol. Lembravam duas minúsculas e brilhantes pedras de quartzo aqueles olhos ternos, meigos e vívidos. Brincava com qualquer objeto colocado ao seu alcance, desde chinelos e pantufas no chão até novelos de lã, jornais e garrafas pet largadas em cima de cadeiras ou mesas. Essa faceta sapeca despertou a antipatia de um único membro da família, que não tolerava, em hipótese alguma, ver a casa desarrumada.

            Lígia fulminava a cachorrinha com olhares de rancor toda vez que encontrava o pátio de pernas para o ar. Vassoura caída, havaianas desaparecidas, meias rasgadas, tudo isso irritava-a com uma profundidade espantosa. Fazia uma tempestade em copo d’água, estressando-se facilmente enquanto os outros reagiam com bom humor diante das peripécias do bichinho. Gisele, sua irmã, no auge do desespero e inconformada com o sumiço de Chiquita, suspeitou dela como a possível mentora intelectual  do desaparecimento, reparando que parecia tranqüila demais para aquele momento tão desolador.

            Tal desconfiança abalou sensivelmente a relação entre as duas, que se tornaram praticamente estranhas e não mais confidenciavam segredos uma para a outra. Nem mesmo as refeições faziam juntas, parecendo a cada dia mais distantes. De fato, encaravam de maneiras diferentes a perda de um mero animalzinho de estimação.

            “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, e as lágrimas de saudade derramadas por Gisele e a filha Páti acabaram abrindo uma brecha nas sólidas paredes do coração de Lígia. Por essa brecha penetraram lembranças que a fizeram refletir. Após mergulhar no passado e posteriormente comparar o ontem com o hoje, desejou, acredite, ver a casa novamente desarrumada. Lamentou em seu íntimo não ter percebido antes o quanto a cadelinha fazia falta naquele lar. A possibilidade de nunca mais ouvir aqueles latidos finos e sentir o arranhar daquelas frágeis patinhas em busca de carinho, assustou-a. Passou então a acompanhar sua irmã, o cunhado e a sobrinha nas buscas intermináveis que faziam diariamente pelos quatro cantos do bairro Ipanema. Em casa, á noite, levantava abruptamente da cama toda vez que ouvia lá fora latidas semelhantes à da pequenina. Corria afoita até a janela da frente e abria as duas folhas de madeira com pressa, recebendo em cheio no rosto a aragem fria da madrugada. Voltava então, frustrada, ao seu quente e aconchegante leito e de tanto repetir esse vai-vem, acabou contraindo um resfriado que lhe fez arder em febre durante uma semana inteira.

            Tão logo se recuperou, prosseguiu com determinação redobrada a sua tarefa investigativa. Foi incansável na procura, movida pela saudade e o arrependimento que aumentavam a cada dia. Chegava do trabalho por volta das 18:30 e sem pausa para um banho ou descanso lançava-se a novas buscas, guiando lentamente o seu Ford KA azul marinho. Percorreu Pet Shops, escolas, praças e até botecos na esperança de obter pistas que levassem-na a achar aquela agulha no palheiro.

 

       (Continua no próximo post)

                                              


Fonte: O conto "Amigo Bicho", apesar de fazer parte da longínqua coletânea minha,  "O Grande Pajé" (2011) é ainda inédito por aqui.  


domingo, 27 de setembro de 2026

Os dois piores candidatos

 


          Ninguém por aqui duvida que a eleição presidencial da República Federativa do Brasil vai ser decidida apenas no 2º turno e considerável parcela do eleitorado também já constatou que os dois piores candidatos disputarão entre si esse último embate.

          Além de acentuarem a polarização partidária, dividindo o mundo em direita vs esquerda, Lula e Flavio Bolsonaro estão cometendo um erro que deveria ser considerado imperdoável no jogo democrático: Fogem dos debates na TV.


23/08/2026- Debate na TV Bandeirantes- ambos não foram.

14/09/2026- Debate organizado por pool de emissoras, cancelado

devido a prévia confirmação de ausência dos dois. 

27/09/2026-  Debate na na TV Record, cancelado pelo mesmo motivo acima.

                               

          Ora, um Chefe de Estado eleito é antes de qualquer nomenclatura, um Servidor Público e deve obedecer, do início ao fim do processo eleitoral, as regras do jogo. Eu, só pra evocar comparação, entrei no serviço público através de um concurso público, com etapas, desde as provas de conhecimentos teóricos, até a entrevista com Psicóloga, teste físico e apresentação de documentos no RH. Se me negasse á, por exemplo, ser entrevistado psicologicamente, por acaso seria eu aprovado e admitido à vaga pretendida?

          Do mesmo modo, num cargo político, trocamos apenas o processo seletivo, que depende dos votos nas urnas, no entanto, existem também exigências. Entre essas, como cláusula inegociável, deveria existir a obrigatoriedade de frequência à debates públicos, onde o eleitor consegue conferir os candidatos explanando ideias, olho no olho, diante dos adversários políticos.

          As eleições por aqui, infelizmente, não estão acontecendo assim. É bem mais cômodo Lula e Flavio, líderes nas pesquisas de intenção, ficarem discursando pra  apoiadores e atacarem-se mutuamente em redes sociais e Horário Eleitoral Gratuito, misturando verdades e mentiras pra desvirtuarem que são covardes.  

         E pensar que tem gente brigando, cortando relações, defendendo com unhas e dentes esses caras na rua...  

          Mas como brasileiro não se entrega nunca e a esperança é a última que morre, quem sabe um raio de lucidez não caia aqui no lado sul da América, trazendo discernimento ao eleitorado, fazendo grande parcela dele rejeitar os piores, dando valor á quem mostra o rosto e, na prática, esteja disposto a ser governante imparcial de todos.          

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Hino à Grandeza

 



(...) Cantarei Tua misericórdia,

e meditarei sobre o Teu poder o dia inteiro.

Glorificarei Teu Nome para sempre.

Declararei Tua glória no seio dos filhos dos homens

e minh'alma deliciar-se-á na Tua grande bondade.


Sei que Tua palavra é verdade,

que a retidão está em Tuas mãos;

que todo o conhecimento está no Teu propósito,

e que todo o poder está no Teu poder,

e que toda a glória é Tua.

Em Tua ira estão todos os castigos,

mas em Tua bondade há muito perdão

e Tua misericórdia é para com os filhos de Tua benevolência.

Pois Tu os fizeste conhecer 

os planos da Tua verdade,

e lhes ensinaste os Teus maravilhosos mistérios. (...)


Fonte: Hino de Ação de Graças extraído dos Manuscritos do Mar Morto, coletânea de textos judeus, datados de antes do aparecimento de Cristo, encontrados em 1947 em cavernas, no deserto da Judéia. 





terça-feira, 15 de setembro de 2026

Os Lanceiros Negros traídos

      


    No mês em que se festeja a Semana Farroupilha, talvez a maior celebração cívica dos gaúchos¹, o Experiencia vai na contramão dos folguedos e traz um texto que faz contraponto à essa história toda de "Heróis Farrapos". 

    Em comparação aos meus posts habituais, esse é um pouco mais longo, no entanto, dada a importância da data aqui no sul do país e o meu compromisso assumido de, sempre que possível, desmistificar histórias romantizadas demais, peço-lhes que tenham paciência e me acompanhem, se possível for, nessa máquina do tempo com destino ao mundo escravista do século 18. 


Na madrugada de 14 de novembro de 1844 ocorreu o massacre de Porongos, emboscada que vitimou soldados negros desarmados, acampados no Cerro de Porongos, no Rio Grande do Sul. O episódio ainda pouco conhecido faz parte da Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos (1835-45). A Revolução Farroupilha, a guerra civil mais longa da história do Brasil foi movida pela elite gaúcha contra o governo imperial brasileiro motivada pelos altos impostos cobrados sobre seus produtos sulistas. No decorrer da guerra, os farroupilhas proclamaram, em 1836, a independência e a república da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Necessitando de mais homens para lutar contra as tropas imperiais, os chefes republicanos começaram a cooptar negros escravizados. Mas não os seus, e sim os escravos dos adversários, que serviam aos imperiais ou estavam fugidos, com a promessa de alforria após o fim da guerra.


Os negros cooptados não lutavam pelos ideais farroupilhas, mas pela chance de liberdade. Ficaram conhecidos na história como Lanceiros Negros. Formaram 8 companhias de 51 homens cada, totalizando 408 lanceiros. Exerciam a função de tropa de choque do exército farroupilha e manejavam com destreza a lança, uma arma essencial para este tipo de combate. Aos Lanceiros Negros era vedado o uso de espadas e armas de fogo de grande poder, permitindo-lhes apenas pequenas garruchas. Além das lançadas, eram armados com adaga ou facão. Alguns eram hábeis no uso de boleadeiras como armas de guerra, principalmente para abater o inimigo longe do alcance de sua lança. Eram homens rústicos e disciplinados. Faziam a guerra à base de recursos locais. Comiam se houvesse alimento e dormiam em qualquer lugar, inclusive ao ar livre. A maioria lutava a pé e aqueles que tinham cavalo, montavam em pelo, a moda charrua. Como esporas improvisavam uma forquilha de madeira presa com tiras de couro cru. Seu vestuário era constituído de sandálias de couro cru, chiripá (tecido passado por entre as pernas e preso à cintura) de pano grosseiro, um colete recobrindo o tronco e na cabeça uma vincha (faixa) vermelha símbolo da república. Os Lanceiros Negros eram comandados por oficiais brancos, e jamais um negro chegou a um posto significante. Lutavam, marchavam, comiam e dormiam separados das tropas farroupilhas dos brancos. Importante lembrar que os principais chefes farrapos – Bento Gonçalves, David Canabarro, Gomes Jardim e até Antônio Netto, dentre outros, eram todos escravistas e continuaram tendo escravos depois da guerra. O massacre de Porongos Há controvérsias sobre o que teria facilitado o Massacre de Porongos. A maioria das evidências históricas, porém, indica que a chacina foi resultado da traição do general David Canabarro, homem forte dos farroupilhas. À época, reconhecendo a iminente derrota, os rebeldes tentavam negociar uma anistia com o império. O governo de D.Pedro II acenou com a possibilidade de induto mas o império não aceitava a liberdade dos Lanceiros. Os farropilhas deveriam entregá-los. Diante do impasse de cumprir ou não a promessa de liberdade feita aos Lanceiro, mas querendo por fim à guerra, Canabarro teria negociado com os imperiais para estes eliminarem os Lanceiros. Canabarro escreveu ao Barão de Caxias tramando a data e o local para um ataque ao acampamento dos negros no cerro de Porongos, hoje região de Pinheiro Machado (interior do Rio Grande do Sul). (ASSUMPÇÃO, 2013). Na noite anterior ao trágico episódio, Canabarro ordenou que os Lanceiros Negros fossem desarmados e separados do restante das tropas que ficaram acampadas nas imediações. Na madrugada do dia 14 de novembro de 1844, os Lanceiros Negros foram surpreendidos pelas tropas imperiais. Isolados e sem armas para se defenderem, foram massacrados, enterrando de vez a preocupação dos farrapos e acelerando assim a paz com o Império. Três meses depois, foi firmada a rendição e paz de Poncho Verde em 28 de fevereiro de 1845. Canabarro assinou o acordo confiando na “palavra sagrada” e no “magnânimo coração” de D. Pedro II. Os senhores escravistas dos dois lados trocaram abraços e promessas de lealdade. Pouco tempo depois, marcharam juntos e sob a mesma bandeira imperial contra o Uruguai, Argentina e Paraguai.

                                                 😮

    Calcula-se que, nos últimos anos do conflito, os farrapos somavam uns 5.000 homens, sendo que cerca de mil eram Lanceiros Negros. Após o massacre, porém, restaram apenas uns 120 deles, feridos, alguns mutilados. Foram entregues aos soldados legalistas e enviados ao Rio de Janeiro. Na Corte Imperial foram colocados inicialmente no Depósito de Recrutas da Praia Vermelha, depois remetidos ao Arsenal de Guerra e de lá remanejados ao Hospital Militar ou à Fortaleza de Santa Cruz. Viveram por anos em situações precárias, duvidosas e imprecisas, trabalhando como serventes, alguns recebendo ração e um mísero soldo, por vezes abonado em fumo. Consta que, liderados pelo africano Salvador Braga, escreveram um abaixo-assinado ao Imperador, pedindo uma definição para suas vidas, expondo a situação em que se encontravam, tratados como escravos, embora não o fossem mais (GOMES, 2016). Quanto a Davi Canabarro, ele foi posteriormente acusado de traição e o caso foi levado ao tribunal Militar. Mas o processo foi arquivado em 1866.



Fonte: https://ensinarhistoria.com.br/linha-do-tempo/massacre-de-porongos/



1 Indivíduos naturais do estado brasileiro  Rio Grande do Sul.












terça-feira, 8 de setembro de 2026

Ele deve...

 



                     ...Pra cada santo, uma vela.

              Pra cada conto, aumenta um ponto.

              Diz que faz e acontece.

              Depois de eleito, desaparece.  

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Reciclagem- Vida longa ao papel


 Segundo pesquisadores brasileiros, a matéria-prima proveniente de talos e raízes de cânhamo pode fortalecer o papel reciclado, prolongando a vida útil das fibras de papel reutilizadas e melhorando o desempenho mecânico em um dos maiores mercados de reciclagem de papel do mundo.

Cientistas do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV) estão estudando como a matéria-prima de caules, galhos e raízes de cânhamo pode reforçar produtos de papel reciclado que normalmente enfraquecem após repetidos ciclos de reutilização.

“Além dos ganhos técnicos e econômicos, o uso de fibras de cânhamo como reforço representa um avanço importante do ponto de vista da sustentabilidade, aumentando a eficiência da reciclagem e reduzindo a pressão sobre as matérias-primas florestais tradicionais”, afirmou o coordenador do projeto, Marcelo Moreira da Costa.

Os pesquisadores afirmaram que o estudo pode ter amplas implicações para o setor de papel reciclado do Brasil — parte de um mercado nacional de papel e cartão avaliado em cerca de US$ 10 bilhões anualmente. O país processa cerca de 6,6 milhões de toneladas de fibras recicladas por ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Florestal.

Resistência da fibra

As fibras de celulose convencionais degradam-se a cada ciclo de reciclagem, tornando-se mais curtas e frágeis com o tempo, reduzindo sua resistência e desempenho. Os pesquisadores afirmaram que as fibras de cânhamo demonstram maior resistência durante a reciclagem, permitindo que os produtos de papel sobrevivam a mais ciclos de reutilização antes da degradação.

O projeto encontra-se agora na fase final de consolidação dos resultados dos testes mecânicos de papéis produzidos com diferentes concentrações de fibra de cânhamo.

Sustentabilidade

O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de papel e papelão reciclados, o que torna as melhorias na durabilidade potencialmente significativas para o setor de papel industrial do país.

A pesquisa também reflete o crescente interesse no cânhamo industrial como matéria-prima para celulose, embalagens e outras aplicações baseadas em fibras. As longas fibras do cânhamo têm sido historicamente valorizadas por sua resistência e durabilidade em aplicações de papel especial, embora a adoção comercial em larga escala permaneça limitada por restrições de cultivo e pela viabilidade econômica do processamento em muitos países.



Fonte: hemptoday.net

domingo, 16 de agosto de 2026

O brutamontes

          

          


           Geraldo era brutamontes, Giselda que o diga. Batia quando se zangava. 

        Mas ela não denunciava.

-- Ruim com ele, pior sem ele.


Fonte: Mais um microconto, meu novo estilo de escrita.

domingo, 9 de agosto de 2026

Um pouco de Louis

 


Louis Armstrong nasceu em Nova Orleans, Louisiana, em 4 de agosto de 1901. Ele foi criado por sua mãe, Mayann, em um bairro tão perigoso que era chamado de "O Campo de Batalha". Ele só tinha o ensino fundamental incompleto, tendo abandonado a escola cedo para trabalhar. Um de seus primeiros empregos, trabalhando para a família judia Karnofsky, permitiu que Armstrong ganhasse dinheiro suficiente para comprar seu primeiro cornetim.

Na véspera de Ano Novo de 1912, ele foi preso e enviado para o Orfanato para Meninos Negros. Lá, sob a tutela de Peter Davis, aprendeu a tocar corneta corretamente, tornando-se eventualmente o líder da Banda de Metais do Orfanato. Libertado do Orfanato em 1914, Armstrong decidiu se tornar um músico profissional. Orientado pelo melhor cornetista da cidade, Joe “King” Oliver, Armstrong logo se tornou um dos cornetistas mais requisitados da cidade, trabalhando regularmente em barcos a vapor no rio Mississippi.

Em 1922, King Oliver convidou Armstrong para se juntar à sua banda em Chicago. Armstrong e Oliver se tornaram a sensação da cidade com seus intrincados solos de corneta e começaram a gravar juntos em 1923. Nessa época, Armstrong começou a namorar a pianista da banda, Lillian Hardin. Em 1924, Armstrong se casou com Hardin, que o incentivou a deixar Oliver e tentar a sorte por conta própria. Um ano em Nova York com Fletcher Henderson e sua Orquestra se mostrou insatisfatório, então Armstrong retornou a Chicago em 1925 e começou a gravar em seu próprio nome pela primeira vez.

Mais quente que isso

Os discos de Louis Armstrong e seus cinco integrantes – e posteriormente, do Hot Seven – são os mais influentes do jazz. Os solos improvisados ​​de Armstrong transformaram o jazz de uma música baseada em conjunto em uma arte para solistas, enquanto seu vocal expressivo incorporava explosões inovadoras de scat singing e uma forte influência do swing. No final da década, a popularidade do Hot Five e do Hot Seven foi suficiente para levar Armstrong de volta a Nova York, onde ele se apresentou na popular revista da Broadway, “Hot Chocolates”. Ele logo começou a fazer turnês e nunca mais parou até sua morte em 1971.

Na década de 1930, Armstrong também alcançou grande popularidade no rádio, no cinema e com suas gravações. Ele se apresentou na Europa pela primeira vez em 1932 e retornou em 1933, permanecendo por mais de um ano devido a um lábio lesionado. De volta aos Estados Unidos em 1935, Armstrong contratou Joe Glaser como seu empresário e começou a liderar uma big band, gravando canções pop para a Decca e aparecendo regularmente em filmes. Ele começou a fazer turnês pelo país na década de 1940.

Embaixador Satch

Em 1947, a queda na popularidade das big bands obrigou Armstrong a começar a liderar um pequeno grupo, Louis Armstrong and His All Stars. A formação mudou ao longo dos anos, mas este continuou sendo o principal veículo de atuação de Armstrong pelo resto de sua carreira. Ele emplacou uma série de sucessos pop a partir de 1949 e começou a fazer turnês regulares no exterior, onde sua popularidade era tão grande que ele foi apelidado de "Embaixador Satch".

Nos Estados Unidos, Armstrong foi um grande pioneiro dos direitos civis, derrubando inúmeras barreiras quando jovem. Na década de 1950, ele foi por vezes criticado por sua persona no palco e chamado de "Tio Tom", mas silenciou os críticos ao se manifestar contra a forma como o governo lidou com a crise da integração racial nas escolas de ensino médio, conhecida como "Little Rock Nine", em 1957.

Armstrong continuou em turnê pelo mundo e gravando discos com músicas como “Blueberry Hill” (1949), “Mack the Knife” (1955) e “Hello, Dolly! (1964)”, esta última tirando os Beatles do topo das paradas de sucesso no auge da Beatlemania.

Boa noite a todos!

Os muitos anos de turnês constantes acabaram por desgastar Armstrong, que sofreu seu primeiro ataque cardíaco em 1959 e retornou à UTI do Hospital Beth Israel em 1968 devido a problemas cardíacos e renais. Os médicos o aconselharam a não tocar, mas Armstrong continuou a praticar todos os dias em sua casa em Corona, Queens, onde morava com sua quarta esposa, Lucille, desde 1943. Ele retornou aos palcos em 1970, mas foi demais, muito cedo, e ele faleceu enquanto dormia em 6 de julho de 1971, poucos meses após sua última apresentação no Waldorf-Astoria, em Nova York.

Fonte: https://www.louisarmstronghouse.org



domingo, 2 de agosto de 2026

Cântico Guarani

 


Ndajarekoveima-nhankerokoá py ndajereko veima

Takua ty porã

Ndajareko veima yary ra porã

Jajapo haguã nhanderopyrã javy'a haguã heta va'kuery

Omo kanhy mba Nhanderú miri Oeja va' ekue


                                -  Tradução -


"Já não temos mais o que precisamos. Na nossa aldeia não temos mais taquareira como antigamente. Não temos mais madeira como antigamente. Já não podemos mais construir nossas ocas e nem nossa Casa de Reza, porque os não índios tomaram tudo o que nosso Deus deixou para nós."

                                

domingo, 26 de julho de 2026

Caminhos imprecisos

 


Meu caminho de volta eu fiz contando estrelas,

brincando com seus reflexos na minha pele e no chão.

Eu estava olhando o chão.

Pulava amarelinha em quadrados imaginários de giz

e ia saltando, de um em um, de dois em dois, 

tentando chegar ao céu.

Fiz curvas fechadas, vi precipícios, escapei deles,

porque asas transparentes sempre me seguraram.

Mesmo assim cheguei a ver o fundo, lá no fundo

aquele escuro que não se sabe onde termina,

porque nunca se viu onde começou.

E ainda guardo as marcas brilhantes e invisíveis

aos olhos comuns como os meus

das asas que me guardaram e sei que guardam

quando saio pela rua a contar estrelas

e a pular amarelinha nas calçadas,

tentando fazer o caminho de volta

pensando ser o caminho de ida.



Fonte: "Pintura Ingênua", poemas de Jacqueline Aisenman.

sábado, 18 de julho de 2026

Quem vence a copa

 




          A minha resposta é direta e pode, com certeza, desapontar quem esperava outra coisa dessa postagem: Não sou eu nem tampouco você, que trabalha duro pra vencer com dignidade a batalha dos impostos e faturas de cada mês. Também não é a associação sem fins lucrativos, que distribui sopa no viaduto da tua metrópole. Muito menos aquela ONG que oferece cursos profissionalizantes à menores em situação de rua.

    O vencedor dessa edição recebe, além da cobiçada taça ,  redondos US$ 50 milhões de dólares, quantia que, direcionada pro lugar certo, mitigaria a fome, ignorância e desigualdade entre muitos. Apesar de fã do esporte, não posso deixar de manifestar, nesse momento oportuno, a minha contrariedade com esse aspecto esbanjador do futebol. As cifras que movimentam a máquina futebolística, à nível nacional e continental, também, por sua vez, são milionárias e isso, de uns tempos pra cá, me tem feito refletir.

    Não por acaso, aqui no país, dirigentes de clubes e confederações têm se embrulhado em prestações de contas mal feitas e desvios múltiplos de repasses. Poucas atividades personificam tão esplendidamente o monstro horripilante da má distribuição de renda.

     E pra encerrar com chave de ouro,  deixo-vos à título de informação, os valores que cada seleção desembolsou nessa brincadeira toda.


  • Campeão: US$ 50 milhões
  • Vice-campeão: US$ 33 milhões
  • 3º lugar: US$ 29 milhões
  • 4º lugar: US$ 27 milhões
  • 5º ao 8º lugar: US$ 19 milhões
  • 9º ao 16º lugar: US$ 15 milhões
  • 17º ao 32º lugar: US$ 11 milhões
  • 33º ao 48º lugar: US$ 9 milhões

                                    😮

sábado, 11 de julho de 2026

Um dia na colheita do café -século XVIII

 


Partida para Colheita de Café. Fotografia de Marc Ferrez, Década de 1880. Acervo do Instituto Moreira Salles. As vésperas da ¹Lei Áurea, a grande maioria da população de escravizados estava no interior, cerca de 720.000 pessoas, ou 5% da população brasileira da época

Nas fazendas de café eram comuns as jornadas de trabalho de quinze a dezoito horas diárias, iniciadas, ainda de madrugada, ao som do sino que despertava os escravos para que eles se apresentassem ao feitor, para receber as tarefas. Se as atividades fossem próximas à sede da fazenda, iam a pé; se mais distantes, um carro de boi os transportava.

O almoço era servido lá pelas dez horas da manhã. O cardápio constava de feijão, angu de milho, abóbora, farinha de mandioca, eventualmente toucinho ou partes desprezadas do porco, rabo, orelha, pé etc. e frutas da estação como bananas, laranjas e goiabas.

A refeição deveria ser feita rapidamente, para não se perder tempo, e de cócoras; os negros tinham que engolir tudo porque logo em seguida a faina continuava. Por volta de uma hora da tarde, um café com rapadura era servido substituído nos dias frios por cachaça, e às quatro horas jantava-se. Aí, comia-se o mesmo que no almoço, descansava-se alguns minutos e retomava-se o batente até escurecer.

Cumpria-se, então, o ritual da manhã, todos se apresentando ao administrador ou dono, conforme o caso da fazenda. Era quando, após uma breve oração, iniciava-se o serão que constava, geralmente, da produção ou beneficiamento de bens de consumo. Só lá pelas nove ou dez horas da noite é que o escravo podia se recolher. Isso para alguém que, no verão, levantava por volta das quatro horas da madrugada. Antes de se deitar, fazia uma refeição rápida e, extenuado, descansava até a jornada do dia seguinte.

Aos dez ou 11 anos, meninos e meninas escravizados eram apresentados ao universo produtivo da roça, com trabalhos semelhantes aos exigidos dos adultos. Isso significava que eles deixariam as tarefas domésticas diárias, como espantar moscas, carregar porcelana para o chá, trazer água do poço, ser companheiros de brincadeira para as crianças brancas, cuidar de outras crianças escravas e ajudar suas mães em tarefas simples para se tornarem trabalhadores regulares.

Havia também o medo da separação das mães de seus filhos, por meio de vendas a outras fazendas, sendo que somente em 15 de setembro de 1869 pelo decreto 1695 se passou a proibir a separação das famílias escravas: “Art. 2º Em todas as vendas de escravos, ou sejam particulares ou judiciais, é proibido, sob pena de nulidade, separar o marido da mulher, o filho do pai ou mãe, salvo sendo os filhos maiores de 15 anos.


1 Lei assinada em maio de 1888 pela princesa portuguesa Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga. Em tese, ao entrar em vigor, acabou com a escravidão no Brasil.



Fonte: Escravidão no Brasil Por Jaime Pinsky

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A ganja e o Humberto

 

Cauã

(...) O tal Humberto da granja encabeçava a lista dos que desejavam vê-lo(Cauã) bem longe dali . O homem de 44 anos, criador de galinhas, tinha como principal fonte de renda a comercialização de ovos. Tinha também uma micro criação de suínos. Ano após ano ele comprava cinco ou seis porcos, alimentava-os bem e em dezembro, um pouco antes dos festejos natalinos, sangrava-os até a morte, vendendo-os em pedaços para a vizinhança. Do pai, já falecido, herdou a granja e a paixão pelo samba. Samba que não era feito com pandeiro, surdo, cavaco e violão, mas com cachaça e coca-cola, servido em botecos da periferia. Bebia diariamente e sob o amparo da lei, dois ou três copos do “elixir” que o ajudava a esquecer mágoas, ganhar ânimo e tomar decisões. Costumava dirigir  o seu  velho  Passat   cinza  em   alta  velocidade quando se embriagava e ficava violento quando era contestado. Em março de 2005, durante a festa de aniversario da prima, num acesso de fúria, deu um tiro em seu cunhado, que, segundos antes, chamara o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense de “timinho mixuruca”. Contratou logo em seguida um bom advogado e alegou, com sucesso, ter agido apenas em legítima defesa.

            Numa noite qualquer, ao voltar do boteco, Humberto sentiu o odor proibido (ganja) exalando da cabana e tomou finalmente a decisão que há algum tempo vinha arquitetando. Estacionou o veículo a dois quarteirões do local, em frente a um orelhão, desceu um pouco cambaleante e daquele aparelho telefônico acionou uma patrulha policial. Vinte minutos após, quando a nuvem de fumaça já havia se desvanecido no ar, uma viatura da Brigada deslocou-se ao endereço apontado para proceder às averiguações. Da cabana escutavam-se apenas os precisos acordes do violão de Cauã, e o único cheiro que exalava desprendia-se da graciosa árvore pitangueira plantada por Dona Íria em sua calçada. Uma brisa fresca encarregava-se de espalhar pela rua o perfume daquele fruto tropical, proclamando aos moradores da Terra o pleno domínio da primavera. (...)


Enxerto do conto "O homem da Ganja" do meu livro "O Grande Pajé" (2011)



domingo, 14 de junho de 2026

O WhatsApp, segundo a Psicologia

 


Prefere mandar mensagens escritas no WhatsApp em vez de gravar áudios? A psicologia explica o que essa escolha pode revelar sobre sua personalidade, empatia e forma de se comunicar.

Você é do time que manda mensagem escrita no WhatsApp ou do time que adora gravar áudio? 

Apesar de muitos encararem essa escolha apenas como uma questão de preferência ou agilidade no dia a dia contudo, especialistas em psicologia apontam que ela pode estar relacionada a características específicas da personalidade e à forma como cada indivíduo processa suas relações sociais. 

De acordo com a Associação Americana de Psicologia, pessoas que priorizam a comunicação por texto buscam controle, consistência interna e clareza emocional. Elas não evitam o contato, mas escolhem um canal no qual possam se expressar sem improvisação, considerando cuidadosamente tanto o conteúdo quanto o impacto da mensagem.

                                 1. Pessoas introvertidas

A preferência pela escrita é bastante comum entre indivíduos introvertidos. Ao contrário do que muitos pensam, eles não evitam o contato social, mas costumam administrar sua energia emocional com mais cautela. 

As mensagens de texto oferecem um ambiente mais confortável para interagir, sem a pressão de responder imediatamente ou a necessidade de se expor por meio da voz. 

Esse formato permite que participem das conversas no próprio ritmo, preservando seu bem-estar emocional.

2. Comunicadores reflexivos

Outro perfil frequentemente associado às mensagens escritas é o das pessoas reflexivas. Elas tem a tendência de analisar cuidadosamente o que desejam comunicar antes de enviar uma resposta. 

A escrita funciona como uma ferramenta que possibilita organizar pensamentos, revisar argumentos e garantir que a mensagem represente exatamente suas intenções. Por isso, costumam valorizar a clareza, a coerência e a precisão das palavras escolhidas.

       3. Pessoas independentes e autônomas

A escolha pelo texto também aparece com frequência entre indivíduos que valorizam autonomia e independência. Como a comunicação escrita não exige respostas instantâneas, ela permite mais tempo para refletir e formular opiniões sem a influência da pressão do momento. 

Esse comportamento costuma estar relacionado à segurança nas próprias decisões e à capacidade de sustentar posicionamentos de forma tranquila e racional.

Assim, para psicologia, escolher por mensagens escritas em vez de áudios está longe de ser uma simples preferência tecnológica. Em muitos casos, essa escolha pode refletir traços importantes da personalidade, como introspecção, empatia, reflexão e autonomia emocional.

4. Pessoas com alta empatia

Muitos adeptos das mensagens de texto também demonstram grande preocupação com o impacto que suas palavras podem causar nos outros. 

A comunicação escrita oferece a oportunidade de ajustar o tom da conversa, evitar interpretações equivocadas e transmitir emoções de maneira mais cuidadosa. 

Em vez de agir por impulso, essas pessoas costumam considerar como a pessoa do outro lado da tela vai receber a mensagem, buscando reduzir desconfortos e possíveis conflitos.


Fonte: purepeople.com.br                                                                                      






domingo, 7 de junho de 2026

A meditação mântrica

 




           Os populares "Hare Krishnas" são conhecidos pela maior parte da sociedade como figuras exóticas de modos e trajes típicos. Quem nunca foi abordado por um "Hare" vendendo incensos ou livros no ônibus, ao menos avistou um grupo tocando instrumentos musicais indianos entoando repetidamente:

                              Hare Krsna, Hare Krsna

                              Krsna Krsna, Hare Hare

                              Hare Rama, Hare Rama

                              Rama Rama, Hare Hare

            Na verdade, no mundo ocidental, pouco se sabe a respeito da cultura que os inspira. O processo de cantar e ouvir as glórias de Deus, a meditação mântrica, as escrituras sagradas, os mestres espirituais, a alimentação lacto-vegetariana e a adoração a deidades compõem um universo ainda pouco familiar aos olhos ocidentais. Sabe-se que seus hábitos são oriundos da Índia, mas o seu significado é pouco compreendido.

            A base do movimento pela consciência de Krishna é a cultura védica, a mais antiga da humanidade. Todos os seus aspectos (religiosos, filosóficos, científicos, sociais, etc.) estão voltados para a espiritualidade, para a busca da auto-realização e o contato com Deus.

            O Senhor é o proprietário de todo o universo e assim pode ser conhecido por diferentes nomes, em diferentes lugares. Qualquer nomenclatura que se relacione ao Senhor Supremo é tão sagrada quanto as outras. Todas dizem respeito à Deus. Estes Santos nomes são tão poderosos quanto Ele e nada impede que alguém os cante glorificando-O através do nome específico pelo qual é conhecido em determinada religião ou região. A literatura védica milenar da Índia reconhece o mantra Hare Krsna como Supremo - Maha-mantra -  pois contém todos os outros.

            O nome KRISHNA significa "o todo-atrativo", RAMA o "todo-agradável". HARE é uma súplica à energia interna de Deus. Quando cantamos o Maha-mantra estamos orando ao Senhor todo-atrativo, à sua potência interna de prazer, que nos aceite e possamos satisfazê-Lo servindo-O. 

            Mantra é a vibração sonora capaz de nos conectar à energia Suprema que controla todas as coisas, materiais e imateriais. Ao entoarmos mantras, automaticamente entramos em contato com níveis superiores de consciência e ultrapassamos os limites dos padrões mentais condicionados. Assim, podemos desenvolver o controle mental e atingir o equilíbrio emocional necessário para uma vida saudável e harmoniosa. Não há nenhuma restrição para a prática da meditação mântrica. Pelo contrário, o processo de cantar mantras é indicado como o processo ideal para o homem moderno na busca da auto-realização. Descubra a paz em meio ao caos.


                                 🙏


  Fonte: Informativo do Centro de Estudos Védicos de Porto Alegre